O tempo na ficção

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

Narrador, personagem, enredo e linguagem são as que recebem mais atenção dos ficcionistas.

Tempo e espaço, ao contrário, são as categorias que os ficcionistas menos reelaboram e subvertem. Há algo de aparentemente inflexível na noção cotidiana de tempo e espaço, algo que parece fixo e imutável.

Talvez por isso os escritores se esforcem tanto pra manter a corriqueira ilusão espaçotemporal, de índole naturalista.

Podem até inventar narradores excêntricos e personagens bizarros vivendo aventuras insólitas, mas, nos quesitos tempo e espaço, preferem não fugir da tradicional ordem cronológica e geométrica dos fatos. Escolhem reforçar a ilusão de causalidade, em vez de desmontá-la.

Na literatura e no cinema, porém, há exemplos excelentes de narrativas que tratam o tempo de maneira pouco convencional.

No romance Um dia, o narrador de David Nicholls acompanha os protagonistas durante duas décadas, mas cada capítulo focaliza apenas um dia do ano: 15 de julho.

No romance Orlando: uma biografia, Virginia Woolf nos apresenta um protagonista que simplesmente não envelhece. Fenômeno semelhante ocorre com o garoto de doze anos do conto Saudações e adeus, de Ray Bradbury.

No conto O curioso caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald, o protagonista nasce velho, vai rejuvenescendo ao longo da narrativa, até se transformar num feto e morrer.

No conto Viagem à semente, Alejo Carpentier inverte a seta do tempo e a história transcorre como num filme projetado de trás pra frente: os personagens rejuvenescem, os ponteiros do relógio giram no sentido contrário, a fumaça entra na chaminé, a água sobe para a torneira etc.

Um romancista brasuca, partindo da mesma premissa, conseguiu subverter não só nossa trivial noção de tempo, mas também de leitura. O romance Um minuto, de Newton Cesar, pede pra ser lido de trás pra frente. Você começa pela última linha, lá na página 197, vai subindo, vai voltando, e termina na primeira linha da página 9. No plano narrativo, o tempo também retrocede para o protagonista inicialmente velho e senil, que vai rejuvenescendo, ganhando saúde e agilidade.

No curta-metragem Palíndromo, de Philippe Barcinski, a projeção-de-trás-pra-frente faz de uma narrativa banal algo muito interessante.

No romance O jogo da amarelinha, Julio Cortázar embaralha a ordem dos capítulos, propondo ao leitor que leia na seqüência que preferir.

Numa passagem do romance Ubik, de Philip K. Dick, os personagens permanecem os mesmos, mas a tecnologia e os objetos retrocedem: um computador de última geração se transforma num computador de vinte anos atrás, depois numa máquina de escrever, o mesmo acontecendo com as roupas, os automóveis, os edifícios etc.

No filme O feitiço do tempo, de Harold Ramis, o protagonista fica preso numa fatia de tempo e é obrigado a reviver o mesmo dia inúmeras vezes. Essa divertida premissa já foi usada em muitas outras obras de ficção literária e audiovisual.

Em Amnésia, Christopher Nolan inverte o calendário, contando uma história de trás pra frente (o primeiro capítulo é na verdade o último da ordem cronológica). O mesmo ocorre no longa-metragem Irreversível, de Gaspar Noé, e no magnífico curta-metragem T.R.A.N.S.I.T., de Piet Kroon.

Em Corra, Lola, Corra, de Tom Tykwer, o tempo cronológico apresenta bifurcações que a protagonista consegue reavaliar quando a escolha inicial dá errado. Esse filme realiza na tela a premissa de um conto de Jorge Luis Borges, o genial Exame da obra de Herbert Quain.

Outra forma de subverter a causalidade numa narrativa é fazer o herói viajar no tempo e alterar um fato histórico qualquer. Ou encontrar seus múltiplos eus do passado e do futuro.

A maioria dos escritores de ficção científica já escreveu sobre viagens no tempo. Bons exemplos na literatura e no cinema não faltam: A máquina do tempo, de H.G. Wells, O fim da eternidade, de Isaac Asimov, a trilogia De volta para o futuro, de Robert Zemeckis, etc. O número de exemplos é quase infinito.

No divertido conto All you Zombies, de Robert A. Heinlein, um viajante no tempo descobre que é, nada mais nada menos, pai e mãe de si mesmo. Esse conto ganhou uma boa adaptação para as telas, intitulada O predestinado, dirigida pelos irmãos Michael e Peter Spierig.

No conto O outro, de Borges, o velho Borges tem uma provocativa conversa com o jovem Borges.

No filme brasuca O homem do futuro, de Cláudio Torres, o protagonista encontra-se com outros dois eus de épocas diferentes.

Exercício

Escreva uma breve ficção (entre vinte e trinta linhas) em que a categoria tempo seja subvertida de alguma forma.

Comentário:
Qualquer hora, se conseguir reunir a habilidade e o talento necessários, quero escrever a história de um sujeito que tem quarenta anos, no dia seguinte volta a ter oito (mas se lembra que já teve quarenta), no outro dia salta para os oitenta (sempre se lembrando de tudo) e assim por diante, coitado.
Se essa história já foi contada num livro ou filme, por favor, me avisem. Vou querer ler-assistir.

Post-scriptum de 2014: o longa-metragem Shuffle, de Kurt Kuenne, lançado em 2011, é exatamente essa história. O filme narra a desventura de um sujeito cuja cronologia está fora de ordem, embaralhada. A cada dia ele acorda numa idade diferente, num dia diferente de sua vida, indo e voltando na linha cronológica, e sempre se lembrando de tudo.

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