Crimes que compensam

Agatha Christie e Simenon

Quem não aprecia um bom assassinato? Homicídios por envenenamento, estrangulamento, arma branca ou de fogo movimentam milhões de leitores e bilhões de dólares.

As narrativas policiais são uma equação que reúne quatro categorias: criminoso, vítima, crime e investigador. Cada ficcionista trabalha essas categorias de maneira muito particular.

Uns concentram a atenção um pouco mais na psicologia do investigador ou da vítima (James Patterson, Arnaldur Indridason), outros preferem mergulhar na dinâmica do crime: a motivação e os detalhes da execução (Elmore Leonard, Denis Johnson).

Há ainda os que decidem trabalhar a psicologia do criminoso (James M. Cain, Stieg Larsson), deixando em segundo plano as outras categorias.

A inglesa Agatha Christie (1890-1976) e o belga Georges Simenon (1903-1989), dois dos autores mais prolíferos da literatura policial, exercitaram as três modalidades.

Agatha Christie publicou mais de oitenta livros; Simenon, mais de quatrocentos. Foram traduzidos no mundo todo. Hercule Poirot, Miss Marple e Jules Maigret – popstars da investigação – já circulam no Brasil há décadas.

Uma pequena parte dessa invejável produção acaba de ser relançada, em nova roupagem, pela Globo Livros e pela Companhia das Letras.

O pacote de oito títulos de Agatha Christie traz cinco casos de Hercule Poirot, incluindo O misterioso caso de Styles, estreia da ficcionista, em 1920, e de seu detetive mais querido.

Na apresentação, John Curran revela que esse romance foi a resposta da jovem escritora ao desafio da irmã, lançado quatro anos antes: “Aposto que você não é capaz de escrever uma boa história de detetive.”

Miss Marple não está nessa leva de relançamentos. Mas a simpática e astuta velhinha deve aparecer em breve, quem sabe resolvendo o mistério do Assassinato na casa do pastor, de 1930, seu primeiro romance.

O destaque do pacote de títulos da Rainha do Crime é certamente E não sobrou nenhum, anteriormente batizado de O caso dos dez negrinhos. Publicado em 1939, é considerado o melhor romance policial de todos os tempos.

A história das dez pessoas confinadas numa ilha, assassinadas uma a uma de acordo com uma antiga cantiga infantil, vendeu mais de cem milhões de exemplares e foi adaptada várias vezes para o cinema e a tevê.

Também muito adaptada para o cinema e a tevê é a obra de Simenon.

Publicado em forma de folhetim no ano anterior, em maio de 1931 foi lançado Pietr, o letão, oficialmente o primeiro romance protagonizado pelo comissário Maigret e sua equipe (o herói não trabalha sozinho, e isso foi uma grande novidade na época).

Em dezembro do mesmo ano já eram onze os romances de Maigret publicados, e um não-Maigret, como dizia o próprio autor. Todos best-sellers.

Também em nova roupagem, cinco romances desse ano milagroso voltam às livrarias brasucas, Pietr, o letão entre eles.

Maigret é um funcionário público, quase um cidadão comum, que se compadece dos criminosos, e isso também foi uma novidade na época. Atento apenas aos fatos, seu bordão predileto é: “Nada de suposições, nada de conjecturas”.

Agatha Christie e Simenon deram início à era de ouro da literatura policial. Pertencem à escola do otimismo e do idealismo. Em suas ficções a justiça sempre triunfa.

Os investigadores criados por esses mestres são temperamentos pacíficos e analíticos, que solucionam os crimes por meio do raciocínio, não da violência.

Descendem do primeiro detetive digno desse título: Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe, pai da narrativa policial. Também descendem de Sherlock Holmes, criação suprema de Arthur Conan Doyle.

Passam longe desse universo elegante a violência, o erotismo e as bebedeiras da escola hard-boiled, de Dashiell Hammett, Raymond Chandler e outros.

Mas atualmente os filhos do hard-boiled e do roman noir dominam a cena. O equilíbrio entre otimistas e pessimistas é coisa do passado.

As narrativas de Rubem Fonseca e Cormac McCarthy expressam essa vitória do cinismo e da imoralidade. O pessimismo encerrou a briga por nocaute.

Então, ainda está para ser solucionado o maior mistério que ronda os clássicos de Agatha Christie e Simenon: sua permanência.

Os best-sellers de outrora são narrativas lentas, se comparadas com as de hoje. Essa diferença de ritmo atrapalha sua apreciação pelos leitores mais jovens, acostumados à violenta aceleração dos games e das séries de tevê, imbatíveis.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de agosto de 2014 ]

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