O espaço na ficção

Como subverter a categoria espacial numa obra de ficção?

Adolfo Bioy Casares faz isso em sua narrativa mais famosa, A invenção de Morel.

Numa ilha aparentemente deserta do Pacífico, um fugitivo da lei encontra um grupo de pessoas e passa a espioná-las. Mas essas pessoas, nosso pobre xereta logo descobre, não são de carne e osso. São representações tridimensionais (holografias perfeitas) de turistas que estiveram na ilha, mas já desapareceram.

O conto Chegarão chuvas suaves, de Ray Bradbury, é protagonizado por uma casa deserta, automatizada, numa cidade devastada.

Por sua vez, Robert A. Heinlein concebe, no conto And he built a crooked house, uma casa em forma de hipercubo, com suas faces conectadas à quarta dimensão. Por fora, a casa é um cubo comum. Por dentro, todas as passagens levam a outros cubos, e as janelas abrem para lugares distantes no espaço e no tempo.

O romance de Stanisław Lem, Congresso futurológico, fala do espaço criado apenas em nossa mente, por substâncias alucinógenas. Realidade virtual também é o tema do romance Simulacron-3, de Daniel F. Galouye. Há ótimas versões cinematográficas desses dois livros.

No romance Jumper, de Steven Gould, o herói tem a habilidade de se teletransportar para qualquer lugar do planeta. O livro foi levado às telas pelo diretor Doug Liman.

A redução e a ampliação do espaço acontecem em certos momentos de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E nos filmes Viagem fantástica e Querida, encolhi as crianças. E no seriado que eu AMAVA quando era criança: Terra de gigantes.

O espaço cotidiano também muda em O incrível homem que encolheu, de Richard Matheson. Nesse romance um pai de família de classe média observa que tudo ao seu redor − esposa, filhos, objetos − está ficando maior a cada dia. Ou então é ele quem está encolhendo sem parar.

Outro exemplo de uso inusitado do espaço pode ser conferido no curta-metragem Tango, de Zbigniew Rybczynski, em que ocorre uma hipnótica sobreposição de personagens e ações.

Essa também é a premissa do curta-metragem Le portefeuille, de Vincent Bierrewaerts, em que um rapaz pára perto de uma carteira perdida na sarjeta. A partir daí a história mostra quatro alternativas de desenvolvimento.

Na primeira, o rapaz não vê a carteira e segue em frente. Na segunda, ele pega a carteira e segue em frente. Essa trilha também se bifurca: num caminho, o rapaz embolsa a grana e joga no lixo a carteira vazia. Noutro caminho, ele decide devolver a carteira com o dinheiro. Essa trilha também se bifurca. Num caminho, o rapaz se dá mal. Noutro caminho, nada de grave acontece.

O interessante é que as realidades paralelas acontecem simultaneamente, no mesmo espaço.

Certas gravuras ilusionistas de M.C. Escher também perturbam nossa trivial percepção do espaço tridimensional.

Por fim, no conto A biblioteca de Babel, todo o universo é transformado, por Borges, numa vasta biblioteca composta de um número absurdo de pequenas galerias hexagonais.

Exercício

Escreva uma breve ficção (entre vinte e trinta linhas) em que a categoria espaço seja subvertida de alguma forma.

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