Archive for novembro \25\UTC 2014

Os trinta Valerios

25/11/2014

Os trinta Valérios

Cuidado com o que você procura,
pois você pode rachar.

Tanto me procurei que me encontrei,
muito longe de casa, em Antananarivo,
capital não sei de onde.

Conversamos mal, o café azedou.
Não fui com a minha cara.

Parei de me procurar fora da concha,
mas outros eus menos caramujos
logo vieram atrás de mim.

O mais tagarela chegou de Ankara;
o mais mandala, de Katmandu.

Juro que eu nem sonhava
que Valerios do mundo turvo visitavam
Valerios no mundo torto.

O mais esquentado veio de Phoenix;
o mais felino, da gata que o pariu.

Fodeu geral: dos vinte e nove eus
apaixonei-me por três,
expulsei dez e matei seis.

(Quem abriga muitos brigões
não devia amolar facas.)

Neste olivelório de Valerios,
só não tenho certeza se estou
gritando ou calado, em pé ou deitado.

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Os trinta Valérios
Esse é o título de uma fotomontagem fascinante, considerada a primeira do Brasil, feita em 1901 pelo fotógrafo carioca Valério Vieira. Trata-se de um auto-retrato bastante original e espirituoso, em que um bando de Valérios participa de um sarau insólito. Nesse salão do começo do século 20, até os retratos na parede e o busto de mármore reproduzem o rosto do fotógrafo. Foi numa oficina de colagem coordenada pela artista Sônia Magalhães que o poeta Valerio Oliveira ficou conhecendo essa fotomontagem.

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Feria Internacional del Libro de Guadalajara 2014

20/11/2014

FIL 2014

Destinaçao Brasil 2014

Por tercer año consecutivo, la Feria Internacional del Libro de Guadalajara abre sus puertas a las letras brasileñas, y en este 2014 doce nuevas voces se suman a las 23 que han participado en las ediciones pasadas de este Festival. Los asistentes a este acontecimiento escucharán hablar de varios Brasil contrastantes y hasta contradictorios; ficciones que se nutren del paisaje de Pernambuco en el noreste del país, o de la vibrante Sao Pablo, o del sur profundo; cariocas detractores de la samba, brasileños asentados en California o nacidos en Buenos Aires, escritores venidos de regiones con minas de oro agotadas. Destinaçao Brasil este año promete un riquísimo paseo por este gigante del que se conoce tan poco, literariamente hablando, en el resto de nuestro continente. [ Texto de abertura do catálogo ]

“Distrito federal” no Canto Madalena

19/11/2014

É hoje

“Distrito federal” no caderno PrOA, da Zero Hora

12/11/2014

Zero Hora

O jornalista Carlos André Moreira estampou um trecho do novo romance e uma gravura do Teo Adorno, na edição da Zero Hora de domingo passado.

Obrigado, meu caro!

André Carneiro: desbravador de escuridões

07/11/2014

AndreCarneiro

Por indicação de Roberto de Sousa Causo, foi durante a organização da coletânea de contos Futuro presente, para a editora Record, que entrei em contato pela primeira vez com André Carneiro. Conversamos por telefone e André enviou para o livro o conto Paralisar objetivos, uma narrativa intrigante sobre pessoas misteriosas em busca da onisciência.

Causo também me presenteou com a coletânea A máquina de Hyerónimus, excelente, lançada pela editora da UFSCar. André Carneiro, que pouco tempo antes eu não conhecia, entrou imediatamente para a pequena lista de meus autores prediletos. Seus contos mais inquietantes costumam frequentar meus laboratórios de criação literária, entre eles o irreverente Meu nome é Go.

Na pele do famigerado Luiz Bras, tive a prazerosa oportunidade de entrevistar o autor para o jornal Cândido, de Curitiba. André também topou participar de duas outras coletâneas organizadas pelo Luiz: Hiperconexões: realidade expandida, de poemas sobre o pós-humano (editora Patuá), e Futuro infinito, de contos de ficção científica, que sairá em 2015 pela editora Positivo.

Entre meus romances prediletos da FC brasuca está Amorquia, que também cativou Teo Adorno, meu alter ego dublê de artista gráfico. Meses atrás, Teo publicou no facebook uma breve resenha desse romance e um colorido retrato do autor.

É pena, mas nós três (Luiz, Teo e eu) nunca tivemos a oportunidade de conhecer André pessoalmente. Nosso breve contato foi apenas por telefone e e-mail. Porém isso não diminuiu nem um pouco nossa admiração por sua obra. Também não diminui a certeza de que a nova geração de leitores e críticos literários precisa descobrir urgentemente esse escritor singular, desbravador de escuridões.

Nelson de Oliveira

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Jornal Cândido: André Carneiro, o peregrino das dimensões simbólicas

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Terminei de reler o romance Amorquia, do mestre André Carneiro (alô, curitibanos: o mestre está vivendo entre vós), sobre uma sociedade futura em que o trabalho foi abolido e a dedicação total às sutilezas do sexo representa o grau máximo de civilidade e civilização.

A releitura foi melhor do que a primeira leitura, talvez por eu me sentir mais maduro, hoje, pra esse tipo de experiência literária, do que três anos atrás.

Publicado em 1991, pela Aleph, Amorquia é um dos melhores romances brasileiros dos anos 90. Tão importante quanto o cultuado Não verás país nenhum, da década anterior. Mas está fora de catálogo. Procurem na Estante Virtual, correndo.

Nesse romance André Carneiro oferece um narrador em terceira pessoa descomplicado, que simplesmente registra, de maneira transparente e objetiva, o que viu e ouviu dos personagens. Mas esse narrador impessoal habita um sistema complexo: o contraponto (polifonia). O romance é feito de dezenas de capítulos curtos e a maioria são quase minicontos autônomos. Esses capítulos reúnem-se em poucos núcleos de personagens (aparentemente) imortais. Por ordem de entrada: Túnia, Pércus, Karlow, Marta, Játera, Philte e Philomene.

Na sociedade hedonista de Amorquia as crianças têm aulas de prática sexual desde pequenas e a religião reforça o tempo todo, de modo até agressivo, o sentido sagrado do prazer carnal. Além do trabalho, também foram abolidos o amor, o casamento e a fidelidade. Semelhante ao Admirável mundo novo, a promiscuidade (anarquia amorosa) é a regra. O toque de humor fica por conta da inversão dos papeis: agora as mulheres são as caçadoras insaciáveis, enquanto os homens se queixam da cobrança absurda que a nova cultura impõe, de fazer amor várias vezes por dia.

Reforçando a polifonia, há certos capítulos aparentemente desconectados da trama principal, que abrem uma brecha nessa realidade futura, levando o leitor a outro tempo e espaço. São capítulos que citam livros bastante conhecidos (O antigo testamento, Robinson Crusoé, Teresa filósofa) ou voltam no tempo (Idade Média, Renascimento, anos 60) pra avaliar como o sexo era encarado em outras sociedades.

O narrador do romance é descomplicado e transparente, mas não sabe tudo. A onisciência não é seu ponto forte. Caráter marcado pela crise modernista da epistemologia, ele sabe tanto quanto os personagens e o leitor. A trama é cheia de elipses e segredos, cuja soma revela, mais para o final, a sombra perversa da distopia (tortura, corrupção, morte) no coração da utopia (imortalidade, prazer, sabedoria).

O desenlace é puro André Carneiro: surpreendente, lírico, subjetivo, hermético, ao mesmo tempo belo e terrível.

Teo Adorno