André Carneiro: desbravador de escuridões

AndreCarneiro

Por indicação de Roberto de Sousa Causo, foi durante a organização da coletânea de contos Futuro presente, para a editora Record, que entrei em contato pela primeira vez com André Carneiro. Conversamos por telefone e André enviou para o livro o conto Paralisar objetivos, uma narrativa intrigante sobre pessoas misteriosas em busca da onisciência.

Causo também me presenteou com a coletânea A máquina de Hyerónimus, excelente, lançada pela editora da UFSCar. André Carneiro, que pouco tempo antes eu não conhecia, entrou imediatamente para a pequena lista de meus autores prediletos. Seus contos mais inquietantes costumam frequentar meus laboratórios de criação literária, entre eles o irreverente Meu nome é Go.

Na pele do famigerado Luiz Bras, tive a prazerosa oportunidade de entrevistar o autor para o jornal Cândido, de Curitiba. André também topou participar de duas outras coletâneas organizadas pelo Luiz: Hiperconexões: realidade expandida, de poemas sobre o pós-humano (editora Patuá), e Futuro infinito, de contos de ficção científica, que sairá em 2015 pela editora Positivo.

Entre meus romances prediletos da FC brasuca está Amorquia, que também cativou Teo Adorno, meu alter ego dublê de artista gráfico. Meses atrás, Teo publicou no facebook uma breve resenha desse romance e um colorido retrato do autor.

É pena, mas nós três (Luiz, Teo e eu) nunca tivemos a oportunidade de conhecer André pessoalmente. Nosso breve contato foi apenas por telefone e e-mail. Porém isso não diminuiu nem um pouco nossa admiração por sua obra. Também não diminui a certeza de que a nova geração de leitores e críticos literários precisa descobrir urgentemente esse escritor singular, desbravador de escuridões.

Nelson de Oliveira

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Jornal Cândido: André Carneiro, o peregrino das dimensões simbólicas

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Terminei de reler o romance Amorquia, do mestre André Carneiro (alô, curitibanos: o mestre está vivendo entre vós), sobre uma sociedade futura em que o trabalho foi abolido e a dedicação total às sutilezas do sexo representa o grau máximo de civilidade e civilização.

A releitura foi melhor do que a primeira leitura, talvez por eu me sentir mais maduro, hoje, pra esse tipo de experiência literária, do que três anos atrás.

Publicado em 1991, pela Aleph, Amorquia é um dos melhores romances brasileiros dos anos 90. Tão importante quanto o cultuado Não verás país nenhum, da década anterior. Mas está fora de catálogo. Procurem na Estante Virtual, correndo.

Nesse romance André Carneiro oferece um narrador em terceira pessoa descomplicado, que simplesmente registra, de maneira transparente e objetiva, o que viu e ouviu dos personagens. Mas esse narrador impessoal habita um sistema complexo: o contraponto (polifonia). O romance é feito de dezenas de capítulos curtos e a maioria são quase minicontos autônomos. Esses capítulos reúnem-se em poucos núcleos de personagens (aparentemente) imortais. Por ordem de entrada: Túnia, Pércus, Karlow, Marta, Játera, Philte e Philomene.

Na sociedade hedonista de Amorquia as crianças têm aulas de prática sexual desde pequenas e a religião reforça o tempo todo, de modo até agressivo, o sentido sagrado do prazer carnal. Além do trabalho, também foram abolidos o amor, o casamento e a fidelidade. Semelhante ao Admirável mundo novo, a promiscuidade (anarquia amorosa) é a regra. O toque de humor fica por conta da inversão dos papeis: agora as mulheres são as caçadoras insaciáveis, enquanto os homens se queixam da cobrança absurda que a nova cultura impõe, de fazer amor várias vezes por dia.

Reforçando a polifonia, há certos capítulos aparentemente desconectados da trama principal, que abrem uma brecha nessa realidade futura, levando o leitor a outro tempo e espaço. São capítulos que citam livros bastante conhecidos (O antigo testamento, Robinson Crusoé, Teresa filósofa) ou voltam no tempo (Idade Média, Renascimento, anos 60) pra avaliar como o sexo era encarado em outras sociedades.

O narrador do romance é descomplicado e transparente, mas não sabe tudo. A onisciência não é seu ponto forte. Caráter marcado pela crise modernista da epistemologia, ele sabe tanto quanto os personagens e o leitor. A trama é cheia de elipses e segredos, cuja soma revela, mais para o final, a sombra perversa da distopia (tortura, corrupção, morte) no coração da utopia (imortalidade, prazer, sabedoria).

O desenlace é puro André Carneiro: surpreendente, lírico, subjetivo, hermético, ao mesmo tempo belo e terrível.

Teo Adorno

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