Os trinta Valerios

Os trinta Valérios

Cuidado com o que você procura,
pois você pode rachar.

Tanto me procurei que me encontrei,
muito longe de casa, em Antananarivo,
capital não sei de onde.

Conversamos mal, o café azedou.
Não fui com a minha cara.

Parei de me procurar fora da concha,
mas outros eus menos caramujos
logo vieram atrás de mim.

O mais tagarela chegou de Ankara;
o mais mandala, de Katmandu.

Juro que eu nem sonhava
que Valerios do mundo turvo visitavam
Valerios no mundo torto.

O mais esquentado veio de Phoenix;
o mais felino, da gata que o pariu.

Fodeu geral: dos vinte e nove eus
apaixonei-me por três,
expulsei dez e matei seis.

(Quem abriga muitos brigões
não devia amolar facas.)

Neste olivelório de Valerios,
só não tenho certeza se estou
gritando ou calado, em pé ou deitado.

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Os trinta Valérios
Esse é o título de uma fotomontagem fascinante, considerada a primeira do Brasil, feita em 1901 pelo fotógrafo carioca Valério Vieira. Trata-se de um auto-retrato bastante original e espirituoso, em que um bando de Valérios participa de um sarau insólito. Nesse salão do começo do século 20, até os retratos na parede e o busto de mármore reproduzem o rosto do fotógrafo. Foi numa oficina de colagem coordenada pela artista Sônia Magalhães que o poeta Valerio Oliveira ficou conhecendo essa fotomontagem.

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