Archive for dezembro \29\UTC 2014

Mensagem aberta

29/12/2014

Ao professor-pesquisador que estuda a literatura brasileira contemporânea

Prezado professor, saudações!

Um pequeno grupo de professores-pesquisadores sempre esteve atento ao cânone, mas sem descuidar do contemporâneo. Graças a esse grupo, o estudo da literatura brasileira do século 21 vem ganhando espaço na esfera acadêmica.

Tempos atrás era muito forte a resistência da universidade em refletir sobre a literatura brasileira contemporânea. Às vezes passava pelo filtro um ou outro autor (ainda) vivo, apesar da idade. Mas um autor jovem… nem pensar.

Enquanto perdurou, essa ojeriza institucional aos novíssimos escritores foi muito criticada. Principalmente pelos novíssimos.

Em respeito ao protocolo acadêmico, graduandos e pós-graduandos viviam apenas em função do cânone. Consagravam autores e obras consagrados, num círculo de consagração.

Mas nas últimas duas décadas a situação se modificou. Suspeito que por insistência da nova geração de pesquisadores.

Devagar, os romances e as coletâneas de contos ou poemas da geração mais jovem de ficcionistas e poetas começaram a ser analisados. Não apenas em TCCs e artigos acadêmicos, mas também em dissertações e teses.

Hoje, a queixa de que a universidade trabalha apenas com as obras e os autores canonizados não se justifica. Muitos ficcionistas e poetas que estrearam em livro nos últimos vinte anos também já estão sendo estudados. Até mesmo nas universidades mais conservadoras do país.

Porém, uma minoria ficou de fora dessa abertura política. Se um velho preconceito foi dissolvido, outro ainda continua intacto. Refiro-me ao tradicional preconceito contra a ficção científica brasileira.

Esse gênero literário evoluiu muito nas últimas décadas. Sensível às sucessivas renovações estéticas promovidas ao longo do século 20, sua linguagem amadureceu, sua temática se atualizou.

Apesar dessas mudanças significativas, a quase totalidade da universidade brasileira ainda enxerga a ficção científica do mesmo modo reducionista que o senso comum. Confunde, por exemplo, a ficção científica literária, mais refinada e arrojada, com a cinematográfica, mais estereotipada e conservadora.

Ignora que o gênero tem uma longa história (ainda secreta) no Brasil, a ponto de já exibir características nacionais.

De modo geral, a universidade brasileira e o senso comum ignoram sua atualidade. Acreditam que a ficção científica de hoje e a dos anos 50 e 60 são a mesma coisa. Esse é um grande e trágico engano que poderia ser evitado de maneira muito simples: pela leitura.

Brasileiros talentosos estão escrevendo com afinco. Grandes romances e coletâneas de contos de ficção científica foram publicados nos últimos vinte anos. Mas não receberam a merecida atenção da imprensa. Também não estão recebendo a merecida atenção da universidade.

A simples classificação − ficção científica brasileira − os torna invisíveis. O veredito não-li-e-não-gostei é dado. E o preconceito perdura.

Faço um apelo ao bom senso incomum, contra o mau senso comum: não despreze, sem ao menos ler. Os melhores livros publicados neste início de século 21, de ficção científica brasileira, não merecem a invisibilidade.

Na verdade, esses livros somam força com os da literatura não estigmatizada. Eles ampliam o leque temático, inserindo questões que não são abordadas pela irmã rica: biotecnologia, engenharia genética, informática, inteligência artificial, cosmologia etc.

Fazem isso com uma linguagem afiada, você logo verá, sem abrir mão dos temas tradicionais de nossa problemática realidade político-social-tropical.

Em resumo, fazem o que os bons livros sempre fizeram, não importando o gênero: investigam o drama humano. Questionam seus sistemas, denunciam as armadilhas.

Se esse apelo à leitura imparcial, sem preconceito, for atendido, mais uma injustiça histórica será finalmente banida dos centros acadêmicos de reflexão.

Um abraço,

Luiz Bras

“Distrito federal” no Guia da Folha

20/12/2014

Mini-resenha

Retrato imaginário da geração 90

15/12/2014

Retrato imaginário

A luz, sempre incansável, é a silhueta da alegria. Somos jovens, somos luminosos. (Não, meus irmãos, o que vocês estão vendo não é uma foto do céu estrelado. É um retrato da geração 90. Um retrato imaginário. Está no título.) Manuscritos atravessam a tela do computador, transa trans.

Essa mancha mais saliente à esquerda? É o Fran’s Café da rua Fradique Coutinho, 1.139. Mas não adianta procurar, esqueçam o guia turístico das crateras da lua. (Um mapa não é um mapa, é uma capitulação da mente. Não existe mais Fran’s Café na rua Fradique Coutinho, 1.139. Esse retrato é de 2001.)

Também não adianta procurar 2001 nos registros. Esse ano nunca existiu. (No centro do retrato, Marcelino Freire traduz as ásperas sutilezas do furacão.) A ventania também é a fala de Evandro Affonso Ferreira, de braços abertos, ao lado de Marcelino. A luz, sempre incansável, é a silhueta da alegria.

Manuel da Costa Pinto atravessa paredes, desarma bombas-relógio. Somos jovens, somos luminosos. (O riso enche os túneis. Fugitivos, cavamos em bando até a Casa das Rosas.) Éramos jovens, éramos luminosos, na época em que o mundo existia.

(Fogo, fogo!) As calçadas, meus irmãos, eram melhores quando tudo era inflamável. Ivana Jinkings e Plínio Martins, em chamas, cultivam o papel e a tinta. (O papel que conduz a eletricidade, a tinta que intoxica os amáveis zumbis da Livraria da Vila.)

Marçal Aquino e Luiz Ruffato, de perfil, observam a fila de ciclistas. A fila descendo a ladeira. Dizem que a lucidez abre todas as portas, até mesmo as do inferno. (Essa explosão no alto do retrato? É a geração 90: o vasto conjunto de ficcionistas brasileiros que estrearam na década de 90.)

O pisca-pisca das crianças destrói nossos desejos. João Anzanello Carrascoza sobrevoa o bairro, cartografa o movimento dos cílios. (Essas estrelas vermelhas e verdes? Formam a constelação 90: o pequeno grupo de ficcionistas da G90 presentes nas antologias publicadas pela Boitempo.)

Cada pontinho nesse retrato representa um afeto, um momento congelado de ternura. Essa mancha mais saliente à direita? É Ivana Arruda Leite, indiferente ao terremoto. Ivana segura o mapa e a chave da Vila Madalena. (Dizem que a lucidez abre todas as portas, até mesmo a das metáforas.)

Chove no centro do sol. (Qualquer retrato é metade ilusão, metade ficção.) O rapaz embaixo à direita, folheando um catálogo, é Claudio Galperin. Entortar escadas é sua habilidade mais notável. (Nessa época, meus irmãos, a atmosfera sussurrava os conselhos mais insanos.)

Não há nada mais real do que a realidade virtual. Ademir Assunção joga xadrez com Ronaldo Bressane. Partida relativista. O tabuleiro e as peças estão no século 19. Os jogadores estão no século 21. (Ademir em Tóquio, Ronaldo em Londres.) Manuscritos atravessam a tela do computador, a wop bop a loo bop a wop web boom.

A poucos metros de Marcelino e Evandro, no subsolo da rua Fradique Coutinho, 1.139, está a sala da Hedra. É sábado. O inverno não matou a clorofila. João Alexandre Barbosa é o convidado de hoje. (Essa pequena região do retrato é uma singularidade. Não pertence a 2001, mas a 2000. Ou a 1950, não sei.)

A conversa ramifica-se. Galhos e folhas atingem o teto, atravessam a laje. Marcelo Mirisola parece encantado com as raízes que reverberam Heidegger em russo. (JR Duran registra a conversa, sobrepõe datas e rostos.) Não há nada mais real do que a realidade virtual.

Se as ruas e os edifícios não mudassem tanto de endereço, o passado seria algo fácil de libertar. Freada brusca, buzinada. (Um mapa não é um mapa, é uma capitulação da mente). Congelado ao abrir a porta do táxi, Joca Reiners Terron parece enxergar apenas o avesso dos pedestres. (Pulmões, intestinos, rins, fígado.)

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Um inédito antigo, encontrado no fundo do baú.

Mensagem do Santiago Santos

14/12/2014

Capinha

Salve, LB!

Da última vez que nos falamos, ainda em SP, comentei contigo a impressão maior do DF, que eu carregava ainda lá por 1/3 do livro: a de que tava com dificuldade de selecionar as partes pra grifar. No estudo da prática literária me parece que nada substitui bons autores na hora de aprender. Lá vou eu selecionando e na medida do possível dissecando as boas passagens e rabiscando ali nos cantos as justificativas que cabem no pouco que já deu pra aprender lendo um pouco de tudo. O problema é que com essa característica diferenciada do DF (a escolha das frases curtas e dos parágrafos de, em média, 1 ou 2 linhas meio que demanda a estratificação que deixa tudo explosivo; é um livro de mais pontos que vírgulas, se isso forma algum parâmetro que desconheço) tudo é concentrado, tudo é síntese e pólvora, e em cada página tem uma coisinha que, puta merda, dá vontade de separar e explicar por que impacta tanto.

Pra começar (já comecei, mas, porra, as liberdades que um e-mail te dá, não?) a premissa é foda. Andando com o livro debaixo do braço por SP e depois Cuiabá, quem me via com o artefato (não é pra menos, um bichano de capa dura, com capa e contracapa estampadas com esse mosaico de símbolos, e lombadona vermelha − parabéns pra tua contraparte, Teo, também) perguntava que diabos era aquilo que eu tava lendo. Minha sinopse se dava nessas linhas: “O espírito do último curupira entra no corpo de um humano e começa a matar políticos corruptos porque pra ele o cheiro é insuportável. Se passa num futuro em que as cidades tomaram conta do planeta e quase não há nada da natureza por aí. Para o curupira os assassinatos são obras de arte.” E a resposta era sempre: que foda. E é mesmo. Aquele pedaço que você liberou não sei pra qual veículo, do comecinho da história, que é quando o curupira possui o cara que ele controlará pela maior parte do livro, porra, é uma puta arma de convencimento. Essa síntese, esse impacto, essa porrada, tá ali, naquelas (curtas) linhas. Foi tão convencedora que levou o amigo que me hospedou em SP a falar DF quando perguntei que livro ele queria, em agradecimento pelo sofá-cama e pelos papos madrugada adentro mesmo ele tendo que trabalhar dali a algumas horas.

Mas premissa é tempero. Nela não tão subentendidos os desvios da trama principal, como o fascínio pelo último saci; os copycats que se proliferam ao redor do curupira e criam uma ordem que o enxerga e louva como mestre, a seu contragosto; delírios artísticos no destrinchamento de cada ladrão menor ou maior dessa sociedade em que se vive durante séculos e os crimes se acumulam mais veementemente; o vizinho desagradável e seu cubo de matéria programável; as divagações sobre o mundo artístico, sobre o estado da Terra, sobre o ser humano, sobre a sociedade, sobre a vida, sobre a ambição inesgotável do acúmulo; a relutância do hospedeiro do curupira e o gradual apego deste à sensibilidade humana devido à exposição prolongada; os passeios pela área preservada no cerrado e o contato com os fantasmas dos animais; o MMORPG Distrito federal em que os jogadores são políticos e possuem poderes; Moema e sua ascensão mística no jogo e fora dele; a existência de um político honesto, uma mulher que desequilibra o curupira e o faz querer protegê-la pra salvar a humanidade; o narrador intrometido e cheio de opiniões, raivoso, fascinado, nessa revelação gradual de que se trata de uma inteligência artificial que ganhou consciência.

O livro se expande na segunda parte com a narrativa paralela do menino-menina e do próprio cubo, misturando lapsos temporais, incubação psíquica e um bom e velho bank robbery trope, e fecha de maneira apoteótica com a retomada da natureza, a fúria viva, o declínio das máquinas, a luta pela última fagulha de eletricidade, o abandono, a morte, a dúvida final que desponta no céu desse fim que não é fim, ou é, ou não importa, já que ressoa e isso é mais importante que a certeza, certo? Ou seja: pluralidade temática das boas.

Seria fácil dizer que a identificação vem naturalmente pro leitor de um país em que a corrupção é vista como o maior entrave pra gente sair de vez da posição terceiro-mundista de investimento extraviado e burocracia desnecessária, um assunto sanguenozóio. Não é privilégio nosso, claro, mas que timing, não? A insatisfação gera esses pipocos em todo canto e, sinceramente, quando estoura uma nova notícia de desvio de verba e afins não sei se haveria alguém descontente com a existência do curupira aqui hoje. Mas a identificação não vem só dessa posição de simpatia pelos atos guardados na garganta de todo mundo, vem também pela linguagem. Primeiro pelo uso da segunda pessoa, que coloca na maior parte do tempo o leitor no lugar do curupira. Em segundo pela simplicidade, grande marca da tua literatura. Pega esse pedaço aqui:

Você mantém uma lista de políticos corruptos. É uma lista beeeeeem grande. É preciso fazer justiça. Todos têm que morrer de maneira violenta. É preciso que a sociedade entenda que os criminosos do poder executivo, do legislativo e do judiciário são muitos piores do que os outros. Será que só você percebe isso com tanta clareza? Enquanto os criminosos comuns são no máximo uma gripe branda, os criminosos políticos são um câncer terrivelmente agressivo. É preciso fazer justiça, combater o tumor maligno, impedir a metástase. Você já assassinou trezentos, mas não passou da segunda página. É uma lista grande, eu sei, querido. Não estou reclamando. Acredite, estou muito orgulhosa de você. Todos têm que morrer de maneira brutal. Essa é a mensagem: corrupção pede violência, sangue. Um tumor maligno pede um bisturi, um corte firme. Sem anestesia. Você é um artista.

E por aí vai, nesse ritmo meio malemolente, uma coisa meio poética, lotada de pausas. Um diálogo mesmo, com os vícios de um diálogo que deixam a coisa fluir (na questão da fluência em alguns momentos mais frenéticos senti uma musicalidade muito característica da escrita do Marcelino Freire, que é tão cantada, e qual não foi minha surpresa ao vê-lo referenciado depois). Uma rapsódia, como você diz na abertura, jogando aí a colagem de tanta coisa e tanta fonte que não é brincadeira. Você fez isso no Sozinho no deserto extremo já, mas lá descaradamente. Aqui as referências vêm mesmo à tona na nota do autor no fim do livro (obrigado por elas, inclusive, abriram o leque pra pesquisas posteriores). Não querendo dizer que o livro é absolutamente simples; há passagens complexas, conceitos científicos, belas imagens e metáforas. E a trama é tão concatenada que não há nada de simples ali. Mas você sabe que digo simplicidade na linguagem de forma elogiosa, já entramos no assunto antes.

Aqui alguns ganchos que virariam epígrafes fácil fácil:

“Segredos são varetas de bambu que sustentam o cenário de cartolina do senso comum.” “O talento circense de gargalhar só com as mãos.” “Os últimos obtusos saem de seu esconderijo e caminham sob o sol a pino. / Sentem o calor, notam a luz monocórdia derramando agudos nos escombros.” “Icebergs deslizam na superfície oceânica do humor aquoso.”

A parte do despertar de Brasília, lá pela pág. 215, foi de cair o cu da bunda, cá entre nós. A humanização dos vários aspectos da cidade conferiu um toque surrealista que me deixou boquiaberto, foda demais.

Confesso que as repetições que se verificam em vários trechos do livro me irritaram um pouco, mais preocupado que eu estava a certa altura com a trama que com a experimentação linguística, mas os receios foram extintos quando uma plausível explicação lógica se desenhou dentro da própria história, uma justificativa pra fragmentação e ocasional repetição do narrador, que teria seu banco de dados invadido e roubado-embaralhado. Daí pra frente fez um sentido bem mais justificável que o simples efeito estético.

A mesma coisa acontece com os painéis que recheiam o livro. Aparentemente são colagens temáticas de assuntos abordados na história, mas não são mera representação; são parte da história também, a produção artística dos robozinhos revoltados com a corrupção política. Ou seja, o livro se significa enquanto artefato, que é mais do que muito livro faz, uma preocupação sensível de tornar a experiência de leitura algo completo, imersível. É o tipo de coisa que justifica um livro impresso. Gosto muito de ler no Kindle, mas como alguém que cresceu lendo no papel tenho esse apego. No futuro, creio que só as coisas que têm esse quê a mais de significado, esse cuidado, sobreviverão nas estantes dos colecionadores.

Na história tá todo mundo puto. Os robôs, as máquinas, o espírito dos animais, dos índios que por aqui viviam e foram dizimados, das criaturas folclóricas. É uma revolta em todos os níveis com esses desvios morais e os abusos de poder que se veem espelhados também na urbanização desenfreada. É um cautionary tale, um desabafo, uma vingança hipotética; ficção científica, fantasia, policial, experimental. É muita coisa. Mas no cerne é uma grande história em várias camadas. Das que fazem a gente ficar pensando depois de acabar, como a boa ficção especulativa faz. Não só sobre o que somos e o cenário que habitamos, mas pra onde vamos, o que seremos, o que cabe a nós mudar.

Bom, você sabe que isso é uma pincelada das impressões, nada mais ambicioso que um bate-papo. Não extingue de forma alguma a totalidade de associações que surgiram, mas acho que já passei da cota (uma ideia que me veio folheando aqui: a extinção da humanidade representa apenas o fim da linguagem. Os nomes é que se perderão, não mais que isso. Meio que coloca a gente no devido lugar, não? Outra: a finalidade artística do curupira era despertar a sensibilidade do povo e também significar, exprimir o trabalho dele? Por aí vai…).

Uma puta duma experiência. Brigado pela viagem, LB. Desci do trem sorridente.

Grande abraço!

Santiago

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Ao ler a mensagem acima, foi difícil controlar a alegria.
A satisfação borbulhou, escorreu dos poros.
Santiago Santos foi uma das grandes surpresas de minha visita a Cuiabá, dois anos atrás.
O rapaz nem chegou aos trinta anos e é um dos mais talentosos escritores da geração que começou a publicar nesta década.
Seus estupendos minicontos podem ser conferidos aqui: Flash fiction.
Quando um leitor-escritor incomum diz que teu livro vale a pena, o mundo sempre volta a fazer sentido por mais um tempo.

2014 foi um ano muito produtivo

06/12/2014

Livros 2014