Retrato imaginário da geração 90

Retrato imaginário

A luz, sempre incansável, é a silhueta da alegria. Somos jovens, somos luminosos. (Não, meus irmãos, o que vocês estão vendo não é uma foto do céu estrelado. É um retrato da geração 90. Um retrato imaginário. Está no título.) Manuscritos atravessam a tela do computador, transa trans.

Essa mancha mais saliente à esquerda? É o Fran’s Café da rua Fradique Coutinho, 1.139. Mas não adianta procurar, esqueçam o guia turístico das crateras da lua. (Um mapa não é um mapa, é uma capitulação da mente. Não existe mais Fran’s Café na rua Fradique Coutinho, 1.139. Esse retrato é de 2001.)

Também não adianta procurar 2001 nos registros. Esse ano nunca existiu. (No centro do retrato, Marcelino Freire traduz as ásperas sutilezas do furacão.) A ventania também é a fala de Evandro Affonso Ferreira, de braços abertos, ao lado de Marcelino. A luz, sempre incansável, é a silhueta da alegria.

Manuel da Costa Pinto atravessa paredes, desarma bombas-relógio. Somos jovens, somos luminosos. (O riso enche os túneis. Fugitivos, cavamos em bando até a Casa das Rosas.) Éramos jovens, éramos luminosos, na época em que o mundo existia.

(Fogo, fogo!) As calçadas, meus irmãos, eram melhores quando tudo era inflamável. Ivana Jinkings e Plínio Martins, em chamas, cultivam o papel e a tinta. (O papel que conduz a eletricidade, a tinta que intoxica os amáveis zumbis da Livraria da Vila.)

Marçal Aquino e Luiz Ruffato, de perfil, observam a fila de ciclistas. A fila descendo a ladeira. Dizem que a lucidez abre todas as portas, até mesmo as do inferno. (Essa explosão no alto do retrato? É a geração 90: o vasto conjunto de ficcionistas brasileiros que estrearam na década de 90.)

O pisca-pisca das crianças destrói nossos desejos. João Anzanello Carrascoza sobrevoa o bairro, cartografa o movimento dos cílios. (Essas estrelas vermelhas e verdes? Formam a constelação 90: o pequeno grupo de ficcionistas da G90 presentes nas antologias publicadas pela Boitempo.)

Cada pontinho nesse retrato representa um afeto, um momento congelado de ternura. Essa mancha mais saliente à direita? É Ivana Arruda Leite, indiferente ao terremoto. Ivana segura o mapa e a chave da Vila Madalena. (Dizem que a lucidez abre todas as portas, até mesmo a das metáforas.)

Chove no centro do sol. (Qualquer retrato é metade ilusão, metade ficção.) O rapaz embaixo à direita, folheando um catálogo, é Claudio Galperin. Entortar escadas é sua habilidade mais notável. (Nessa época, meus irmãos, a atmosfera sussurrava os conselhos mais insanos.)

Não há nada mais real do que a realidade virtual. Ademir Assunção joga xadrez com Ronaldo Bressane. Partida relativista. O tabuleiro e as peças estão no século 19. Os jogadores estão no século 21. (Ademir em Tóquio, Ronaldo em Londres.) Manuscritos atravessam a tela do computador, a wop bop a loo bop a wop web boom.

A poucos metros de Marcelino e Evandro, no subsolo da rua Fradique Coutinho, 1.139, está a sala da Hedra. É sábado. O inverno não matou a clorofila. João Alexandre Barbosa é o convidado de hoje. (Essa pequena região do retrato é uma singularidade. Não pertence a 2001, mas a 2000. Ou a 1950, não sei.)

A conversa ramifica-se. Galhos e folhas atingem o teto, atravessam a laje. Marcelo Mirisola parece encantado com as raízes que reverberam Heidegger em russo. (JR Duran registra a conversa, sobrepõe datas e rostos.) Não há nada mais real do que a realidade virtual.

Se as ruas e os edifícios não mudassem tanto de endereço, o passado seria algo fácil de libertar. Freada brusca, buzinada. (Um mapa não é um mapa, é uma capitulação da mente). Congelado ao abrir a porta do táxi, Joca Reiners Terron parece enxergar apenas o avesso dos pedestres. (Pulmões, intestinos, rins, fígado.)

+     +     +

Um inédito antigo, encontrado no fundo do baú.

Anúncios

Tags:


%d blogueiros gostam disto: