Archive for janeiro \31\UTC 2015

O ser humano na era de sua reprodutibilidade tática

31/01/2015

Reprodutibilidade tática

O mais infeliz dos brasileiros não tem cópias.
A mais infeliz das brasileiras também não tem cópias.
São autênticos, se amam,
uma aura de fogo-fátuo abençoa sua união.

De que maneira ser feliz num país de reproduções?
1. Seja o original de muitas cópias
melhores que você.
2. Ou seja uma das muitas cópias melhoradas
de um original pior que você.

Não somos únicos, mas a felicidade do reflexo
não é o primeiro postulado
da sociedade do espelho?
Autenticidade pra quê?!
As cópias aperfeiçoam o original e sua biografia.
A reprodução tática eleva os clones a patamares
que o original jamais atingirá.

Que felicidade, encontrar no metrô,
no escritório, no restaurante,
no cinema, no parque, no supermercado, no bar
meus muitos eus
melhores que eu.

A aura? Ora, a aura… A autenticidade…
Ainda não dá pra comprar, entende?
Não dá, amigo!

Na era de sua reprodutibilidade tácita,
arrebatará o Nobel o primeiro porra-louca
que conseguir clonar a aura
do mais infeliz dos brasileiros,
da mais infeliz das brasileiras.

[ Valerio Oliveira ]

Breves teorias-do-caos sobre o “Distrito federal”

28/01/2015

Capinha

Um longo poema beat-tupiniquim. Mistura de Allen Ginsberg e Mário de Andrade, com um toque de O silêncio dos inocentes. A vingança do mito sobre a objetividade: a corrupção tem raízes bem mais profundas!
[ Daniel Lopes, autor de A delicadeza dos hipopótamos ]

Mais do que uma ficção, Distrito federal é, na verdade, o documento mais contundente, a biópsia literária mais penetrante do nosso atual estado mental, estado social reativo, agressivo, perturbado, enlouquecido, excitado pelas vertigens da vida no Brasil, esse abismo que nunca chega. Com sua mistura de Câmara Cascudo com Cronemberg, de TV Senado com Chico Picadinho, de Robocop com Francis Bacon, muito bem azeitada, humorada, inspirada, Luiz Bras escancara com maestria a ira nada sagrada, a ira obscena que guia todos nós diariamente, para o colo do Último Grande Exu, o exu da Suculenta Insolência Infinita, alimentado pelas ruínas da Política, da Tecnociência, da Religião e do Humanismo. Alguma coisa cheira muito mal na atualidade. Principalmente no Brasil, abismo das ruínas encruzilhadas. Gambiarra das antropofagias. Distrito federal é um documento imprescindível.
[ Fausto Fawcett é autor de Favelost ]

Linhas de fuga em guerra de significação: Distrito federal me toma duma maneira que não comovia desde Panamérica, feito transe redivivo desse Agrippino milimetricamente estilhaçado que Luiz Bras encarna. Li numa assentada, leitura que exige repetição indefinida: um temporal incessante, não rio apascentado de leito. Inaudito como um Paris, Texas dirigido agora por Fritz Lang reinventando o zoom literário. Se a tranZmodernidade brasileira carecia dum manifesto, eis essa artesania dum nomadismo precioso. Mensurar algo que ainda deita raízes não posso, mas esse se revela o livro necessário para uma demanda de sentidos possíveis e desdobrados ao infinito do criativo.
[ Flávio Viegas Amoreira é autor de Escorbuto, cantos da costa ]

Distrito federal é uma das realizações mais ambiciosas de Luiz Bras, autor instigante e provocador, que renovou a ficção científica brasileira nos últimos anos.
[ Marcello Simão Branco, coeditor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica ]

Distrito federal é uma obra de impressionante lucidez, um belo romance-poema que, utilizando um ritmo alucinado e imagens cortantes, destrincha a realidade política brasileira atual.
[ Márcia Barbieri, autora de A puta ]

Distrito federal é uma abdução. Luiz Bras cria um ciclo vicioso para quem lê, que mostra o ciclo vicioso de como o poder corrompe, causa danos e volta a corromper. Para o leitor é um alívio se aproximar, através das páginas, do universo de fedores e verdades que está bem abaixo do nosso nariz. O tempo vai, volta e, durante todo ele, permanece a sensação de que moral e bom-senso estão perdidos e fora do lugar. E estão.
[ Mariana Teixeira, autora de Inversos paralelos ]

Em Distrito federal, Luiz Bras dá voz a um povo cansado & triste, sem nada de heróico ou retumbante, que afinal reage, tingindo de vermelho um planalto central desenganado pela sujeira pública que nos assola e define.
[ Moacyr Godoy Moreira, autor de Soalho de tábua ]

Distrito federal expõe o detrito universal (humano) sem didatismo ou amenizações, em apurada linguagem e numa estrutura textual desconcertante. Pode-se chamar até de uma estrutura rizomática, tamanha a confluência de páginas numericamente distantes. A ausência de linearidade dá a sensação de um movimento circular que amplia a voracidade desse curupira pós-humano que se depara com os mesmos obstáculos corruptores e corrompidos em renovada alternância, nos dando a sensação de reinicio constante desse jogo destrutivo.
[ Ninil Gonçalves, autor de Absorções ]

Em Distrito federal, capa, projeto gráfico, gravuras, diagramação, estão perfeitamente ligados e integrados ao texto maravilhoso. O romance reflete a época em que vivemos, vai ao futuro, volta, e ainda assim duvidamos de suas terríveis premonições. Literatura me pareceu a única esperança. Adorei o livro.
[ Paula Bajer Fernandes, autora de Nove tiros em Chef Lidu ]

Distrito federal não se limita a replicar os ícones e os paradigmas clássicos da ficção científica. Reconfigura-os à luz das particularidades do contemporâneo e, assim, cumpre o modelar papel do gênero: fomentar uma nova maneira de ver o cambiante mundo ao nosso redor. Literariamente interessado no entrelaçar de forma e conteúdo, é um raro exemplo de narrativa longa de ficção científica no Brasil.
[ Ramiro Giroldo, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia ]

A engenhosa narrativa tupinipunk de Luiz Bras agrega uma indignação de faca nos dentes à literatura do Brasil pós-Mensalão. Deveria virar tendência – e caixas do livro serem lançadas sobre Brasília.
[ Roberto de Sousa Causo, autor de Glória sombria ]

Distrito Federal é uma narrativa de ritmo alucinante e visceral.
Nem tente fugir, você será dominado pelo curupira.
Mas atenção, o Ministério da Cultura adverte: se você estiver envolvido em alguma maracutaia, não leia esse livro.
As consequências serão terríveis.
[ Victor Del Franco, autor de A fluidez da aurorA ]

Distrito federal é ao mesmo tempo raia de loucura e realidade em brasa. Não dá para se deixar levar pelo formato pouco convencional, as mensagens pulsam nas páginas o tempo todo, sem cessar, como um coração arrancado do peito, louco para fugir, encontrar caminhos diferentes daqueles já traçados. Um mergulho em códigos e mistérios que cada um vai interpretar de uma maneira.
Senti raiva, senti nojo, senti alegria, senti um chamado nesta rapsódia. É como um carro desgovernado que sabe exatamente o alvo que vai atingir. Atual, rebuscado, enfurecido, rebelde, e que se dane quem não gostar de adjetivos, teria ainda muitos mais. Distrito federal se desprende do real para descrever a nossa realidade matuta, o nosso caráter obtuso, mesmo que seja o obtuso que deseja sair do embotamento que nos atordoa pelo banho de merda e mau cheiro que se espalha.
Uma pena que o curupira não voltasse sua fúria para os pequenos corruptos também, aqueles que defendem com unhas e dentes a moral e subornam o guarda e furam a fila. Uma lástima que o curupira não tenha mirado os preconceituosos, os homofóbicos, os pedófilos, os mentirosos. Mas o castigo aos chupamerdas eleitos & corruptos lava a alma, apesar de não nos livrar da nossa responsabilidade por eles estarem onde estão.
Senti falta de uma presença maior do saci. E de outros orixás que muito bem se encaixariam no enredo: Nanã Buruquê e Omolu carregando os espíritos dos estripados seria sensacional, ou curando os obtusos; Ogun cortando cabeças, disputando com o curupira o sangue dos políticos fedorentos…
É uma colcha de retalhos psicocibernética, na qual o tempo tem importância mínima, pois tudo poderia ocorrer num segundo ou em bilhões de anos. E a vitória da natureza é o sopro da esperança depois de exterminado esse câncer que chamamos de humanidade.
Viva o curupira!
[ Petê Rissatti, autor de Réquiem: sonhos proibidos ]

Estão todos convidados!

28/01/2015

A vida é logo aqui

Galera, esperamos vocês no debate-papo e na sessão de autógrafos!
Dia 4 de fevereiro, a partir das 18h, na livraria Martins Fontes da Paulista.

Cobra Norato

25/01/2015

Serpente

Vamos juntos, Raul, para as terras do sem-fim
Vamos rápido, antes que a gente descubra
que as serras do sem-fim não ficam longe, no infinito,
ficam muito perto, dentro do peito

Não seria irônico, querido, perceber que o demônio
não está na mata, mas na mente?
Isso desculparia a semelhança de diferenças
que incendeia as paredes à meia-noite
Isso justificaria a convergência de divergências
que eletrifica na cama tantos casais

Um demônio em mim finalmente explicaria
essa paixão por velhos slogans gritados nos muros:
Sejam realistas, exijam o impossível
O tédio é contra-revolucionário
A liberdade do outro estende a minha ao infinito
Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução; quanto mais eu faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor

Um demônio em mim explicaria certas ações-reações
selvagens, que tornam tudo mais atraente:
sementes, bromélias, uma xícara de café,
um afago no gato

Vamos juntos, Raul, para as terras do sem-fim
que é aqui mesmo, dentro da gente:
serras em mim, em você
serrando, serrando nossos erros mais secretos

+   +   +

Poema de Valerio Oliveira  |   Desenho de Tereza Yamashita

A vida é logo aqui

14/01/2015

Vida

Começamos o ano muito bem. Acaba de ser lançada pela Sesi-SP Editora a luminosa coletânea A vida é logo aqui, de contos para os jovens leitores.

Nelson de Oliveira, o organizador, reuniu um grupo de autores brasileiros de talento inquestionável, pra falar das delicadezas e amarguras da adolescência.

O projeto gráfico e as ilustras são da premiada designer Raquel Matsushita.

Os quinze autores convidados são: Adriano Messias, Carla Caruso, Claudio Fragata, Cristina Porto, Flávia Côrtes, João Anzanello Carrascoza, Leo Cunha, Luís Dill, Luiz Bras (eu!), Maria José Silveira, Marília Pirillo, Silvana Tavano, Sônia Barros, Tânia Martinelli e Tino Freitas.

A proposta partiu do editor Rodrigo de Faria e Silva, um ano atrás. Sem o apoio do Rodrigo e da Gabriella Plantulli (editora assistente) essa reunião de histórias simplesmente não existiria.

Pra você ter uma boa ideia do que se trata, o texto de apresentação diz o seguinte:

 

Vida: aventura-presente

Nelson de Oliveira

Foi ontem, mas não é mais. Acabou.

Congelou no passado, é coisa sólida: uma pedra de gelo. Ficaram as lembranças. Os registros na rede social. A gravação e as fotos.

Será daqui a pouco. Amanhã. Semana que vem. Mas ainda não é.

O futuro é uma avenida com muitas possibilidades, muitas bifurcações. É coisa gasosa: uma névoa. Impossível de segurar. Invisível.

Galera, a vida não é ontem nem amanhã. Não é sólida nem gasosa.

A vida é agora. É coisa líquida.

Não é lá longe, no passado ou no futuro.

É logo aí, aqui, bem perto, coladinho na gente. É o oceano que nos envolve neste exato momento. Água que não acaba mais.

Sempre que penso nisso, lembro do Poema de sete faces, do Drummond, e dos célebres versos:

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Esta coletânea de contos sobre a vida jovem − num mundo velho que sempre se renova − quase foi batizada de Mundo vasto mundo, em homenagem a essa estrofe.

Mundo-oceano. Vasta vida aqui & agora. Teu verdadeiro nome é Transformação.

Existir é o maior mistério de todos. Um susto maravilhoso. Um presente do universo.

Mas quem disse que existir é fácil?

O passado fugiu pra trás, o futuro foge pra frente, o presente não foge jamais: é uma aventura cheia de perigos & armadilhas.

Somos todos heróis de nossa história particular. Somos Hércules. Electra. Superman. Mulher-Maravilha. Nossos medos são criaturas estranhas, sustos do agora que precisamos combater.

Viver é desenhar sem borracha, sacou o desenhista-filósofo Millôr Fernandes.

Sem a segurança da borracha, às vezes somos pequenos demais, menores que o mundo-oceano. Às vezes somos grandes, maiores que ele.

Outras vezes somos do mesmo tamanho, nós e a vida-presente.

Esta coleção de contos sobre a aventura jovem − num mundo velhíssimo apaixonado pela renovação − flagra quinze vidas diferentes, de heróis de carne & osso, na adolescência. Todos brasucas.

Se a vida é múltipla, os autores e as histórias aqui reunidos também são.

Eles surpreendem, de maneiras distintas, as muitas faces da amizade e do amor. As muitas máscaras da intolerância e da injustiça.

São diversos Brasis num só Brasil. Diversas faixas de cor − urbana, rural, individual, social, corajosa, covarde, realista, mágica − num arco-íris de dimensões continentais.

Para dar conta dessa multiplicidade, convidamos um grupo de premiados ficcionistas. Nomes fortes em nossa literatura, amados por leitores & críticos.

São escritores, mas também magos. Sua prosa saborosa, ora lírica ora irreverente, confirma com delicadeza que a vida é um milagre.

Um acontecimento espantoso, neste exato instante-hora-minuto-segundo.

Prepare-se, galera, para um banho bom de realidade.

Os protagonistas das quinze histórias aqui reunidas, tão diferentes, têm algo em comum: estão vivendo a vida agora.

Intensamente.

Uns, mais desconfiados, com prudência, sem se arriscar além da conta. Outros, mais confiantes, com vontade, abraçando apertado as novas experiências.

Uns mais tímidos, outros mais atrevidos, isso não importa. Todos têm luz própria e brilham bastante. Em diferentes frequências líquidas.

No oceano-mundo, passam longe desses heróis a indiferença e a apatia.

Juntem-se a eles. Sejam eles. Compartilhem os sustos do agora.

Entreguem-se intensamente − durante a leitura, durante a vida-presente − aos sentidos do incerto e às certezas & surpresas do sublime.

Sintam-se nascidos a cada momento para a eterna novidade do mundo, como sugeriu outro mestre: o guardador de rebanhos Alberto Caeiro.

“Distrito federal” na revista Pausa

08/01/2015

Pausa

O escritor Manoel Herzog, autor dos romances Companhia Brasileira de Alquimia (Patuá) e Os bichos (Realejo), notou no curupira do Distrito federal um forte parentesco com uma dupla de famigerados anti-heróis psicopatas: Constantine e Hannibal Lecter.

Leia a resenha completa clicando na imagem acima.