Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica

Anuário

A edição especial do Anuário do Marcello e do Cesar traz, entre outras preciosidades, um debate estimulante sobre a literatura fantástica (fantasia, horror e ficção científica) na Terra Brasilis, neste início de século 21.

Pra falar sobre desafios e perspectivas, no final de 2013 foram convidados escritores, editores e pesquisadores: Ana Cristina Rodrigues, Ademir Pascale, Adriano Piazzi, André Vianco, Braulio Tavares, Carlos Orsi, Claudio Brites, Georgette Silen, Giulia Moon, Luiz Bras, Mary Elisabeth Ginway, Simone Saueressig, Richard Diegues e Roberto de Sousa Causo.

Compartilho a seguir minhas respostas.

1. Em 2004 a publicação de FC&F estava quase paralisada e dez anos depois temos um mercado editorial vigoroso na quantidade de livros lançados. Como você analisa esta mudança radical?
Acredito que a literatura de gênero está se beneficiando do crescimento geral do mercado editorial brasileiro, que por sua vez está acompanhando o crescimento da população brasileira. Hoje o número de escritores, editoras, livros publicados, leitores, premiações e eventos literários é um pouco maior do que há dez anos e muito maior do que há vinte anos, antes da informatização e da web. As pesquisas feitas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pela Câmara Brasileira do Livro mostram, por exemplo, que hoje as editoras lançam no mercado vinte e um mil novos títulos por ano. Em 1994 eram catorze mil e em 1990 eram apenas nove mil. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, por sua vez, revela que em 2000 havia apenas vinte e seis milhões de leitores no Brasil. Em 2011 já eram setenta e dois milhões de leitores. É certo que a literatura de gênero produzida por brasileiros sempre teve um comportamento excêntrico no país e nunca respeitou tabelas e estatísticas, mas acredito que nos últimos anos ela conseguiu acertar o passo e acompanhar de perto o movimento maior do mercado editorial.

2. Muitos observadores avaliam que os anos 2000 marcam uma virada na FC&F brasileira, com o surgimento de uma Terceira Onda. Em sua opinião quais seriam as principais diferenças deste período com o anterior, dos anos 1980/1990?
Eu até gostaria de opinar sobre essa classificação, mas conheço muito mal a ficção científica brasileira dos anos 80 e 90. Nessa época eu acreditava estupidamente que a ficção científica era um gênero subliterário. Vejam só o que os cursos universitários faziam com as mentes mais despreparadas… Só fui acordar desse sonho demagógico depois do doutorado em Letras, no início do século 21. Então, tudo o que eu conheço dos anos 80 e 90 são os clássicos: Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett; Piritas siderais, de Guilherme Kujawski; A máquina de Hyerónimus, de André Carneiro; A espinha dorsal da memória & Mundo fantasmo, de Braulio Tavares; Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife, e mais meia dúzia de livros que não estou lembrando agora. Apesar disso, a simples possibilidade de pertencer a uma nova geração literária me agrada bastante. Terceira Onda? Beleza, aceito surfar nessa onda. Se um editor quiser lançar a primeira antologia da nova geração de ficcionistas, conte com minha colaboração.

3. Quais são os principais problemas enfrentados pela FC&F nos dias atuais e quais perspectivas você vê para solucioná-los nos próximos anos?A falta de leitores é o principal problema. Mas esse também é o principal problema da literatura brasileira de modo geral. A verdade é que o leitor brasileiro não prestigia o escritor brasileiro. Basta olhar as listas de livros mais vendidos. Raramente um romance, uma coletânea de contos ou de poemas de um autor brasileiro aparece nessas listas. No campo da ficção científica a crise é aguda. Editores e leitores quase sempre preferem apostar nos estrangeiros. Se na literatura mainstream o Brasil tem ao menos uns poucos nomes consagrados que não encalham nas livrarias (Dalton Trevisan, Luis Fernando Verissimo), na ficção científica está faltando até isso: uns poucos nomes consagrados, capazes de cativar um grupo fiel de leitores. A ficção científica no Brasil está precisando sofrer o que, na termodinâmica, os físicos chamam de transição de fase. Gostaria muito que aparecesse no cenário nacional da FC um escritor ou um editor, melhor ainda, um escritor e um editor iluminados que fizessem a diferença, que provocassem a tão aguardada mudança de fase. Isso desencadearia uma expansão da esfera: mais livros, mais leitores, mais resenhas, mais eventos, mais estudos acadêmicos. Teríamos até, quem sabe, o primeiro prêmio literário importante para as obras e os autores de ficção científica e fantasia. Um prêmio análogo ao Jabuti e ao Portugal-Telecom.

4. Como você avalia a sua atividade autoral/editorial ao longo dos últimos dez anos (2004 a 2013)? Pode adiantar alguma coisa sobre seus projetos pessoais?
Os últimos dez anos foram os melhores de minha vida literária. Voltei a ler regularmente livros de ficção científica. Descobri que existia uma formidável comunidade até então invisível pra mim, formada por escritores, tradutores, jornalistas, críticos e editores apaixonados pelo gênero. Conheci uma dúzia ou mais de ficcionistas brasileiros talentosos. Organizei as coletâneas Futuro presente e Cartas do fim do mundo, esta com Claudio Brites. Organizei também o Projeto Portal, de contos, e a antologia Hiperconexões: realidade expandida, de poemas. Publiquei meus melhores livros: Paraíso líquido, Máquina Macunaíma e Sozinho no deserto extremo. Para os próximos dez anos, planejo manter esse ritmo. Estou trabalhando em dois novos livros: uma coletânea de minicontos intitulada Pequena coleção de grandes horrores e um romance tupinipunk chamado Distrito federal. Também está programado para o final de 2014 o segundo volume da antologia Hiperconexões.

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