Liberdade

Hoje é um dia glorioso. Notaram a vibração nova na atmosfera?

Hoje é o dia da independência ou morte.

Quando acordei, nem imaginava que algo tão surpreendente aconteceria. Uma iluminação profana.

Começou às onze horas, com o generoso e-mail de um jovem leitor.

O rapaz escreveu pra dizer que ele e os amigos do ensino médio estão lendo o romance Sonho, sombras e super-heróis. E me perguntou se eu podia responder umas questões sobre o livro.

Paralisei.

Nos últimos vinte anos, respondi por escrito, ou em entrevistas e debates, centenas de perguntas sobre meus livros. Umas inteligentes outras nem tanto.

Mas nunca me senti muito confortável no papel de autocomentarista. Jamais me considerei um leitor privilegiado de meus contos e romances.

Hoje eu até tentei responder as questões sobre o romance pra jovens. Mas o mal-estar não deixou. Percebi que minhas respostas reduziriam a obra. Empobreceriam a linguagem, os personagens e o enredo.

Pior: minha explicação se tornaria se não a única, a mais legítima. Afinal seria o Autor falando.

Senti que, esses anos todos, comentar-explicar disciplinadamente meus escritos foi um desserviço a mim e aos leitores.

Hoje é o dia da libertação do autor-escravo-da-explicação.

A partir de agora, não explico mais meus livros.

Não explico na escola, no jornal ou na tevê. Não explico durante palestras nem mesas-redondas.

Os livros comentarão-explicarão tudo sozinhos, e farão isso muito melhor que o autor, quantas vezes o leitor quiser.

Anúncios

Tags: ,


%d blogueiros gostam disto: