Archive for maio \12\UTC 2015

“Paródia, pastiche, plágio etc.” na revista Pausa

12/05/2015

Pausa

Mais um artigo-provocação do famigerado Nelson de Oliveira, na revista dos queridos Márcia Costa e Evandro Rota.
Para ler, basta clicar aqui.

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Futuro presente

01/05/2015

Aleph

Desde os formalistas russos é sabido que a arte e a literatura combatem o lugar-comum por meio da poética do estranhamento. A força até mesmo da literatura mais realista está inteira nesse efeito que surpreende o desconhecido no conhecido.

Cenas corriqueiras da vida real surgem transfiguradas quando fixadas num poema ou conto. Mas o efeito de estranhamento não é único e constante. Sua qualidade varia de gênero para gênero, de obra para obra.

A ficção histórica e a ficção científica, por exemplo, são gêneros muito parecidos, porém de estranhamentos opostos. Ambas trabalham com o tempo − uma trata do passado e a outra do futuro −, mas a ficção científica parece sofrer de duplo estranhamento.

Além do efeito de estranhamento natural em qualquer obra literária, na ficção científica há uma dose suplementar de estranhamento, produzida por sua ambição de clarividência. Os viciados nessa substância pesada têm atualmente ao menos um fornecedor constante e confiável, a editora Aleph.

Em seu catálogo figuram muitos clássicos da literatura anglófona, entre eles Trilogia da Fundação e Os próprios deuses, de Isaac Asimov, Laranja mecânica, de Anthony Burgess, Duna, de Frank Herbert, 2001: uma odisseia no espaço e O fim da infância, de Arthur C. Clarke, e O homem do castelo alto e Androides sonham com ovelhas elétricas?, de Philip K. Dick.

Da vasta produção de Isaac Asimov, a Aleph publicou também uma nova tradução de Eu, robô, de 1950. Essa coletânea reúne os nove primeiros contos sobre inteligência artificial escritos pelo autor nos anos 40, para as pulp magazines.

Não são narrativas de ação, mas de reflexão. A linguagem transparente abriga personagens planos, cuja força flui do enredo surpreendente. Nessas histórias interligadas, os robôs de Asimov não são demônios genocidas, mas criaturas preocupadas com o bem-estar da humanidade. Os conflitos surgem devido a inesperados distúrbios na comunicação homem-máquina.

Na temática e no tratamento, Eu, robô mantém a saborosa inocência da chamada Golden Age da ficção científica. Inocência otimista que nas décadas seguintes dará lugar à malícia e ao pessimismo.

Dois romances que já revelam traços do novo temperamento literário são Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr., publicado em 1960, e A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin, lançado em 1969.

Dividida em três partes − Fiat homo, Fiat lux e Fiat voluntas Tua −, a narrativa pós-apocalíptica de Miller Jr. começa seiscentos anos após o Dilúvio de Fogo, uma hecatombe nuclear que devastou nossa civilização, e abarca mil e oitocentos anos de história futura.

Os horrores da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria marcaram a sensibilidade do autor, que serviu na força aérea ianque. Para ele a História é cíclica e o futuro será análogo ao passado. Após o apocalipse haverá uma nova Idade Média, um novo Renascimento e uma nova Modernidade que gestará outra hecatombe.

Um cântico para Leibowitz foi o único livro publicado em vida por Miller Jr., que se suicidou em 1996, deixando inacabada a continuação de seu best-seller: Saint Leibowitz and the Wild Horse Woman.

A mão esquerda da escuridão, de Le Guin, é um desses romances poliédricos que propõem muitos níveis de reflexão. No nível político, temos a federação galáctica chamada Ekumen e os Estados dissidentes do gélido planeta Gethen.

Fugindo dos estereótipos de raça e gênero, a autora enviou a Gethen um emissário negro para tratar com indivíduos que não possuem sexo definido. Dependendo da situação, os habitantes do planeta gelado assumem o gênero masculino ou feminino.

Mitologia, antropologia e filosofia são outros níveis contemplados pela sagacidade de Le Guin, nessa obra-prima do estranhamento.

William Gibson comparece ao catálogo da Aleph com seus principais romances, incluindo o multipremiado Neuromancer, de 1984. No futuro próximo, as megacorporações controlarão os Estados nacionais e a convergência homem-máquina povoará o planeta de ciborgues.

Nesse universo de “alta tecnologia e baixo nível de vida”, o ciberespaço (matrix) é onipresente. Uma vez conectado, a fronteira entre o real e o virtual se desfaz, ficando difícil até para o hacker mais experiente distinguir a inteligência biológica da artificial.

O romance revolucionário de Gibson impulsionou o debate sobre o pós-humano. Em seu trigésimo aniversário, Neuromancer, primeiro título da Trilogia Sprawl, não perdeu nada da amplitude e da força originais. O potente efeito de estranhamento vibra em todas as camadas.

Um pouco menos interessante é a produção recente do autor, à qual pertence História zero, de 2010. Ambientado na época atual, o romance trata de temas de nossa pós-modernidade líquida.

Gibson conhece bem os meandros do marketing global, da cultura tecnopop, do ciberterrorismo e da pirataria industrial, mas suas ficções sobre o momento presente (Trilogia Blue Ant) não chegam a liberar toda a fúria da poética do estranhamento.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de abril de 2015 ]