“Paraíso líquido” resenhado por Clayton de Souza

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Não são poucas as surpresas que aguardam o leitor (principalmente o mais pragmático, infenso às narrativas mais delirantes) nas páginas inusitadas de Paraíso líquido, primeiro livro de contos do escritor Luiz Bras, que alinha a literatura de especulação sobre o ser humano à mais pura ficção científica. Ao folhear atentamente essas páginas, o leitor adentrará um terreno em que convivem pacificamente Borges e Blade runner, Kafka e Neon Genesis Evangelion, ou Matrix.

Luiz Bras é um escritor aguerrido à causa dessa literatura tão pouco considerada nos meios mais sisudos de nossa alta cultura. E como leitor já tarimbado da tradição literária universal (os seguidores de sua coluna mensal no Jornal Rascunho podem atestar isso com facilidade), e não menos versado no que há de mais notório na ficção científica (Neuromancer, Eu, robô etc.), trata de operar uma alquimia consistente entre estes polos, e o resultado passa longe do irrisório.

Como exemplos, cabe a menção a contos como Aço contra osso, Memórias e Futuro presente, onde em situações transreais como uma caçada humana a um programa que assimila seres vivos, um jogo de manipulação mental envolvendo dois hackers e uma mãe e sua filha, ou uma trama que gira em torno de uma crise global envolvendo três líderes mundiais e uma compulsiva e astuta assistente, respectivamente, é desenvolvido um jogo de espelhos e identidade além de equações simétricas e fascinantes, elementos que nos enlevam na prosa borgiana, como em O jardim dos caminhos que se bifurcam.

Outro elemento recorrente são as situações que envolvem tais contos, quase sempre entre o colapso da realidade e o momento apocalíptico. Em ambos, o humano e o tecnológico se entrecruzam, e a web é a instância última da realidade, a contestá-la ou a transcendê-la, rumo a uma dimensão de conhecimento mais vasta que a mera realidade. É o labirinto em que a consciência (alterada ou não artificialmente) se vê enredada, como nos contos Nuvem de cães-cavalos, Nostalgia e Singularidade nua: o ser humano é sempre o títere do universo da informática, mesmo quando aparenta ser o manipulador consciente para quem ela, a informática, é mero instrumento de suas pretensões sub-reptícias (Memórias, Singularidade nua).

Estilisticamente, há que se ressaltar a intensa criatividade do autor, mesmo quando suas fábulas fazem menção ou nos lembram obras como O vingador do futuro, ou Blade runner. Pasma-se o leitor quando, entre um conto e outro, se depara com uma teia tão complexamente tecida, em quase nada remetendo uma à outra. Sua escrita é simples e acessível, embora imbuída de termos próprios do gênero, como nanotecnologia ou hiper-realidade. Sua habilidade na construção textual permite inclusive construir um conto, Déjá-vu, que pode ser lido de trás para frente, alterando no processo a noção temporal dos fatos.

Por fim, Paraíso líquido é desses livros que se originam de um criativo processo alquímico cujo resultado vale a pena ser conferido até pelo leitor mais recalcitrante. Suas prerrogativas sustêm a leitura, e, mais importante, fecundam a reflexão durante e após o processo.

Clayton de Souza

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