Archive for the ‘Alter egos’ Category

Tudo é criança

13/06/2015

Nossas noites sempre
apareciam na cidade
quase como um oráculo.

A menos de 100 anos
de Portugal e do Marquês
de Sade
as dúvidas não mais
nos limitam.

O que estou lendo?

As opiniões diárias
no meio do mato mais incrível
da minha vida.

*   *   *
Valerio Oliveira
[ poema extraído de uma página de jornal ]

Cândido

O desenho e a palavra

10/06/2015

A ditadura do autor
costuma ser analítica.
É difícil pensar,
desde o século 19,
o tempo, sua música.

Efervescência:
um lastro de machismo
autoritário não pode
sobreviver.

Crescei e multiplicai-vos
na informática.
O uso das pessoas
desbanca a transformação
do mundo.

*   *   *
Valerio Oliveira
[ poema extraído de uma matéria de revista ]

Revista E

Percepção

06/06/2015

Por favor, peça um cubo de gelo
e diga se um aroma não seria doce,
salgado ou visceral, ou simplesmente
uma questão de geografia.

Ignoramos todos os ruídos
que exalam cheiros bizarros à mercê
de nossa visão de mundo.

Na televisão ou numa foto, as nuvens
são uma causa frequente de acidentes,
nos torturando com a criação
de pessoas com a textura, o sabor
ou a melodia de um pêssego.

Pergunte a qualquer lata de lixo.

Mesmo de olhos fechados,
sua perna esquerda deve se ajustar
(ou, pelo menos, diminuir).

*   *   *
Valerio Oliveira
[ poema extraído de uma matéria de revista ]

Percepção

Sábado

04/06/2015

Menos atenção aos 69 anos,
à imagem e semelhança
do erotismo
no fim da rebeldia.

Por vingança, eu me aproximei
das dificuldades animais.

A longa ausência encenada
vai morar numa festa.

O sonho em três atos
sem emendas
explica o mundo paulistano.

Disponível comercialmente,
um matagal traz as marcas
mais prementes das casas
do passado.

*   *   *
Valerio Oliveira
[ poema extraído de uma página de jornal ]

Sábado poema

Liberdade

26/03/2015

Hoje é um dia glorioso. Notaram a vibração nova na atmosfera?

Hoje é o dia da independência ou morte.

Quando acordei, nem imaginava que algo tão surpreendente aconteceria. Uma iluminação profana.

Começou às onze horas, com o generoso e-mail de um jovem leitor.

O rapaz escreveu pra dizer que ele e os amigos do ensino médio estão lendo o romance Sonho, sombras e super-heróis. E me perguntou se eu podia responder umas questões sobre o livro.

Paralisei.

Nos últimos vinte anos, respondi por escrito, ou em entrevistas e debates, centenas de perguntas sobre meus livros. Umas inteligentes outras nem tanto.

Mas nunca me senti muito confortável no papel de autocomentarista. Jamais me considerei um leitor privilegiado de meus contos e romances.

Hoje eu até tentei responder as questões sobre o romance pra jovens. Mas o mal-estar não deixou. Percebi que minhas respostas reduziriam a obra. Empobreceriam a linguagem, os personagens e o enredo.

Pior: minha explicação se tornaria se não a única, a mais legítima. Afinal seria o Autor falando.

Senti que, esses anos todos, comentar-explicar disciplinadamente meus escritos foi um desserviço a mim e aos leitores.

Hoje é o dia da libertação do autor-escravo-da-explicação.

A partir de agora, não explico mais meus livros.

Não explico na escola, no jornal ou na tevê. Não explico durante palestras nem mesas-redondas.

Os livros comentarão-explicarão tudo sozinhos, e farão isso muito melhor que o autor, quantas vezes o leitor quiser.

O ser humano na era de sua reprodutibilidade tática

31/01/2015

Reprodutibilidade tática

O mais infeliz dos brasileiros não tem cópias.
A mais infeliz das brasileiras também não tem cópias.
São autênticos, se amam,
uma aura de fogo-fátuo abençoa sua união.

De que maneira ser feliz num país de reproduções?
1. Seja o original de muitas cópias
melhores que você.
2. Ou seja uma das muitas cópias melhoradas
de um original pior que você.

Não somos únicos, mas a felicidade do reflexo
não é o primeiro postulado
da sociedade do espelho?
Autenticidade pra quê?!
As cópias aperfeiçoam o original e sua biografia.
A reprodução tática eleva os clones a patamares
que o original jamais atingirá.

Que felicidade, encontrar no metrô,
no escritório, no restaurante,
no cinema, no parque, no supermercado, no bar
meus muitos eus
melhores que eu.

A aura? Ora, a aura… A autenticidade…
Ainda não dá pra comprar, entende?
Não dá, amigo!

Na era de sua reprodutibilidade tácita,
arrebatará o Nobel o primeiro porra-louca
que conseguir clonar a aura
do mais infeliz dos brasileiros,
da mais infeliz das brasileiras.

[ Valerio Oliveira ]

Cobra Norato

25/01/2015

Serpente

Vamos juntos, Raul, para as terras do sem-fim
Vamos rápido, antes que a gente descubra
que as serras do sem-fim não ficam longe, no infinito,
ficam muito perto, dentro do peito

Não seria irônico, querido, perceber que o demônio
não está na mata, mas na mente?
Isso desculparia a semelhança de diferenças
que incendeia as paredes à meia-noite
Isso justificaria a convergência de divergências
que eletrifica na cama tantos casais

Um demônio em mim finalmente explicaria
essa paixão por velhos slogans gritados nos muros:
Sejam realistas, exijam o impossível
O tédio é contra-revolucionário
A liberdade do outro estende a minha ao infinito
Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução; quanto mais eu faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor

Um demônio em mim explicaria certas ações-reações
selvagens, que tornam tudo mais atraente:
sementes, bromélias, uma xícara de café,
um afago no gato

Vamos juntos, Raul, para as terras do sem-fim
que é aqui mesmo, dentro da gente:
serras em mim, em você
serrando, serrando nossos erros mais secretos

+   +   +

Poema de Valerio Oliveira  |   Desenho de Tereza Yamashita

Os trinta Valerios

25/11/2014

Os trinta Valérios

Cuidado com o que você procura,
pois você pode rachar.

Tanto me procurei que me encontrei,
muito longe de casa, em Antananarivo,
capital não sei de onde.

Conversamos mal, o café azedou.
Não fui com a minha cara.

Parei de me procurar fora da concha,
mas outros eus menos caramujos
logo vieram atrás de mim.

O mais tagarela chegou de Ankara;
o mais mandala, de Katmandu.

Juro que eu nem sonhava
que Valerios do mundo turvo visitavam
Valerios no mundo torto.

O mais esquentado veio de Phoenix;
o mais felino, da gata que o pariu.

Fodeu geral: dos vinte e nove eus
apaixonei-me por três,
expulsei dez e matei seis.

(Quem abriga muitos brigões
não devia amolar facas.)

Neste olivelório de Valerios,
só não tenho certeza se estou
gritando ou calado, em pé ou deitado.

+     +     +

Os trinta Valérios
Esse é o título de uma fotomontagem fascinante, considerada a primeira do Brasil, feita em 1901 pelo fotógrafo carioca Valério Vieira. Trata-se de um auto-retrato bastante original e espirituoso, em que um bando de Valérios participa de um sarau insólito. Nesse salão do começo do século 20, até os retratos na parede e o busto de mármore reproduzem o rosto do fotógrafo. Foi numa oficina de colagem coordenada pela artista Sônia Magalhães que o poeta Valerio Oliveira ficou conhecendo essa fotomontagem.

Pra ninguém confundir mais

07/08/2014

Sim, amigos, concordo com vocês. Quando a diferença não está na fisionomia, na cor da íris ou no tom da voz, fica difícil distinguir uns dos outros. Para evitar confusão, divulgo aqui a biografia (imaginária) dos quatro suspeitos. Acompanha um retrato falado (pouco confiável, pois igualmente imaginário) de cada um, para futuras averiguações.

Quarteto 1

Teodoro Adorno nasceu no dia 21 de dezembro (solstício de verão) de 1970, em Tubiacanga, capital de Pasárgada. É dublê de artista gráfico e doutor em transmutação alquímica pela Universidade Imperial de Utopia. Prefere os fermentados aos destilados. Adora filmes de animação, histórias em quadrinhos e gatos. Com os felinos aprendeu a difícil arte da telepatia e da viagem no tempo. Sofre de tiranofobia. Também sofre de selenofobia, mas só aos sábados. Traduziu muitas parábolas profanas do sindarin para o klingon. Costuma reunir os amigos de Kadath e Cittabella em irreverentes sessões de modelo nu, desenho cego, caricatura e aquarela. Sua sombra andarilha é assombrada pelas realidades indizíveis de Saul Steinberg. Há dez anos desenha uma HQ experimental intitulada Teoria do caos, sobre suas vidas passadas. Só acredita em biografias imaginárias. E no poder revigorante da cafeína.

Luiz Brasil nasceu no dia 22 de abril de 1968, em Cobra Norato, pequena cidade da mítica Terra Brasilis. É ficcionista e coordenador de laboratórios de criação literária. Na infância ouvia vozes misteriosas que contavam histórias secretas. Hoje coleciona miniaturas e gravuras de zigurates. Gosta de pensar que essas construções míticas, sagradas, simbólicas abrigam criaturas e mistérios do passado e do futuro. De nosso mundo e de outros. Espantou-se ao ver pela primeira vez, no Centro Espacial de Hooloomooloo, uma prótese neurológica conectada a um exoesqueleto. Agora está tentando resolver, na literatura, a mesma mistura de fascínio e medo que nossos antepassados sentiram ao domesticar o fogo. Só acredita em biografias imaginárias. E nos universos paralelos de Remedios Varo. Venceu duas vezes o importante e impossível Prêmio Príncipe de Cstwertskst, na categoria romance (2010) e na categoria conto (2014). Principais livros: Pequena coleção de grandes horrores (minicontos, 2014) e Sozinho no deserto extremo (romance, 2012).

Valerio Oliveira nasceu no dia 21 de junho (solstício de inverno) de 1958, em Xanadu, capital de Grande Garabagne. Durante toda a infância morou a cem metros do fabuloso palácio de verão de Kubla Khan. É poeta e vagabundo globalizado. Já viveu no subúrbio de Los Angeles, Buenos Aires, Praga, Madri, Milão, Lisboa, Cairo, Luanda, Cidade do Cabo, Nova Délhi e de outras dez capitais do Oriente. Gosta de orquídeas, Modigliani e Itamar Assumpção, de verdades noturnas e falsidades diurnas. Jamais foi passivo ou ativo, costuma ser apenas contemplativo. Ama a espiral congelada da fumaça do cachimbo. Não acredita em realismos ou surrealismos, somente no real e nas suas valiosas expansões. Não coleciona essências nem aparências naturais, prefere as artificiais. Só acredita em biografias imaginárias. E no poder transcendente do verso livre. Principais livros: Todos os presidentes (poemas, 2008) e Teto no piso (poemas, 2006).

Nelson de Oliveira ainda não nasceu. Para não assustar os amigos, prefere mentir que nasceu no dia 16 de agosto de 1966, em Mahagonny, maior cidade da Ilha do Dia Anterior. É ensaísta e professor livre-docente de literatura xamânica na Universidade de Macondo (Unimac). Leu e releu todos os livros, assistiu mais de uma vez a todos os filmes. É de leão e, no horóscopo chinês, cavalo. Prefere os destilados aos fermentados. Fala fluentemente doze idiomas secretos, incluindo o das abelhas: a ironia. Anos atrás buscou asilo político no paraíso, mas cansado de tanto silêncio decidiu voltar ao inferno. Pesquisa a imortalidade por meio do upload da consciência. Só acredita em biografias imaginárias. E na beleza moral do céu estrelado dentro de nós. Venceu duas vezes o importante e impossível Prêmio Príncipe de Cstwertskst, na categoria conto (1996) e na categoria romance (2006). Principais livros: Poeira: demônios e maldições (romance, 2010) e Ódio sustenido (contos, 2007).