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Alexandre Dumas e a guerra dos livros

23/08/2014

Dumas

Duas elites

Engana-se quem pensa que os livros são criaturas silenciosas. Que estão adormecidos nas estantes, ao menos até que alguém os pegue e comece a ler. Nunca foi assim. A maioria das pessoas é que não treinou os ouvidos para o blablablá desses tagarelas.

Bibliotecas e livrarias são locais barulhentos. Não importa o tamanho do edifício, não interessa se a biblioteca ou a livraria é física ou on-line. O alvoroço é sempre grande. Os livros não param de papaguear, fazem isso há séculos. Basta prestar atenção e você logo escutará suas reclamações, seus discursos, tudo o que falam.

Engana-se ainda quem imagina que os livros são criaturas amistosas, que vivem pacificamente em perpétua e lúcida amizade. Grande equívoco. Semelhante às sociedades humanas, as sociedades dos livros também são agitadas por intermináveis conflitos, estão em constante desassossego.

Igual às pessoas, os livros são feitos de crenças e desejos. Estão sempre divulgando e defendendo as mais diferentes doutrinas filosóficas, políticas, econômicas, sociais e artísticas. Umas autênticas, outras enganosas. Umas legítimas, outras oportunistas.

Os livros não fogem da briga. Eles constantemente se reúnem em grupos maiores para combater outros grupos que divulgam e defendem ideologias diferentes.

No campo da prosa de ficção, por exemplo, ocorre o confronto feroz das obras consideradas de alta densidade literária contra as obras consideradas de puro entretenimento.

Pense nos romances e nos contos de Thomas Pynchon e Alice Munro e você estará pensando nos livros considerados de alta literatura, mais sofisticados, menos comuns. Pense nos romances e nos contos de Dan Brown e Stephen King e você estará pensando nos livros considerados de entretenimento, menos sofisticados, mais populares.

São duas elites, dois modos legítimos de trabalhar a literatura. Ambos produzem obras-primas e obras medíocres. Pena que estejam constantemente em guerra.

Folhetim

Um dos escritores mais prestigiados do segundo grupo, o da literatura de entretenimento, é o francês Alexandre Dumas. O autor de obras-primas como Os três mosqueteiros, O homem da máscara de ferro e O conde de Monte Cristo saiu de cena há quase cento e cinquenta anos, mas seus romances continuam sendo traduzidos e lidos no mundo todo.

De certo modo, sem Dumas, sem a influência avassaladora de seus folhetins, não existiriam hoje Dan Brown e Stephen King. Não existiriam hoje George R.R. Martin e sua estupenda saga As crônicas de gelo e fogo.

Alexandre Dumas nasceu em 1802, num local próximo a Paris, mais precisamente na comuna Villers-Cotterêts, no departamento de Aisne. No pequeno futuro grande escritor reuniam-se fisicamente a aristocracia e o povo. Ele era neto do marquês de la Pailleterie e de uma jovem negra da ilha de São Domingos, chamada Marie Césette Dumas. Seu pai foi o famoso general Thomas-Alexandre Dumas, membro das forças napoleônicas, e sua mãe foi Marie-Louise Dumas, filha de um estalajadeiro.

Basta uma rápida olhada no calendário histórico para perceber que Alexandre Dumas nasceu num país e numa época turbulentos. A Revolução Francesa havia acabado de estourar, em 1789. O liberalismo político e filosófico inspirava um análogo liberalismo literário e artístico. A Europa estava em chamas e os intelectuais não paravam de jogar lenha nessa fogueira.

Na passagem do século 18 para o 19, tiveram início a ascensão da burguesia e a democratização da cultura. Foi quando irrompeu um dos movimentos mais vigorosos da história da arte e da literatura: o romantismo.

A maior atração dos jornais da época eram os folhetins: narrativas ágeis e magnetizantes publicadas em capítulos, cheias de romance e suspense, intrigas e peripécias. O folhetim foi um fenômeno cultural tão violento que, no século 20, os novos meios de comunicação de massa (o rádio, o cinema e a televisão) logo trataram de incorporar sua linguagem. As telenovelas e os seriados de hoje são os herdeiros do antigo folhetim.

Refletindo sobre o período, na excelente História social da arte e da literatura, o crítico alemão Arnold Hauser escreveu: “Todo o mundo lê os folhetins: a aristocracia e a burguesia, a sociedade política e a intelligentsia, homens e mulheres, jovens e velhos, patrões e empregados.” Essa popularidade assombrosa deu novo impulso à arte da ficção de entretenimento.

O folhetim significou uma democratização sem precedentes na história da literatura. Na passagem do século 18 para o 19, o analfabetismo começou a ser erradicado, o poder aquisitivo da população começou a crescer e o preço dos bens culturais, entre eles o jornal, começou a cair.

A poderosa indústria cultural, que há muito tempo alimenta nossa sociedade do entretenimento, estava apenas começando.

Best-sellers

Um dos primeiros e mais bem-sucedidos folhetinistas franceses foi ninguém menos que o prolífero Honoré de Balzac. Mas os campeões de vendas, os queridinhos dos leitores, foram mesmo Eugène Sue e Alexandre Dumas, que publicavam em jornais concorrentes e costumavam ser muito bem pagos, como acontece com os novelistas de hoje.

Sobre o autor de Os três mosqueteiros, Arnold Hauser escreveu: “Alexandre Dumas, o mestre da tensão dramática, é também um brilhante expoente da técnica do seriado, muito semelhante à técnica do melodrama e do teatro popular. Quanto mais dramático é o desenvolvimento de um folhetim, mais forte é o efeito que a narrativa exerce sobre o público.”

O sucesso literário e financeiro era o combustível de que o autor precisava para continuar produzindo compulsivamente. O que poucos leitores sabem é que Dumas não trabalhava sozinho. Da mesma maneira que os novelistas de hoje, ele contava com uma boa equipe de apoio. Do contrário, seria impossível para Dumas escrever os mais de seiscentos títulos assinados com seu nome.

“Para satisfazer a enorme demanda, os romancistas populares aliam-se a redatores que lhes proporcionam inestimável ajuda na criação de obras padronizadas”, escreveu Arnold Hauser. “São montadas verdadeiras fábricas de literatura, nas quais os folhetins são produzidos de modo quase mecânico. Numa ação judicial, fica provado que Dumas publica mais com seu próprio nome do que poderia escrever mesmo que trabalhasse dias e noites a fio sem uma pausa. De fato, ele emprega setenta e três colaboradores, entre eles Auguste Maquet, a quem concede certa autonomia na produção.”

Publicado originalmente no jornal Le Siècle, de março a julho de 1844, Os três mosqueteiros é sem dúvida uma das aventuras mais amadas e recontadas de todos os tempos. Trata-se do primeiro folhetim de uma trilogia histórica que romanceia fatos importantes dos reinados de Luís XIII e Luís XIV e da Regência que se instaurou na França entre os dois governos.

O sucesso do romance de capa e espada protagonizado pelo jovem D’Artagnan e pelos veteranos Athos, Porthos e Aramis foi tamanho que o próprio Dumas logo o adaptou também para o teatro. Vinte anos depois, lançado em 1845, e O visconde de Bragelonne — ao qual pertence a famosa história d’O homem da máscara de ferro —, escrito entre 1848 e 1850, completam a trilogia.

Sucesso

Dumas ganhou muito dinheiro com o trabalho literário. Apesar disso, não conseguia escapar das dívidas multiplicadas por seu estilo de vida desregrado, boêmio. Mesmo sendo casado, o escritor mantinha relacionamentos extraconjugais e teve pelo menos três filhos fora do casamento, entre eles o não menos famoso escritor Alexandre Dumas, filho, autor de A dama das camélias. Cuidado para não confundir os autores.

Dumas pai amava o grande público e nunca escondeu que seu principal objetivo, ao escrever para o teatro ou a imprensa, era entreter e magnetizar sua legião de fãs. No mesmo ano em que foi publicado Os três mosqueteiros, saiu também O conde de Monte Cristo.

Inveja doentia, traição, injustiça, fuga de uma prisão de segurança máxima, um tesouro secreto, um plano ardiloso de vingança e, é claro, vários assassinatos. Esses são os elementos da trama de outro best-seller do século 19.

A primitiva necessidade humana de narrativas intensas, capazes de promover a catarse coletiva, fez os leitores esperarem ansiosamente, de agosto de 1844 a janeiro de 1846, pelos capítulos dominicais d’ O conde de Monte Cristo. Desde então, nunca mais saíram do imaginário ocidental a queda e a ascensão de Edmond Dantès, o jovem pobre que, motivado pelo desejo de vingança, enriquece, se torna conde e, fazendo justiça com as próprias mãos, triunfa sobre seus inimigos.

Diante de tanta exuberância, há quem pergunte por que Dumas não é tão respeitado, pela crítica especializada, quanto Stendhal, Balzac e Flaubert. Talvez porque em seus escritos há a mão de vários assistentes? Pode ser. Heloisa Prieto, especialista em Alexandre Dumas, escreveu: “O processo industrial de fabricação de histórias, por meio do novo suporte midiático, o jornal, exigia o trabalho de equipe. Longe de explorar seus colaboradores, Dumas os valorizava. Sua metodologia coletiva já antecipava as futuras reuniões de roteiro e brainstorming, a troca intensa de ideias, atualmente tão comum no cotidiano das produtoras cinematográficas.”

Mas a principal razão para Dumas não ser tão respeitado quanto os grandes nomes das letras francesas foi o longo namoro do escritor com o sucesso comercial. Segundo os especialistas, Dumas cometeu o pior pecado no seu ramo de trabalho: com suas aventuras ele procurou acima de tudo, e sempre conseguiu, seduzir e aprisionar os leitores. Mesmo que para isso tivesse que esbanjar na ação e nos efeitos especiais.

Obras-primas reconhecidas ou não, o fato é que a bravura dos mosqueteiros do rei e a vingança implacável de Edmond Dantès extrapolam o papel impresso. Elas pertencem à esfera do mito, como a loucura do pobre Dom Quixote e o ciúme de Bentinho pela amada Capitu. São narrativas que fincaram raízes em nosso imaginário coletivo e agora fazem parte de nossa essência cultural.

Há quem afirme que Alexandre Dumas é o escritor mais lido e traduzido da história da França. Porém, apesar do sucesso estrondoso em vida, o escritor, por ser mulato, não escapava da hostilidade dos racistas. Quando morreu, em 1870, Dumas não foi sepultado no Panteão de Paris, o magnífico mausoléu onde estão os grandes escritores e pensadores franceses.

Somente em 2002, durante o governo de Jacques Chirac, essa injustiça foi corrigida. Numa cerimônia televisionada, os restos mortais de Dumas foram exumados do cemitério de Villers-Cotterêts e transferidossolenemente para o Panteão.

Romance juvenil

Da vasta obra de Alexandre Dumas, somente os títulos mais badalados foram lançados aqui. Totalmente desconhecidas no Brasil são as aventuras exploratórias do capitão Panfílio, comandante do brigue mercante La Roxelane. Publicado pela primeira vez em 1839, o bem-humorado Capitão Panfílio foi escrito para o público juvenil. O protagonista do romance é um corsário simpático e cativante, mas também oportunista e cruel, cujo maior objetivo é a rapinagem e o lucro. A intenção do autor foi denunciar os abusos mercantilistas na África, principalmente o tráfico de escravos e animais selvagens.

Dumas, na verdade, juntou nesse romance duas histórias, interligadas por animais. A primeira, publicada originalmente em 1832, intitulava-se Jacques I e Jacques II. Nela, um grupo de jovens boêmios reunidos ao redor do pintor Alexandre Descamps convive com bichos de estimação exóticos, entre eles um macaquinho angolano chamado Jacques I e seu amigo da mesma espécie, Jacques II.

Na história dentro da história, tirada de um manuscrito, o capitão Panfílio é apresentado aos outros personagens e ao leitor. Foi ele quem capturou Jacques I durante uma caçada na África. Mais tarde Dumas ampliou consideravelmente a aventura protagonizada pelo capitão de caráter duvidoso.

A primeira linha narrativa, dos boêmios, foi suprimida da edição brasileira, com tradução de Ubiratan Paulo Machado. Essa decisão editorial potencializou a segunda linha, bem mais interessante. As aventuras pitorescas do descarado bucaneiro ganharam toda a atenção apenas para si.

Duas críticas

Repito o que eu disse no início: engana-se quem imagina que os livros são criaturas amistosas, que vivem pacificamente em perpétua e lúcida amizade. Os romances de Alexandre Dumas, da mesma maneira que os de Dan Brown, Stephen King, George R.R. Martin e de tantos outros ficcionistas congelados pela crítica especializada, estão sempre em guerra com os romances da chamada alta literatura. Estão sempre brigando com Madame Bovary, de Flaubert, O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon, Felicidade demais, de Alice Munro, e outros.

É sabido que a crítica acadêmica, praticada nas universidades e em boa parte da imprensa (a maioria dos jornalistas tem mestrado e doutorado, outros são professores universitários), torce vigorosamente o nariz para a literatura de gênero: aventura, policial, espionagem, ficção científica, fantasia, terror etc.

Também é sabido que os autores, os editores e os consumidores da literatura de gênero torcem o nariz, com igual vigor, para a crítica acadêmica e as obras que ela legitima. Isso deixa claro que o jogo literário, diferente do futebol ou do boxe, tem pelo menos dois conjuntos de regras. O critério aplicado pelo primeiro grupo na avaliação das obras literárias é o reverso do critério aplicado pelo segundo grupo.

São duas elites críticas, cada qual com sua balança e sua régua. A primeira diz que trabalha apenas com a alta literatura, com a grande literatura, com a Literatura com inicial maiúscula. Ela acusa a segunda de trabalhar somente com a baixa literatura, com a literatura vulgar, fácil, de entretenimento.

A segunda elite acusa a primeira de ser elitista, aristocrática e esnobe, de só apreciar obras de linguagem complicada e obscura. As obras abençoadas pela segunda elite geralmente vendem mais do que as obras abençoadas pela primeira, que se ressente muito disso. E se vinga, fundando um clube muito mais elegante e prestigiado, chamado establishment, ao qual jamais permitirá que sejam admitidos uma obra ou um autor da segunda elite, que também se ressente disso.

Os dois critérios de avaliação literária são:

Critério da elite acadêmica

1. Linguagem original, conotativa, que não possa ser atribuída a outros escritores do presente e do passado, por vezes avessa à norma culta. O autor deve se expressar de maneira única, inaugurando seu próprio modo poético. Contratar colaboradores? Nem pensar!
2. Subjetivismo. Narrador modernista, tortuoso ou fragmentário, psicológico, pouco confiável, às vezes delirante.
3. Enredo frio, pobre em ação, sem muitas peripécias ou surpresas, próximo da vida comum. A forma literária é mais importante do que o conteúdo.
4. O mundo interior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo exterior.
5. Fuga do gênero a que (supostamente) pertence. Faz parte do desejo supremo de originalidade a rejeição das principais diretrizes do gênero a que a obra pertenceria. O novo romance quer transcender os limites do gênero romance, o novo conto quer transcender os limites do gênero conto, o novo poema quer transcender os limites do gênero poema.
6. Purismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, são violentamente rejeitadas pelo sistema.

Critério da elite da literatura de gênero

1. Linguagem transparente, denotativa, por vezes complexa, mas ainda assim reconhecível por uma vasta gama de leitores. O autor deve se expressar respeitando a norma culta que orienta o uso do idioma.
2. Realismo. Narrador clássico, organizado e disciplinado, pouco introspectivo, confiável, onisciente.
3. Enredo quente, rico em ação, cheio de peripécias e surpresas, afastado da vida comum do leitor. O conteúdo literário é tão importante quanto a forma, ou até mais.
4. O mundo exterior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo interior.
5. Adequação ao gênero e ao subgênero a que pertence. O romance ou o conto policial, de fantasia ou de ficção científica respeitam as balizas que definem o gênero e o subgênero a que pertencem.
6. Ecumenismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, se não são bem aceitas pelo sistema, ao menos não são sumariamente rejeitadas.

Atualmente, muitos autores do primeiro grupo caem em depressão ao perceberem que seu romance, ou sua coletânea de contos ou de poemas, é um retumbante fracasso comercial, apesar do amplo reconhecimento da crítica especializada. Jamais terão o número de leitores de que se julgam merecedores.

Muitos autores do segundo grupo, diante do sucesso de vendas de seu romance, ou de sua coletânea de contos (raramente há poetas aqui), também ficam deprimidos ao perceberem que jamais terão o reconhecimento da crítica acadêmica e, consequentemente, jamais figurarão nas apostilas e nos compêndios do ensino oficial. Jamais pertencerão ao establishment.

Uns aceitam a contragosto a situação e seguem em frente. Outros esperneiam e brigam. Insultam. Dizem, os do primeiro grupo, que o Brasil não é um país de leitores (de leitores qualificados, é o que querem dizer), afirmam que a imbecilidade e a massificação reinantes são culpa da tevê e da péssima qualidade do ensino público. Dizem, os do segundo grupo, que os críticos acadêmicos confundem complexidade com complicação, afirmam que os membros dessa elite literária beneficiam as obras mais áridas e menos inteligíveis como estratégia de dominação cultural e social.

Mas o maior pecado que os membros de cada grupo cometem é avaliar as obras do grupo adversário com o critério errado. Avaliar as obras da literatura de gênero com o critério da elite acadêmica gera todo tipo de mal-entendido. Avaliar as obras da alta literatura com o critério da elite da literatura de gênero também. Confusão e encrenca. Nada de proveitoso pode resultar dessa inversão de valores motivada pelo puro chauvinismo.

Indicações de leitura
Alexandre Dumas, deux siècles de littérature vivante
Portal mantido pela Société des Amis d’Alexandre Dumas
http://www.dumaspere.com

A mulher da gargantilha de veludo e outras histórias de terror, de Alexandre Dumas. Tradução de André Telles. Editora Zahar, 2012.
Capitão Panfílio, de Alexandre Dumas. Tradução de Ubiratan Paulo Machado. Sesi-SP Editora, 2014.
Folhetim: uma história, de Marlyse Meyer. Companhia das Letras, 1996.
História social da arte e da literatura, de Arnold Hauser. Tradução de Álvaro Cabral. Editora Martins Fontes, 1998.
O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda. Editora Zahar, 2012.
Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda. Editora Zahar, 2011.

[ Publicado originalmente na revista Ponto nº 5, de março de 2014 ]

Imre Kertész na Folha de S.Paulo

08/06/2014

GERMANY-HUNGARY-LITERATURE-KERTESZ

Diego Marani na Folha de S.Paulo

27/05/2014

Marani

Cristovão Tezza no Guia da Folha

26/04/2014

Tezza

Caos metódico

Autobiografia e ficção às vezes andam de mãos dadas na literatura de Cristovão Tezza. O exemplo mais óbvio é o premiadíssimo O filho eterno, de 2007, sobre a difícil relação de um pai e seu filho com síndrome de Down.

A problemática vida literária, que o escritor conhece tão bem, comparece no romance Um erro emocional (2010) e nos contos de Beatriz (2011). E há ainda a não menos problemática vida acadêmica, à qual o hoje ex-professor de linguística pertencia tempos atrás.

Logo nos primeiros capítulos, percebe-se que O professor é o romance mais bergmaniano de Tezza. Isso significa uma vitória, mas também um grande risco.

O professor de filologia românica Heliseu Silva é uma alma gêmea do professor de medicina Isak Borg, de Morangos silvestres. À semelhança do clássico de Bergman, a narrativa esfumaçada de Tezza, quase em preto e branco, viaja ao passado para um ajuste de contas.

No filme de 1957, o velho Isak vai de Estocolmo a Lund para receber o grau honorário da Universidade de Lund, por seus cinqüenta anos de carreira. No caminho, revive os principais momentos de sua vida, preocupado com a morte cada vez mais próxima. Viagem análoga faz o velho Heliseu, mas sem sair do lugar.

No dia em que receberá a medalha do mérito acadêmico, esse professor septuagenário movido a ansiolíticos começa a recolher, à roda de seu apartamento, os fragmentos de uma existência enfadonha.

No nevoeiro da memória, representam balizas fortes as mulheres de sua vida: a empregada, dona Diva, a esposa mal-amada, Mônica, e a paixão que o abandonou, Therèze. Outro ponto de apoio, que impede que Heliseu seja arrastado pela entropia, são as recordações habitadas pelo filho que o despreza, Duda.

Potencializando a confusão mental do protagonista, a narrativa alterna persistentemente, sem aviso, a primeira pessoa e a terceira. Tezza aproxima-se, dessa maneira, também de três mestres do discurso indireto livre: José Saramago, António Lobo Antunes e Evandro Affonso Ferreira.

Em romances como Memorial do convento (1982), As naus (1988) e Minha mãe se matou sem dizer adeus (2010), o trio criou os memorialistas mais mordazes e ranzinzas da literatura de língua portuguesa.

O aspecto mais interessante de O professor não é a trama trivial ou os conflitos íntimos, típicos do romance moderno e de seu apego ao cidadão comum. É a alternância de narrador. É certo caos metódico, que reforça a senilidade de Heliseu. Caos desenhado com elegância, que segura firme a mão do leitor, não deixando que este se perca.

O romance é atravessado por uma saborosa atmosfera de suspense, pois as situações são oferecidas em partes, por acumulação. Nenhuma lembrança surge por inteiro. O narrador duplo alterna poucas histórias e retorna a elas, sempre acrescentando um novo detalhe.

Até mesmo a luta trêmula com um nó de gravata confirma a tirada de Philip Roth, numa entrevista: “A velhice não é uma batalha, a velhice é um massacre.”

Tezza privilegiou mais o interior, a intimidade de seu protagonista, do que o equilíbrio entre sujeito e sociedade, entre o particular e o coletivo. No passado, uma boa fatia da história recente do país rebolou lascivamente diante de Heliseu, sem jamais conseguir penetrar sua consciência. Oscilações políticas e sociais nunca lhe interessaram.

Heliseu não dá a mínima para as maquinações da Ditadura Militar ou do Plano Collor. Maior importância têm as picuinhas do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas e dos áridos estudos filológicos. Dominam suas ruminações não a campanha pelas Diretas Já, mas o desejo pela distante Therèze (vinte anos mais jovem que ele), a homossexualidade do filho e a morte trágica da mulher.

A inflexão bergmaniana começa a pesar demais no terço final do romance, em que o processo cumulativo do narrador duplo já não surpreende e certa rotina passa a dominar.

Também o desenlace podia ser menos previsível. Mas esse detalhe está longe de ser um problema, numa narrativa tão engenhosa sobre a vida minúscula e a inevitável decrepitude.

O Professor
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Record
Quanto: R$ 32 (240 págs.)
Avaliação: Bom

Gabriel García Márquez na Folha de S.Paulo

19/04/2014

Gabo

Lírica e bem-humorada, prosa de Gabo tem alcance universal

Etiquetas ajudam a organizar o caos na livraria e na cabeça do leitor. Mas é certo que toda etiqueta precisa ser recebida com cautela. Entre os autores do realismo mágico – ou, se preferir, realismo fantástico – há mais diferenças de intensidade e linguagem do que semelhanças.

Os romances e contos de Gabriel García Márquez, por exemplo, são visivelmente menos complexos que os de Julio Cortázar, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa.

No festejado Cem anos de solidão (1967) e nos contos de A incrível e triste história da cândida Erêndira e sua avó desalmada (1972) há bem menos fragmentação discursiva, metalinguagem e fluxo de consciência do que nos igualmente festejados O jogo da amarelinha (Cortázar), A morte de Artemio Cruz (Fuentes) e Conversa na catedral (Llosa).

Dos ficcionistas do boom da literatura latino-americana, Gabo é, em essência, o grande sedutor, o ilusionista que cativa logo na adolescência. Essa característica deve ter pesado a seu favor, na votação para o Nobel de literatura.

Coisa mais fácil deste planeta é apaixonar-se por sua prosa sem obstáculos, por seus heróis inesquecíveis: os lendários Buendía, o mago Melquíades, o anjo cativo e o afogado rebatizado de Estevão, a bastarda e cândida Erêndira, o casal Florentino e Fermina, o desventurado Santiago Nasar etc.

Enquanto as torções de linguagem do melhor Cortázar – do Cortázar fascinado pelo jazz e pelo surrealismo – soam antipáticas ao leitor menos experiente, a fantasia lírica e bem-humorada de Gabo, sem contorções ou sobreposições polifônicas, conquista logo no primeiro contato.

Nesse caso, simplicidade não significa ausência de sofisticação. Significa, antes, alcance universal. Tão universal que o conto A luz é como a água, da coletânea Doze contos peregrinos (1992), pôde ser destacado do conjunto e relançado, com belas ilustrações, para o público infantil.

Tanto o ficcionista quanto o jornalista eram exímios contadores de histórias. Gabo dizia que sua primeira e maior influência havia sido a avó materna, dona Tranquilina, que povoara sua infância de fantasmas e milagres.

Narrativas como Um senhor muito velho com umas asas enormes e O afogado mais bonito do mundo são recriações latino-americanas do espírito fabuloso de As mil e uma noites árabes.

Comparar sua literatura com a dos mestres do realismo mágico não rende análises interessantes. O verdadeiro irmão espiritual de Gabo é Ray Bradbury, outro grande contador de histórias, um dos maiores do século 20.

Nem mesmo as dezenas de personagens reunidas para narrar a fundação e extinção de Macondo – miniatura da América Latina – conseguem complicar o alegórico Cem anos de solidão.

Os prodígios sobrenaturais que acompanham as gerações da família Buendía fluem pacificamente. A convergência de realismo e fantasia é tão natural que instaura, sem conflito, outra realidade, em que mito e sonho ganham total concretude.

Nos anos 50 e 60, cansado de tanta razão e civilização, o Velho Mundo foi arrebatado por essa atmosfera encantatória.

O encanto continua até hoje. Macondo é tão importante no imaginário literário, que gerou sua antítese: o movimento McOndo. Mas toda antítese não deixa de ser também uma forma de homenagem.

[ Publicado originalmente no caderno Mundo em 18 de abril de 2014 ]

F. Scott Fitzgerald na Folha de S.Paulo

29/03/2014

Fitzgerald

John Boyne na Folha de S.Paulo

18/03/2014

John Boyne

Doze anos de escravidão

21/02/2014

Doze anos de escravidão

Autobiografia de Solomon Northup propõe ao leitor de hoje um dilema moral

Forte candidato nas principais categorias do Oscar de 2014, Doze anos de escravidão, dirigido por Steve McQueen, completa a trilogia – tudo indica que involuntária – iniciada por Django livre, de Quentin Tarantino, e Lincoln, de Steven Spielberg, ambos de 2012.

McQueen e o roteirista John Ridley criaram um melodrama de altíssimo impacto, sustentado principalmente pelas cenas de tortura. A crueza naturalista dos espancamentos, capaz de tirar o sono até dos menos sensíveis, é o que dá vigor a esse panfleto contra a escravidão.

O filme segue praticamente à risca a autobiografia homônima de Solomon Northup, publicada em 1853, poucos anos antes do início da Guerra de Secessão.

O autor foi um afro-americano descendente de escravos, que nasceu livre, em 1808, no estado de Nova York, mas aos trinta e dois anos foi sequestrado e vendido como escravo.

Doze anos de escravidão, o livro, apareceu um ano depois do incendiário best-seller de Harriet Beecher Stowe, A cabana do pai Tomás, completando com uma boa dose de realidade o que no romance de Stowe era matéria puramente ficcional.

Solomon Northup não foi o único ex-escravo a publicar um relato sobre sua vida abominável no cativeiro. William Wells Brown (1814-1884), Harriet Ann Jacobs (1813-1897) e Frederick Douglass (1818-1895) também fizeram o mesmo. O momento era bastante oportuno. O movimento abolicionista norte-americano pedia documentos, adesões e oradores.

Mas o testemunho de Solomon Northup difere dos demais num ponto fundamental: quem narra é um homem educado, que nasceu longe do cativeiro – alguém acostumado com a liberdade, até ser vítima de um infortúnio.

Escravizado, Northup precisou ocultar de seus senhores que sabia ler e escrever. Também teve de esconder sua origem e o verdadeiro nome. Só não escondeu o talento com o violino porque isso era aceitável, até mesmo proveitoso. Desde que sua produtividade na lavoura se mantivesse na média. Do contrário: chibatadas.

Usando habilmente as ferramentas próprias de cada meio, livro e filme são eficazes no propósito pedagógico. A vantagem do primeiro sobre o segundo está na precedência. Nenhuma adaptação conseguirá reproduzir hoje o impacto que Doze anos de escravidão causou nos leitores do final do século 19.

Para nós, confortavelmente distantes cento e sessenta anos da situação narrada, a obra ainda consegue propor um dilema moral.

Relatos sobre a escravidão – sobre qualquer instituição degradante, incluindo o nazismo, o colonialismo etc. – não são fáceis de digerir. Como se comportar diante do que está sendo narrado? Pior ainda quando a prosa traz as marcas prazerosas da literatura.

De certo modo, páginas bem escritas traem o desejo inicial do autor, enfraquecem a denúncia. Ou talvez a traição esteja apenas no leitor de hoje, que, distante da experiência física da degradação, se deixa afundar pacificamente no prazer da leitura.

A autobiografia de Solomon Northup oferece aos leitores de hoje a complicada escolha: durante a leitura o que privilegiar, a torpeza ou a estética?

Doze Anos de Escravidão
Autor: Solomon Northup

Tradução: Caroline Chang
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 22,50 (280 págs.)

Tradução: Drago
Editora: Seoman
Quanto: R$ 19,90 (232 págs.)

Zusak & Le Carré na Folha de S.Paulo

01/02/2014

Markus Zusak

John le Carré

Duas indicações de leitura

23/01/2014

Mini-resenhas

Roberto de Sousa Causo & Ivan Hegen no Guia da Folha.