Archive for the ‘Ateliê de criação literária’ Category

Ateliê de criação literária na Casa Mário de Andrade: turma A

07/01/2016

Turma A

AS LONTRAS DAQUELA HORA vieram dos pontos mais diferentes.
Chegaram curiosas, empolgadas, sem saber que já eram parte de algo que ainda não era, mas seria. Algo importante, macunaímico.
Na bagagem de mustelídeo elas trouxeram um pouco de tudo: luz, carinho, poesia, riso, angústia, tempestade… Foi no centro do redemoinho de diferenças & semelhanças que esse coletivo literário nasceu.
Nascido, ele plantou uma semente: um universo ficcional criado & compartilhado por dezessete sensibilidades. Que germinou, cresceu e deu frutos: uma grande coleção de contos interligados. Que dará origem a uma provocativa coletânea. Que será lançada em março de 2016, na Casa Mário de Andrade.
O Ateliê deste ano de 2015 chegou ao final, mas o final está longe de chegar ao universo amorosamente gestado, parido & compartilhado durante o Ateliê.
Em janeiro & fevereiro, de volta ao trabalho, galera. Temos um filhote pra editar!
[ Fico só pensando o que o fantasma do Mário está achando dessa pajelança. ]

Turma A 2

Oficina Cultural Casa Mário de Andrade

Fotos de Carmem Félix e Sonia Nabarrete

[ O coletivo As Lontras Daquela Hora é Álvaro Cordeiro, André Prado, Erika Neves, Eugen Weiss, Guta Girolamo, João Lourenço, Jorge Nagao, Lady Lou, Lucas Cunha, Luiz Bras, Maga, Mayara Valério, Pamela Zapa, Renata Zamboni, Sonia Nabarrete, Talita Bittioli e Vanessa Farias. ]

Ateliê de criação literária na Casa Mário de Andrade: turma B

07/01/2016

Turma B

Neste momento tão crítico, de ocupações generalizadas, até mesmo a antiga casa do Mário de Andrade foi invadida. Todas as terças-feiras à noite, durante meses.
Almas penadas? Assombrações modernistas? Quase isso.
Na rua Lopes Chaves, 546, uma facção de extremistas da ficção libertária & libertina fumou o cachimbo da guerra e da paz. E da fumaça enovelada surgiu uma galeria de personagens ardilosas, um edifício excêntrico, um universo ficcional compartilhado.
Nesse convescote delirante também nasceu o coletivo ARMÁRIO DO MÁRIO: OCUPAÇÃO LITERÁRIA. Ter convivido durante tanto tempo com esses vinte e um atelienses foi uma experiência gratificante.
Mas a invasão ainda não acabou. Em janeiro e fevereiro continuaremos conspirando, agora pra ocupar tua mente, leitor. Continuaremos trabalhando na sombra, preparando em segredo a coletânea de contos que será lançada em março de 2016.

Luiz Bras

Oficina Cultural Casa Mário de Andrade

Fotos de Eliane Coster

[ O coletivo Armário do Mário: Ocupação Literária é Aldo Menezes, Antony Castro, Brontops Baruq, Cibele Nardi, Dani Alba, Dario Pato, Denise Ranieri, Diana Paz, Elaine Valeria, Eliane Coster, Estela Campos, Fernando Feitosa, Francisco da Sé, Gê Martins, Guilherme Azevedo, Lilia Guerra, Luiz Bras, Maurício Rosa, Paulo Eduardo, Pnina Bal, Tereza Ruiz e Thais Cavalcante. ]

Reverberações de Guta Girolamo: um testemunho, um diálogo

25/10/2015

Luiz, o seu texto é absolutamente delicioso! Em estilo, em criatividade, em originalidade das ideias e sua fundamentação teórico-prática, em sua erudição – que nos educa –,  em suas dicas e exemplos e em sua total clareza poética (é um texto muito claro, sem deixar de ser lindo – associo aqui poética à beleza). Meus comentários serão às vezes testemunho, às vezes sincero elogio, às vezes propostas de temas para pensarmos juntos.

O primeiro capítulo, Falas na sala, tocou em pontos que ainda eram, para mim, obscuros. Por exemplo, a “crença no poder formador dos ateliês”. Eu nunca havia pensado, ou melhor, sentido deste modo a experiência do ateliê. Pensei que seria algo burocrático, do tipo, isto é conto, agora escrevam – algo entre o manual e a lição de casa. E qual não foi a minha surpresa em vivenciar algo completamente diferente nos encontros de terças-feiras na Casa Mário de Andrade!

Você pondera que “não é possível ensinar a escrever bem, mas é possível ensinar a não escrever mal” (isto deveria se tornar uma citação sua). E isto ficou muito claro quando, no meu primeiro texto, houve a crítica do bem comportado e artificial. Lembro de você me dizer que as pessoas não falavam daquele jeito. Minha tarefa era, doravante, “sujar meu português”. Parece que fui bem-sucedida com o segundo texto. Daí para a frente se iniciou um processo muito louco de experimentações, e o aprendizado de dividir com os colegas, ouvindo críticas ou elogios – tudo isso magistralmente orquestrado pela sua excelente capacidade de ouvir e conduzir. E com isso cumprir a tarefa de “suprir de leitores o escritor diletante”.

A segunda tarefa proposta, mais difícil, foi a de “encontrar a nossa voz”. Isso, só mesmo com o tempo. De minha parte, fico na experimentação absoluta, tentando gêneros e estilos, até que a tal voz apareça. Mas o legal é que, se eu te entendi bem, ela não precisa ser unívoca, ela pode ser plural, polifônica, subversiva, enlouquecida até!

Minha ambição não é, honestamente, chegar nesta voz. Nem sei se eu conseguiria. Em filosofia o caminho está parcialmente trilhado. Mas em literatura sou, e gostaria de ser sempre, diletante. Mas a filosofia também é uma literatura… tudo isso é muito dialético!

De resto, o seu uso de apoio-partitura, armadilhas-ilusões, e outras expressões que tais, me lembraram o estilo da tradução da Ilíada, por Haroldo de Campos. Diga lá, há um nome para esta aglutinação tão interessante de palavras? Acho um recurso perfeito!

Em Cabeça feita você discorre lindamente sobre como “começamos a ver o mundo como literatura”, “quanto mais lemos, mais nos transformamos no que lemos”, o que lembra Borges e a força “fisicamente transformadora”. A relação é visceral, do mundo através da poesia (da literatura), da poesia através do mundo. Sabe que eu sempre senti isso? Desde pequena. Eu tinha um verdadeiro medo de ler livros, pois me sentia como que invadida por eles. Daí eu selecionava com muito cuidado o que eu deixaria invadir meu cérebro, meu coração e meu corpo. Só fui perder este medo nos últimos anos.

Mas, em Cabeça feita, ou na cabeça se fazendo, você propõe uma anarquia completa e total. “Quem sou eu?” “Quem eu quiser, várias vezes por dia”. E, ler você, seus textos, e ouvir as falas no Ateliê, é uma experiência deste ponto de vista rodopiante, radiante, sujo, fedorento, anárquico e ciclônico – para não dizer titânico!

“Não somos indivíduos, somos enredo”. Já faz tempo que percebi, com a filosofia, que as coisas são discurso, e são um universo, e não podem ser apreendidas sempre da mesma maneira, sob pena de se perder de vista aspectos muito ricos da experiência. E a gente jamais conseguiria, como você propõe, juntar Asterix e Admirável mundo novo.

No capítulo 3, Que é poesia?, é delicioso o modo como você apresenta o enigma da esfinge para, em seguida, desmontá-lo em sua estrutura, e remontar a questão, pois “errado estava o monstro”. Penso ter percebido aí uma característica sua: você se apropria da tradição e a renova, trazendo novos conteúdos consoantes com a sua proposta anárquica que é, por paradoxal que pareça, muito bem estruturada. É um processo de pensamento dialético, e um estilo que surpreende positivamente seu leitor.

Sobre as Anotações sobre a crônica não há muito o que dizer, o texto é claríssimo – outra excelente característica sua. E é nas Reflexões sobre as antigas reflexões sobre o conto que somos apresentados ao contemporâneo, ao “mundo dos vivos” – a melhor definição que já ouvi, acaba com toda a ambiguidade. Não vamos falar de definições mas de etiquetas, que ajudam a “identificar temperamentos”. Esse é o olhar que propicia desfrutar o contemporâneo. Mas acredito que sirva também para olharmos o passado – se considerarmos que tudo se reinventa num eterno presente. Que tal?

E, mais uma vez, você dá seu toque pessoal, como pensador, filósofo e escritor e, ousaria dizer, teorizador da literatura, ao acrescentar às três categorias da ficção, personagem, enredo, espaço, mais dois elementos, linguagem e tempo.

Neste momento, como em muitos outros ao longo do texto, me parece que você está fazendo mesmo uma teoria literária apesar do fato de nos ter advertido, desde o início, que não era esse o caso. Mas penso que você está fazendo isso pelo seguinte motivo: você faz reflexões sobre o contemporâneo, sobre o que as pessoas vivas estão escrevendo e refletindo, e isso, de falar sobre o tempo atual, é algo muito difícil. Dizem que só com muito distanciamento temporal se pode falar de algo. Começo a acreditar que você contradiz este dogma. E você não apenas descreve o que está ocorrendo na literatura hoje, como normatiza algumas aspectos e dá chaves de leitura e interação. E isto vai de encontro a um desejo meu quando me inscrevi no Ateliê: o desejo de contemporaneizar-me. Você me indicou o caminho!

O que mais eu poderia dizer? Eu poderia parar de comentar agora mesmo, pois seu texto é simplesmente genial, perfeita harmonia entre forma e conteúdo. Ou será que esta harmonia poderia também ser subvertida? Começo a pensar que isto poderia ser muito interessante… E em Encontro e desencontro este caminho parece ser possível.

Mas se não for uma teoria literária que você está construindo, sem dúvida é uma nova crítica cultural, que está em gestação e cuja compreensão de todos os elementos do contemporâneo, “por ora, podemos apenas intuir”, como você diz em Profetas contemporâneos. Excelente título por sinal. Você é bom nisso! Mas é em Nem sempre os grandes escritores são bons escritores que você esbanja seu talento e sua erudição – ainda bem, pois assim ficamos mais bem informados, com mais referências, e aumentamos nossa lista de livros para ler e pesquisar!

Com sua erudição e seu estilo, em Tipologia do escritor você nos ajuda a pensar, ou seja, a ler, e nos fornece categorias para tal. E ainda propõe um divertido exercício em festas de escritores. Farei esse exercício lá na filô – estou precisando deixar mais divertida toda aquela sisudez! É a temática da liberdade que define o tom do livro. Tudo isto não é uma tábua dos saberes; divirta-se com estes saberes, ria deles, use-os, abuse-os. Você pode! Eu posso! Será que consigo?

Um tema importantíssimo que você não deixa de lado é discutido no capítulo 20, Literatura infantil: apenas para menores?. É um capítulo muito bonito. Você lembra do silêncio e de sua importância, da formação de leitores e do livro-livro como máquina de sensibilização. Penso – ou passei a refletir a respeito – que os livros infantis também devem fascinar/encantar os pais/adultos, pois eles lerão para seus filhos e isto tem que ser uma atividade agradável.

Por outro lado, estive pensando sobre um tema que você pôs em questão na oficina, sobre o fato de a literatura juvenil estar agradando mais aos leitores adultos do que a literatura adulta, e isso poderia ser indicativo de uma infantilização, ou algo assim, dos leitores mundiais. E, depois de ler seu capítulo, fiquei com a seguinte ideia: a literatura juvenil tem se desenvolvido tanto que, pela sua alta qualidade, está conquistando os leitores adultos. Talvez estejamos vivendo o “século das crianças e dos jovens”, depois de eles terem sido tão ignorados na literatura e nos direitos humanos por tantos séculos. E, se os livros infantis passam a ter gravuras cubistas e impressionistas, que jeito mais saboroso de apropriar-se da tal cultura da humanidade!

O que você acha desse meu otimismo?

Os Dez mandamentos da literatura infantil é um dos capítulos mais tocantes e é um belo exercício de como ser um ser humano. Me faz lembrar a frase do dramaturgo húngaro Georg Tabori, que teria dito que “o ator é um ser humano profissional”. Isso vale para muitas outras áreas.

O capitulo 21, Alexandre Dumas e a guerra dos livros é fascinante. Engana-se quem pensa que “os livros são criaturas amistosas”! Penso que não são nem entre eles, nem entre o livro mesmo, consigo mesmo, algumas vezes.

E você termina com uma narrativa comovente sobre a sua experiência com as presidiárias em O escritor e as presidiárias. Você descreve muito sensivelmente sobre o processo de passar do particular à individualização, que começou logo no segundo encontro, e de como você conduziu isso através de temas-tabus, para que elas chegassem ao mais íntimo de sua vida como pessoas, não como presidiárias, e compartilhassem, lembrassem, rissem de si mesmas e da vida. Me comoveu. Foi você, num belo exercício de ser humano!

Parabéns pelo trabalho bem feito. E, obrigada por compartilhá-lo!

Aqui me despeço com um beijo.

Guta

[ Guta Girolamo é apaixonada por muitas coisas, mas principalmente por filosofia e literatura. Atualmente é aluna do mestrado na USP e às terças-feiras reúne-se com o coletivo As Lontras Daquela Hora, na Casa Mário de Andrade. ]

“Ateliê de criação literária” na Amazon

16/02/2015

Capa Ateliê

Destinada ao poeta e ao ficcionista em início de carreira, esta coletânea de textos-aulas (incluindo exercícios) trata das questões fundamentais da criação literária: o que é poesia, crônica e conto, o tempo e o espaço na ficção, quais são os tipos de narrador e escritor etc.

Luiz Bras é escritor e coordenador de laboratórios, oficinas e ateliês de criação literária há quinze anos. Publicou diversos livros, entre eles “Distrito federal” (rapsódia, 2014), “Pequena coleção de grandes horrores” (minicontos, 2014) e “Sozinho no deserto extremo” (romance, 2012).

Mais dois exercícios

14/10/2014

Encontro e desencontro

1.

Escreva um breve texto (entre vinte e trinta linhas), em prosa ou verso, em que você encontra teu escritor predileto. Ou teu artista plástico predileto. Ou teu compositor predileto etc.
Esse encontro pode acontecer em qualquer época ou lugar, mas procure fugir da obviedade biográfica. Nada de encontrar Machado de Assis na ABL ou Guimarães Rosa no consulado.
Evite também a idolatria. Trate teu escritor predileto (artista plástico, compositor etc.) de igual para igual. Humanize-o. Discuta com ele. Brigue com ele. Faça amor com ele.
Se esse escritor ou artista ou compositor predileto for uma influência muito forte e sufocante em tua vida criativa, mate-o sem dó nem arrependimento.

2

Escreva um breve texto (entre vinte e trinta linhas), em prosa ou verso, em que você desencontra tua sombra. Ou teu reflexo no espelho. Ou tuas roupas etc.
Ou então, enveredando pela neurologia, escreva um breve texto em que você desencontra a capacidade de enxergar e reconhecer rostos (prosopagnosia). Ou a capacidade de perceber a forma dos objetos (agnosia perceptiva). Ou a capacidade de perceber o significado da forma dos objetos (agnosia visual associativa) etc.
Em conhecidas coletâneas de casos clínicos − O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Um antropólogo em Marte, Alucinações musicais, entre outras −, o neurologista Oliver Sacks relata vários casos extraordinários, de pacientes cujos transtornos podem render muita literatura interessante.

Descrição do personagem

22/09/2014

Um modo incomum e irreverente de descrever um personagem é usar na descrição o vocabulário da profissão do personagem.

O resultado é quase sempre uma divertida amostra de nonsense. Exemplos:

O cardiologista tem trinta anos e sua fisionomia pulsante é uma organizada confusão de cateteres e artérias coronárias. A careca minuciosa feito um hemograma, os olhos capazes de controlar o colesterol a distância, as pequenas orelhas de estetoscópio, os dedos finos de bisturi, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do plantonista crônico, obediente à agenda aguda das paradas cardíacas, acostumado ao labirinto circulatório e respiratório do hospital.

O advogado tem trinta anos e sua fisionomia ajuizada é uma organizada confusão de intimações e habeas corpus. A careca minuciosa feito um código penal, os olhos capazes de controlar o processo judicial a distância, as pequenas orelhas de escrivão, os dedos finos de procurador, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do criminalista defensivo, obediente à agenda justiceira dos alvarás de soltura, acostumado ao labirinto doloso e culposo do tribunal.

O matemático tem trinta anos e sua fisionomia cilíndrica é uma organizada confusão de vértices e expressões numéricas. A careca minuciosa feito um algoritmo, os olhos capazes de controlar os fractais a distância, as pequenas orelhas de esquadro, os dedos finos de compasso, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do professor poliédrico, obediente à agenda comutativa das figuras concêntricas, acostumado ao labirinto assimétrico e incongruente da pós-graduação.

Uma variante desse método quase surrealista de descrição de um personagem é usar na descrição o vocabulário não de sua profissão, mas de algo que o personagem goste: um esporte, um passatempo, uma arte (música, cinema, literatura etc.).

Exercício

Descreva um personagem usando o método proposto acima.

O espaço na ficção

17/09/2014

Como subverter a categoria espacial numa obra de ficção?

Adolfo Bioy Casares faz isso em sua narrativa mais famosa, A invenção de Morel.

Numa ilha aparentemente deserta do Pacífico, um fugitivo da lei encontra um grupo de pessoas e passa a espioná-las. Mas essas pessoas, nosso pobre xereta logo descobre, não são de carne e osso. São representações tridimensionais (holografias perfeitas) de turistas que estiveram na ilha, mas já desapareceram.

O conto Chegarão chuvas suaves, de Ray Bradbury, é protagonizado por uma casa deserta, automatizada, numa cidade devastada.

Por sua vez, Robert A. Heinlein concebe, no conto And he built a crooked house, uma casa em forma de hipercubo, com suas faces conectadas à quarta dimensão. Por fora, a casa é um cubo comum. Por dentro, todas as passagens levam a outros cubos, e as janelas abrem para lugares distantes no espaço e no tempo.

O romance de Stanisław Lem, Congresso futurológico, fala do espaço criado apenas em nossa mente, por substâncias alucinógenas. Realidade virtual também é o tema do romance Simulacron-3, de Daniel F. Galouye. Há ótimas versões cinematográficas desses dois livros.

No romance Jumper, de Steven Gould, o herói tem a habilidade de se teletransportar para qualquer lugar do planeta. O livro foi levado às telas pelo diretor Doug Liman.

A redução e a ampliação do espaço acontecem em certos momentos de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E nos filmes Viagem fantástica e Querida, encolhi as crianças. E no seriado que eu AMAVA quando era criança: Terra de gigantes.

O espaço cotidiano também muda em O incrível homem que encolheu, de Richard Matheson. Nesse romance um pai de família de classe média observa que tudo ao seu redor − esposa, filhos, objetos − está ficando maior a cada dia. Ou então é ele quem está encolhendo sem parar.

Outro exemplo de uso inusitado do espaço pode ser conferido no curta-metragem Tango, de Zbigniew Rybczynski, em que ocorre uma hipnótica sobreposição de personagens e ações.

Essa também é a premissa do curta-metragem Le portefeuille, de Vincent Bierrewaerts, em que um rapaz pára perto de uma carteira perdida na sarjeta. A partir daí a história mostra quatro alternativas de desenvolvimento.

Na primeira, o rapaz não vê a carteira e segue em frente. Na segunda, ele pega a carteira e segue em frente. Essa trilha também se bifurca: num caminho, o rapaz embolsa a grana e joga no lixo a carteira vazia. Noutro caminho, ele decide devolver a carteira com o dinheiro. Essa trilha também se bifurca. Num caminho, o rapaz se dá mal. Noutro caminho, nada de grave acontece.

O interessante é que as realidades paralelas acontecem simultaneamente, no mesmo espaço.

Certas gravuras ilusionistas de M.C. Escher também perturbam nossa trivial percepção do espaço tridimensional.

Por fim, no conto A biblioteca de Babel, todo o universo é transformado, por Borges, numa vasta biblioteca composta de um número absurdo de pequenas galerias hexagonais.

Exercício

Escreva uma breve ficção (entre vinte e trinta linhas) em que a categoria espaço seja subvertida de alguma forma.

O tempo na ficção

02/09/2014

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

Narrador, personagem, enredo e linguagem são as que recebem mais atenção dos ficcionistas.

Tempo e espaço, ao contrário, são as categorias que os ficcionistas menos reelaboram e subvertem. Há algo de aparentemente inflexível na noção cotidiana de tempo e espaço, algo que parece fixo e imutável.

Talvez por isso os escritores se esforcem tanto pra manter a corriqueira ilusão espaçotemporal, de índole naturalista.

Podem até inventar narradores excêntricos e personagens bizarros vivendo aventuras insólitas, mas, nos quesitos tempo e espaço, preferem não fugir da tradicional ordem cronológica e geométrica dos fatos. Escolhem reforçar a ilusão de causalidade, em vez de desmontá-la.

Na literatura e no cinema, porém, há exemplos excelentes de narrativas que tratam o tempo de maneira pouco convencional.

No romance Um dia, o narrador de David Nicholls acompanha os protagonistas durante duas décadas, mas cada capítulo focaliza apenas um dia do ano: 15 de julho.

No romance Orlando: uma biografia, Virginia Woolf nos apresenta um protagonista que simplesmente não envelhece. Fenômeno semelhante ocorre com o garoto de doze anos do conto Saudações e adeus, de Ray Bradbury.

No conto O curioso caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald, o protagonista nasce velho, vai rejuvenescendo ao longo da narrativa, até se transformar num feto e morrer.

No conto Viagem à semente, Alejo Carpentier inverte a seta do tempo e a história transcorre como num filme projetado de trás pra frente: os personagens rejuvenescem, os ponteiros do relógio giram no sentido contrário, a fumaça entra na chaminé, a água sobe para a torneira etc.

Um romancista brasuca, partindo da mesma premissa, conseguiu subverter não só nossa trivial noção de tempo, mas também de leitura. O romance Um minuto, de Newton Cesar, pede pra ser lido de trás pra frente. Você começa pela última linha, lá na página 197, vai subindo, vai voltando, e termina na primeira linha da página 9. No plano narrativo, o tempo também retrocede para o protagonista inicialmente velho e senil, que vai rejuvenescendo, ganhando saúde e agilidade.

No curta-metragem Palíndromo, de Philippe Barcinski, a projeção-de-trás-pra-frente faz de uma narrativa banal algo muito interessante.

No romance O jogo da amarelinha, Julio Cortázar embaralha a ordem dos capítulos, propondo ao leitor que leia na seqüência que preferir.

Numa passagem do romance Ubik, de Philip K. Dick, os personagens permanecem os mesmos, mas a tecnologia e os objetos retrocedem: um computador de última geração se transforma num computador de vinte anos atrás, depois numa máquina de escrever, o mesmo acontecendo com as roupas, os automóveis, os edifícios etc.

No filme O feitiço do tempo, de Harold Ramis, o protagonista fica preso numa fatia de tempo e é obrigado a reviver o mesmo dia inúmeras vezes. Essa divertida premissa já foi usada em muitas outras obras de ficção literária e audiovisual.

Em Amnésia, Christopher Nolan inverte o calendário, contando uma história de trás pra frente (o primeiro capítulo é na verdade o último da ordem cronológica). O mesmo ocorre no longa-metragem Irreversível, de Gaspar Noé, e no magnífico curta-metragem T.R.A.N.S.I.T., de Piet Kroon.

Em Corra, Lola, Corra, de Tom Tykwer, o tempo cronológico apresenta bifurcações que a protagonista consegue reavaliar quando a escolha inicial dá errado. Esse filme realiza na tela a premissa de um conto de Jorge Luis Borges, o genial Exame da obra de Herbert Quain.

Outra forma de subverter a causalidade numa narrativa é fazer o herói viajar no tempo e alterar um fato histórico qualquer. Ou encontrar seus múltiplos eus do passado e do futuro.

A maioria dos escritores de ficção científica já escreveu sobre viagens no tempo. Bons exemplos na literatura e no cinema não faltam: A máquina do tempo, de H.G. Wells, O fim da eternidade, de Isaac Asimov, a trilogia De volta para o futuro, de Robert Zemeckis, etc. O número de exemplos é quase infinito.

No divertido conto All you Zombies, de Robert A. Heinlein, um viajante no tempo descobre que é, nada mais nada menos, pai e mãe de si mesmo. Esse conto ganhou uma boa adaptação para as telas, intitulada O predestinado, dirigida pelos irmãos Michael e Peter Spierig.

No conto O outro, de Borges, o velho Borges tem uma provocativa conversa com o jovem Borges.

No filme brasuca O homem do futuro, de Cláudio Torres, o protagonista encontra-se com outros dois eus de épocas diferentes.

Exercício

Escreva uma breve ficção (entre vinte e trinta linhas) em que a categoria tempo seja subvertida de alguma forma.

Comentário:
Qualquer hora, se conseguir reunir a habilidade e o talento necessários, quero escrever a história de um sujeito que tem quarenta anos, no dia seguinte volta a ter oito (mas se lembra que já teve quarenta), no outro dia salta para os oitenta (sempre se lembrando de tudo) e assim por diante, coitado.
Se essa história já foi contada num livro ou filme, por favor, me avisem. Vou querer ler-assistir.

Post-scriptum de 2014: o longa-metragem Shuffle, de Kurt Kuenne, lançado em 2011, é exatamente essa história. O filme narra a desventura de um sujeito cuja cronologia está fora de ordem, embaralhada. A cada dia ele acorda numa idade diferente, num dia diferente de sua vida, indo e voltando na linha cronológica, e sempre se lembrando de tudo.

Que é poesia?

24/08/2014

Esfinge Poesia

A esfinge saracoteia, rosna e encurrala Édipo a dez centímetros do abismo sem fundo.
Édipo conhece a única regra desse jogo de vida ou morte.
O monstro fará uma pergunta, que o homem deverá responder sem embromação.
Se a resposta estiver correta, a esfinge voltará para o abismo.
Se estiver errada, Édipo será devorado.
O monstro dispara: que é poesia?
Édipo lembra de Paul Valéry e desfere: “é a permanente hesitação entre som e sentido”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Game over. Tela preta. Tela branca.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Roman Jakobson e desfere: “é a linguagem voltada para sua própria materialidade”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Heidegger e desfere: “fundação do ser mediante a palavra”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Octavio Paz e desfere: “linguagem em estado de pureza selvagem”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Coleridge e desfere: “as melhores palavras na melhor ordem”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Nova tentativa.
Édipo lembra de Novalis e desfere: “a religião original da humanidade”.
A esfinge devora o coitado em poucos segundos.
Na última tentativa, Édipo não pensa em ninguém.
Pensa apenas nos milhares de poemas que leu na vida, compara todos eles, reflete sobre as semelhanças e diferenças, e desfere: poesia é qualquer texto composto em versos e estrofes.
Satisfeita, a esfinge salta pra dentro do abismo.

Procurada mais tarde pela imprensa, a esfinge declara: vejam no dicionário, definir é estabelecer limites, delimitar, indicar o verdadeiro sentido de algo, sua significação precisa; definições muito subjetivas, ambíguas, que não definem nada, não me interessam; os movimentos de vanguarda do século 20 aboliram a fronteira que separava os gêneros literários; releiam os melhores poemas de Maiakovski Álvaro de Campos Jacques Prévert Derek Walcott Bandeira Drummond Adilia Lopes; analisem as melhores páginas de Proust Joyce Virginia Woolf Faulkner Guimarães Rosa Clarice Lispector Hilda Hilst Saramago Lobo Antunes; a prosa incorporou procedimentos que antes eram exclusivos da poesia e a poesia incorporou procedimentos que antes eram exclusivos da prosa; todas as definições apresentadas por Édipo não são exclusivas da poesia, essas definições também se aplicam perfeitamente a muitas páginas de prosa; menos a última definição, que salvou sua última vida; Édipo percebeu a verdade: poesia é qualquer texto composto em versos e estrofes, prosa é qualquer texto composto em períodos e parágrafos.
Em poucos minutos já circula nas redes sociais o veredito irrefutável da esfinge: poesia é prosa com enjambement. Ponto.
“Princípio tão simples e sólido quanto a primeira lei de Kepler ou a primeira lei de Newton”, escreve um cronista social.

Dois meses depois a esfinge é encontrada morta, num galpão abandonado.
“Homicídio após longa tortura”, noticiam os jornais.
O modus operandi do assassino, ou dos assassinos, aponta para um grupo de famigerados poetas da ala mais radical da lírica tupiniquim.
Mas nada fica provado, ninguém é indiciado.

Entre os pergaminhos da esfinge são encontrados os três poemas abaixo – respectivamente de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Paulo Leminski – e os três minicontos reproduzidos logo em seguida – respectivamente de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado –, todos copiados com letra miúda, garatujas de criatura mítica.

A hora da estrela

(
Ela me incomoda tanto
que fiquei oco.
…..Estou oco desta moça.
E ela tanto mais me incomoda
quanto menos reclama.
Estou com raiva.
Uma cólera de derrubar copos e pratos
e quebrar vidraças.
…..Como me vingar?
Ou melhor, como me compensar?
Já sei:
amando meu cão
que tem mais comida do que a moça.
…..Por que ela não reage?
Cadê um pouco de fibra?
Não,
ela é doce e obediente.
)

Grande sertão: veredas

…..Uma coisa
…..é pôr ideias arranjadas,
outra é lidar com país de pessoas,
de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias…
…..Tanta gente – dá susto de saber –
…..e nenhum se sossega:
todos nascendo, crescendo,
…..se casando,
querendo colocação de emprego, comida,
…..saúde,
riqueza, ser importante,
querendo chuva e negócios bons…
De sorte que carece de se escolher:
ou a gente se tece de viver no safado comum,
…..ou cuida de só religião
…..só.
Eu podia ser: padre sacerdote,
se não chefe de jagunços;
…..para outras coisas
…..não fui parido.

Catatau

A cara dos mestres
é o modelo das máscaras.
Que cara alguém terá
para erguer a máscara
que jaz sobre a cara
dos mestres?

Onde é que nós estamos
que já não reconhecemos
os desconhecidos?
Quer ter a bondade de martirizar
essa santa ignorância?

A sombra
traz um vento
soprando o lume
só pra ver
a que mundo
este se resume.

Balada de Santa Maria Egipcíaca

Santa Maria Egipcíaca seguia em peregrinação à terra do Senhor. Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.
Santa Maria Egipcíaca chegou à beira de um grande rio. Era tão longe a outra margem! E estava junto à ribanceira, num barco, um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
– Leva-me ao outro lado. Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó. Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.
– Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe. Leva-me ao outro lado.
O homem duro escarneceu:
– Não tens dinheiro, mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu, na graça divina, ao gesto que ele fez. Santa Maria Egipcíaca despiu o manto, e entregou ao barqueiro a santidade da sua nudez.

Caso pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo. E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava. Eu era todo barro, sem verdura… Maria, chuvosíssima criatura! Ela chovia em mim, em cada gesto, pensamento, desejo, sono, e o resto. Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa… Nossa!
Não me chovas, Maria, mais que o justo chuvisco de um momento, apenas susto. Não me inundes de teu líquido plasma, não sejas tão aquático fantasma! Eu lhe dizia em vão – pois que Maria quanto mais eu rogava, mais chovia. E chuveirando atroz em meu caminho, o deixava banhado em triste vinho, que não aquece, pois água de chuva é mosto de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha! Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças d’água gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa que a correnteza forte criou asa e um rio se formou, ou mar, não sei, sei apenas que nele me afundei. E quanto mais as ondas me levavam, as fontes de Maria mais chuvavam, de sorte que com pouco, e sem recurso, as coisas se lançaram no seu curso, e eis o mundo molhado e sovertido sob aquele sinistro e atro chovido.
Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta iam clamando contra essa chuva, estúpida e mortal catarata (jamais houve outra igual). Anti-petendam cânticos se ouviram. Que nada! As cordas d’água mais deliram, e Maria, torneira desatada, mais se dilata em sua chuvarada.
Os navios soçobram. Continentes já submergem com todos os viventes, e Maria chovendo. Eis que a essa altura, delida e fluida a humana enfibratura, e a terra não sofrendo tal chuvência, comoveu-se a Divina Providência, e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais, Maria! – e ela parou.

Agora, ó José

É teu destino, ó José, a esta hora da tarde, se encostar na parede, as mãos para trás. Teu paletó abotoado de outro frio te guarda, enfeita com três botões tua paciência dura. A mulher que tens, tão histérica, tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão o teu passeio maneiro e olhas assim e pensas, o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta o que tu sentes, José?
O que te salva da vida é a vida mesma, ó José, e o que sobre ela está escrito a rogo de tua fé: “No meio do caminho tinha uma pedra”, “Tu és pedra e sobre esta pedra”, a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José, dorme com tua mulher, gira a aldraba de ferro pesadíssima. O reino do céu é semelhante a um homem como você, José.

Muito tempo depois, Édipo finalmente compreenderá que a esfinge não era tão sábia e lúcida quanto todos imaginavam.
Ao narrar a seus netos o encontro com o monstro, o herói explicará que faltou à esfinge a percepção mais aguda da real diferença entre poesia e poema.
Poesia, quando sinônimo de perfeição, é a qualidade presente em certos artefatos culturais, capaz de despertar o sentimento do belo e provocar o encantamento estético.
Poesia, quando sinônimo de poema, essa sim é o texto composto em versos e estrofes.
A primeira definição de poesia (sinônimo de perfeição) permite que a gente busque essa qualidade em todas as artes.
Permite que a gente fale da poesia que há nos bons poemas, nos bons contos, nos bons romances, na boa arquitetura, no bom cinema, no bom teatro, na boa escultura…
Se Paul Valéry, Roman Jakobson, Heidegger, Octavio Paz, Coleridge e Novalis tinham em mente a poesia enquanto perfeição, todas as seis primeiras definições não estavam erradas.
Esses senhores falavam da poesia presente em todos os artefatos culturais compostos com engenho e arte, não apenas nos bons poemas.
Diante dos netos, a conclusão de Édipo será uma só:
Errado estava o monstro, que só poupou minha vida, a última de sete, apenas quando recebeu a definição de poema.

Indicações de leitura
Antonio Candido: Na sala de aula, editora Ática.
Antonio Candido: O estudo analítico do poema, editora Humanitas.
Norma Goldstein: Versos, sons, ritmos, editora Ática.
Samira Chalhub: Funções da linguagem, editora Ática.

Anotações sobre o conto

13/08/2014

Em março deste ano teve início o Ateliê Permanente de Criação Literária, na Oficina da Palavra – Casa Mário de Andrade, em São Paulo.
Os gêneros conto e crônica são o foco principal do Ateliê, e as anotações abaixo formam parte da base teórica das atividades de escrita.

Anotações sobre o conto

O território comum da literatura e da biologia é a anatomia.

Literatura e biologia produzem organismos que podem ser desmontados, analisados e catalogados. Mas esse movimento reducionista jamais foi capaz de aprisionar o mistério da criação.

Nas livrarias e nas bibliotecas existem quase duas dezenas de obras que teorizam sobre as formas literárias, dando dicas, comentando exemplos etc. Mas o estudo dessa bibliografia garante muito pouco durante a escritura de um conto ou um poema.

As anotações abaixo são uma simplificação didática, apenas isso: um desenho bastante esquemático, mostrando quais são os órgãos vitais de qualquer narrativa curta ou longa.

São o ponto de partida para saborosas conversas sobre as ficções que mais amamos. Debates descontraídos. Informais. Acompanhados de um bom fermentado ou destilado.

Eu duvido que exista, além da anatomia, uma fisiologia das formas literárias, ou seja, a ciência do funcionamento dos órgãos vitais de qualquer obra em prosa ou verso. Se existir, deve ser uma especialidade tão complicada e esotérica que não valerá a pena se preocupar com ela.

Teoria e prática é um casamento virtuoso. Mas na hora de escrever vale mais a prática excessiva do que a teoria exagerada.

[ Querido contista em início de carreira, não siga em frente antes de ler o artigo Reflexões sobre as antigas reflexões sobre o conto: parte 1 e parte 2. ]

Categorias da narrativa

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

O narrador e o personagem principal (protagonista) formam o centro gravitacional de qualquer narrativa. Ao redor deles gira todo o universo ficcional.

Os personagens se dividem em protagonista, antagonista e coadjuvante.

Muitas vezes o narrador é o protagonista ou um coadjuvante muito ligado a ele.

Não é exagero dizer que o protagonista é o elemento mais importante de uma narrativa. É do personagem principal – seu drama, suas ações, sua personalidade, seus conflitos internos e externos etc. – que os leitores mais se recordam, anos depois da leitura de um conto, uma novela ou um romance de que gostaram.

Os heróis da ficção são geralmente mais famosos do que os ficcionistas que lhes deram a vida. É mais fácil se lembrar da história de Ulisses, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Anna Karenina, Macabea ou Riobaldo do que da biografia dos autores que dedicaram tempo e talento na escritura dessas histórias.

Tipologia do narrador

Narrador em primeira pessoa
Protagonista: o herói conta sua história.
Coadjuvante: um amigo ou parente do protagonista conta a história, mantendo-se em segundo plano.
Exemplos famosos de narradores-coadjuvantes estão em Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle, A cidade e as serras, de Eça de Queirós, O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, Doutor Fausto, de Thomas Mann, e On the road, de Jack Kerouak.

Narrador em segunda pessoa
É o tipo mais raro de narrador. Trata-se basicamente de uma voz personificada, que narra e comenta as ações do protagonista, dá conselhos a ele, divaga, irrita-se, comove-se, sem jamais se corporificar na trama.
Somente o leitor escuta o narrador em segunda pessoa, mas este jamais fala com o leitor. O narrador em segunda pessoa fala apenas com o herói, mas este jamais escuta o que ele diz.
Narrador, protagonista e leitor vivem em planos existenciais diferentes.
Todos os contos da coletânea A vida é fêmea, de Homero Fonseca, são narrados em segunda pessoa.
Outro bom exemplo de narrador em segunda pessoa está em Como ficar podre de rico na Ásia emergente, de Mohsin Hamid.
Três capítulos de É assim que você a perde, de Junot Díaz, também apresentam esse narrador incomum.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente discreto ou neutro: narra de maneira objetiva e imparcial, sem se envolver emocionalmente com a história que está contando.
Onisciente intruso ou intrometido: narra de modo passional, envolvendo-se emocionalmente com a história que está contando.
Onisciente polifônico ou em transe: narra de maneira exaltada, às vezes delirante. Sua fala desordenada mistura a primeira, a segunda e a terceira pessoa. Sua linguagem é o discurso indireto livre, o monólogo interior ou o fluxo de consciência.

É bom frisar que a tradicional onisciência não é um atributo essencial do narrador.

O narrador onisciente, o próprio nome já diz, é o deus que sabe tudo não apenas do protagonista mas de todos os personagens e da história inteira. Não há detalhe ou segredo que ele não conheça. Seu alcance cronológico e geográfico é enorme. Está familiarizado com o desenlace antes mesmo que aconteça.

Muitos ficcionistas, porém, preferem evitar a onisciência do narrador: tiram dele o conhecimento absoluto, fazendo-o acompanhar bem de perto apenas o protagonista. Narrador e herói agora compartilham a mesma perspectiva e testemunham os mesmos eventos, sem saberem o que virá em seguida.

Mas esse narrador ainda mantém a habilidade de ouvir os pensamentos do protagonista, de conhecer sua vida subjetiva.

Há ficcionistas que tiram até isso de seu narrador, limitando-o a apenas descrever, de fora, o que está acontecendo.

O narrador volúvel e pouco confiável – em primeira, segunda ou terceira pessoa – é outra alternativa bastante estimulante, à disposição do ficcionista que deseja fugir do lugar comum. Esse narrador sonega informação e distorce certos fatos, a fim de melhorar sua reputação e ludibriar o leitor.

Modo dramático
À maneira do teatro: discurso direto, feito apenas de diálogos, às vezes com breves indicações de cena. Pode ser levado ao palco facilmente.
Muitos ficcionistas parodiaram certas formas de diálogo (catecismo, entrevista, inquérito policial, conversa no telefone, na rede social, interrogatório no tribunal etc.) na composição de narrativas incomuns.

Narrador-montador
Típico de narrativas experimentais, esse narrador intangível promove a colagem ou a montagem de fragmentos de textos (incluindo bilhetes, cartas, documentos, horóscopos, matérias de jornal e revista etc.) e imagens (desenhos, fotos, tíquetes, rótulos, anúncios de jornal e revista, partituras etc.).

Não é frequente, mas uma narrativa pode fazer uso de mais de um tipo de narrador.

Exemplos

Narrador em primeira pessoa
Protagonista
Ladeira desgraçada, roubou todo o meu fôlego. Paro um minuto pra cuspir. Abro a jaqueta e limpo os óculos na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Pulo o muro do quintal e fico observando a maçaneta da porta dos fundos à luz da lua. Minha experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Mau sinal: a porta está destrancada. Abro bem devagar. Empunho a lanterna e o revólver roubados do meu padrasto, minhas mãos tremem. Antes de entrar, olho em volta. Pode ser uma armadilha.

Narrador em primeira pessoa
Coadjuvante
Ladeira desgraçada, meu amigo resmunga, apoiando-se em mim. Paramos pra cuspir e recuperar o fôlego. Turco abre a jaqueta e limpa os óculos na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Turco pula o muro do quintal e fica observando a maçaneta da porta dos fundos à luz da lua. Sua experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Mau sinal: a porta está destrancada. Turco abre bem devagar. Empunha a lanterna e o revólver roubados do seu padrasto, suspeito que suas mãos tremem. Antes de entrar, Turco olha em volta. Pode ser uma armadilha.

Narrador em segunda pessoa
É verdade, meu amigo: ladeira desgraçada. Pare um minuto pra cuspir e recuperar o fôlego. Teus óculos estão imundos, limpe na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Hora de pular o muro do quintal. Vai ficar encarando pra sempre a maçaneta da porta dos fundos? Tudo bem, querido. Eu sei que sua experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Epa! Mau sinal: a porta está destrancada. Abra bem devagar, Turco, bem devagar. Está esperando o quê pra empunhar a lanterna e o revólver? É, neguim, a lanterna e o revólver roubados do teu padrasto. Tuas mãos estão tremendo? Fique atento. Pode ser uma armadilha.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente discreto ou neutro
Uma névoa leitosa realça o inverno.
Bruno desce do táxi, entra no saguão do hotel, acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra Simone. Não devia ter confiado nela, pensa.
– A reunião foi péssima. Ele não assinou o contrato. Você precisa vir pra cá agora mesmo.
– Ficou louco? – ela boceja. – É quase meia-noite. Não posso.
– Você me enfiou nessa embrulhada. O desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro. Você precisa pagar ao menos a conta do hotel.
– Amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo – sua fala está mais fraca, sem emoção. – Agora não dá mesmo. – Outro bocejo. – Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente intruso ou intrometido
Uma névoa leitosa realça o maldito inverno. Cidade do caralho. Frio da porra.
Bruno desce do táxi, entra no saguão do hotel, acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra quem? Pra idiota da Simone, é claro. Confiar nessa vagabunda foi a maior besteira de sua vida.
– A reunião foi péssima. Ele não assinou o contrato. Você precisa vir pra cá agora mesmo.
– Ficou louco? – Um bocejo, essa não, ela bocejou mesmo. – É quase meia-noite. Não posso.
– Você me enfiou nessa embrulhada. O desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro. Você precisa pagar ao menos a conta do hotel.
– Amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo. – Sua fala está mais fraca, sem emoção. Putinha covarde. – Agora não dá mesmo. – Outro bocejo. – Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente polifônico ou em transe
Uma névoa leitosa realça o maldito inverno, cidade do caralho frio da porra, Bruno desce do táxi entra no saguão do hotel acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra quem?, pra idiota da Simone é claro, ah imbecil, confiar nessa vagabunda foi a maior besteira de sua vida, Bruno explica que a reunião foi péssima ele não assinou o contrato você precisa vir pra cá agora mesmo, Simone boceja e resmunga ficou louco? é quase meia-noite não posso, você me enfiou nessa embrulhada o desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro você precisa pagar ao menos a conta do hotel, amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo, sua fala está mais fraca sem emoção putinha covarde outro bocejo, Bruno insiste, ela desconversa agora não dá mesmo Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Personagem

Um bom modo de firmar a fisionomia, o temperamento e o caráter de um personagem, seja ele o protagonista, o antagonista ou um coadjuvante, é respondendo um questionário simples.

O escritor deverá fazer isso antes mesmo de começar a escrever o conto.

A ficha abaixo, do protagonista, é somente um modelo que poderá ser modificado e incrementado de acordo com as circunstâncias.

Ficha do protagonista

Nome:
Apelido:
Data e local de nascimento:
Sexo:
Etnia:
Classe social:
Altura e peso:
Estado civil:
Escolaridade:
Religião:
Extrovertido ou introvertido:
Profissão:
Passatempo:
Prato preferido:
Fale um pouco de sua mãe:
Fale um pouco de seu pai:
Tem irmãos?
Grande amor de sua vida:
Quando perdeu a virgindade:
Um problema de saúde:
Maior virtude:
Pior vício:
Um segredo inconfessável:
Maior desejo (secreto ou não):
Acredita na imortalidade da alma?
Acredita em civilizações extraterrestres?
Frase predileta:
Outros dados importantes:
Quem ou o quê é seu antagonista?
Quando e como morreu:

Dica: quando for definir o segredo inconfessável, pense em algo realmente vergonhoso. Nesse segredo abjeto pode estar o principal conflito da narrativa.

Se o protagonista não for uma pessoa, mas um animal, um vegetal, um objeto ou uma força da natureza, outras perguntas mais pertinentes deverão ser formuladas pelo escritor.

Questões sobre a raça, o pelo ou as penas ou as escamas do animal; sobre os ramos, as folhas, o fruto e as flores do vegetal; sobre o material, o peso e as dimensões do objeto; sobre a intensidade e a constância da força da natureza (tornado, tempestade, vulcão etc.).

Nos casos em que o animal, o vegetal, o objeto ou a força da natureza forem personagens antropomorfizados, boa parte da ficha acima poderá ser usada. Um gato, uma orquídea, uma cadeira ou uma nuvem com características humanas podem ser extrovertidos ou introvertidos, ter um passatempo, um grande amor, virtudes e vícios, um segredo inconfessável…

E todos têm, sem exceção, um antagonista. Do contrário faltaria o combustível fundamental de qualquer enredo: o conflito.

Exercícios

Usando o narrador em segunda pessoa e a ficha do protagonista preenchida, escreva um breve texto (entre dez e quinze linhas) sobre o tema: o protagonista sai de casa.

Segundo exercício: o conflito.
Usando o modo dramático (discurso direto), escreva sobre o tema: o protagonista encontra seu antagonista.

Terceiro exercício: um momento marcante.
Usando o foco narrativo de sua preferência, escreva sobre o tema: o protagonista encontra a morte.

Indicações de leitura
Antonio Candido e outros autores: A personagem de ficção, editora Perspectiva.
David Lodge: A arte da ficção, editora L&PM.
Ítalo Moriconi (organização): texto introdutório de Os cem melhores contos brasileiros do século 20, editora Objetiva.
Ligia Chiappini Moraes Leite: O foco narrativo, editora Ática.
Massaud Moisés: capítulo sobre o conto, em A criação literária (volume 1), editora Cultrix.
Nádia Battella Gotlib: Teoria do conto, editora Ática.
Ricardo Piglia: Teses sobre o conto e Novas teses sobre o conto, em Formas breves, editora Companhia das Letras.