Archive for the ‘Distrito federal’ Category

Breves teorias-do-caos sobre o “Distrito federal”

28/01/2015

Capinha

Um longo poema beat-tupiniquim. Mistura de Allen Ginsberg e Mário de Andrade, com um toque de O silêncio dos inocentes. A vingança do mito sobre a objetividade: a corrupção tem raízes bem mais profundas!
[ Daniel Lopes, autor de A delicadeza dos hipopótamos ]

Mais do que uma ficção, Distrito federal é, na verdade, o documento mais contundente, a biópsia literária mais penetrante do nosso atual estado mental, estado social reativo, agressivo, perturbado, enlouquecido, excitado pelas vertigens da vida no Brasil, esse abismo que nunca chega. Com sua mistura de Câmara Cascudo com Cronemberg, de TV Senado com Chico Picadinho, de Robocop com Francis Bacon, muito bem azeitada, humorada, inspirada, Luiz Bras escancara com maestria a ira nada sagrada, a ira obscena que guia todos nós diariamente, para o colo do Último Grande Exu, o exu da Suculenta Insolência Infinita, alimentado pelas ruínas da Política, da Tecnociência, da Religião e do Humanismo. Alguma coisa cheira muito mal na atualidade. Principalmente no Brasil, abismo das ruínas encruzilhadas. Gambiarra das antropofagias. Distrito federal é um documento imprescindível.
[ Fausto Fawcett é autor de Favelost ]

Linhas de fuga em guerra de significação: Distrito federal me toma duma maneira que não comovia desde Panamérica, feito transe redivivo desse Agrippino milimetricamente estilhaçado que Luiz Bras encarna. Li numa assentada, leitura que exige repetição indefinida: um temporal incessante, não rio apascentado de leito. Inaudito como um Paris, Texas dirigido agora por Fritz Lang reinventando o zoom literário. Se a tranZmodernidade brasileira carecia dum manifesto, eis essa artesania dum nomadismo precioso. Mensurar algo que ainda deita raízes não posso, mas esse se revela o livro necessário para uma demanda de sentidos possíveis e desdobrados ao infinito do criativo.
[ Flávio Viegas Amoreira é autor de Escorbuto, cantos da costa ]

Distrito federal é uma das realizações mais ambiciosas de Luiz Bras, autor instigante e provocador, que renovou a ficção científica brasileira nos últimos anos.
[ Marcello Simão Branco, coeditor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica ]

Distrito federal é uma obra de impressionante lucidez, um belo romance-poema que, utilizando um ritmo alucinado e imagens cortantes, destrincha a realidade política brasileira atual.
[ Márcia Barbieri, autora de A puta ]

Distrito federal é uma abdução. Luiz Bras cria um ciclo vicioso para quem lê, que mostra o ciclo vicioso de como o poder corrompe, causa danos e volta a corromper. Para o leitor é um alívio se aproximar, através das páginas, do universo de fedores e verdades que está bem abaixo do nosso nariz. O tempo vai, volta e, durante todo ele, permanece a sensação de que moral e bom-senso estão perdidos e fora do lugar. E estão.
[ Mariana Teixeira, autora de Inversos paralelos ]

Em Distrito federal, Luiz Bras dá voz a um povo cansado & triste, sem nada de heróico ou retumbante, que afinal reage, tingindo de vermelho um planalto central desenganado pela sujeira pública que nos assola e define.
[ Moacyr Godoy Moreira, autor de Soalho de tábua ]

Distrito federal expõe o detrito universal (humano) sem didatismo ou amenizações, em apurada linguagem e numa estrutura textual desconcertante. Pode-se chamar até de uma estrutura rizomática, tamanha a confluência de páginas numericamente distantes. A ausência de linearidade dá a sensação de um movimento circular que amplia a voracidade desse curupira pós-humano que se depara com os mesmos obstáculos corruptores e corrompidos em renovada alternância, nos dando a sensação de reinicio constante desse jogo destrutivo.
[ Ninil Gonçalves, autor de Absorções ]

Em Distrito federal, capa, projeto gráfico, gravuras, diagramação, estão perfeitamente ligados e integrados ao texto maravilhoso. O romance reflete a época em que vivemos, vai ao futuro, volta, e ainda assim duvidamos de suas terríveis premonições. Literatura me pareceu a única esperança. Adorei o livro.
[ Paula Bajer Fernandes, autora de Nove tiros em Chef Lidu ]

Distrito federal não se limita a replicar os ícones e os paradigmas clássicos da ficção científica. Reconfigura-os à luz das particularidades do contemporâneo e, assim, cumpre o modelar papel do gênero: fomentar uma nova maneira de ver o cambiante mundo ao nosso redor. Literariamente interessado no entrelaçar de forma e conteúdo, é um raro exemplo de narrativa longa de ficção científica no Brasil.
[ Ramiro Giroldo, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia ]

A engenhosa narrativa tupinipunk de Luiz Bras agrega uma indignação de faca nos dentes à literatura do Brasil pós-Mensalão. Deveria virar tendência – e caixas do livro serem lançadas sobre Brasília.
[ Roberto de Sousa Causo, autor de Glória sombria ]

Distrito Federal é uma narrativa de ritmo alucinante e visceral.
Nem tente fugir, você será dominado pelo curupira.
Mas atenção, o Ministério da Cultura adverte: se você estiver envolvido em alguma maracutaia, não leia esse livro.
As consequências serão terríveis.
[ Victor Del Franco, autor de A fluidez da aurorA ]

Distrito federal é ao mesmo tempo raia de loucura e realidade em brasa. Não dá para se deixar levar pelo formato pouco convencional, as mensagens pulsam nas páginas o tempo todo, sem cessar, como um coração arrancado do peito, louco para fugir, encontrar caminhos diferentes daqueles já traçados. Um mergulho em códigos e mistérios que cada um vai interpretar de uma maneira.
Senti raiva, senti nojo, senti alegria, senti um chamado nesta rapsódia. É como um carro desgovernado que sabe exatamente o alvo que vai atingir. Atual, rebuscado, enfurecido, rebelde, e que se dane quem não gostar de adjetivos, teria ainda muitos mais. Distrito federal se desprende do real para descrever a nossa realidade matuta, o nosso caráter obtuso, mesmo que seja o obtuso que deseja sair do embotamento que nos atordoa pelo banho de merda e mau cheiro que se espalha.
Uma pena que o curupira não voltasse sua fúria para os pequenos corruptos também, aqueles que defendem com unhas e dentes a moral e subornam o guarda e furam a fila. Uma lástima que o curupira não tenha mirado os preconceituosos, os homofóbicos, os pedófilos, os mentirosos. Mas o castigo aos chupamerdas eleitos & corruptos lava a alma, apesar de não nos livrar da nossa responsabilidade por eles estarem onde estão.
Senti falta de uma presença maior do saci. E de outros orixás que muito bem se encaixariam no enredo: Nanã Buruquê e Omolu carregando os espíritos dos estripados seria sensacional, ou curando os obtusos; Ogun cortando cabeças, disputando com o curupira o sangue dos políticos fedorentos…
É uma colcha de retalhos psicocibernética, na qual o tempo tem importância mínima, pois tudo poderia ocorrer num segundo ou em bilhões de anos. E a vitória da natureza é o sopro da esperança depois de exterminado esse câncer que chamamos de humanidade.
Viva o curupira!
[ Petê Rissatti, autor de Réquiem: sonhos proibidos ]

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“Distrito federal” na revista Pausa

08/01/2015

Pausa

O escritor Manoel Herzog, autor dos romances Companhia Brasileira de Alquimia (Patuá) e Os bichos (Realejo), notou no curupira do Distrito federal um forte parentesco com uma dupla de famigerados anti-heróis psicopatas: Constantine e Hannibal Lecter.

Leia a resenha completa clicando na imagem acima.

“Distrito federal” no Guia da Folha

20/12/2014

Mini-resenha

Mensagem do Santiago Santos

14/12/2014

Capinha

Salve, LB!

Da última vez que nos falamos, ainda em SP, comentei contigo a impressão maior do DF, que eu carregava ainda lá por 1/3 do livro: a de que tava com dificuldade de selecionar as partes pra grifar. No estudo da prática literária me parece que nada substitui bons autores na hora de aprender. Lá vou eu selecionando e na medida do possível dissecando as boas passagens e rabiscando ali nos cantos as justificativas que cabem no pouco que já deu pra aprender lendo um pouco de tudo. O problema é que com essa característica diferenciada do DF (a escolha das frases curtas e dos parágrafos de, em média, 1 ou 2 linhas meio que demanda a estratificação que deixa tudo explosivo; é um livro de mais pontos que vírgulas, se isso forma algum parâmetro que desconheço) tudo é concentrado, tudo é síntese e pólvora, e em cada página tem uma coisinha que, puta merda, dá vontade de separar e explicar por que impacta tanto.

Pra começar (já comecei, mas, porra, as liberdades que um e-mail te dá, não?) a premissa é foda. Andando com o livro debaixo do braço por SP e depois Cuiabá, quem me via com o artefato (não é pra menos, um bichano de capa dura, com capa e contracapa estampadas com esse mosaico de símbolos, e lombadona vermelha − parabéns pra tua contraparte, Teo, também) perguntava que diabos era aquilo que eu tava lendo. Minha sinopse se dava nessas linhas: “O espírito do último curupira entra no corpo de um humano e começa a matar políticos corruptos porque pra ele o cheiro é insuportável. Se passa num futuro em que as cidades tomaram conta do planeta e quase não há nada da natureza por aí. Para o curupira os assassinatos são obras de arte.” E a resposta era sempre: que foda. E é mesmo. Aquele pedaço que você liberou não sei pra qual veículo, do comecinho da história, que é quando o curupira possui o cara que ele controlará pela maior parte do livro, porra, é uma puta arma de convencimento. Essa síntese, esse impacto, essa porrada, tá ali, naquelas (curtas) linhas. Foi tão convencedora que levou o amigo que me hospedou em SP a falar DF quando perguntei que livro ele queria, em agradecimento pelo sofá-cama e pelos papos madrugada adentro mesmo ele tendo que trabalhar dali a algumas horas.

Mas premissa é tempero. Nela não tão subentendidos os desvios da trama principal, como o fascínio pelo último saci; os copycats que se proliferam ao redor do curupira e criam uma ordem que o enxerga e louva como mestre, a seu contragosto; delírios artísticos no destrinchamento de cada ladrão menor ou maior dessa sociedade em que se vive durante séculos e os crimes se acumulam mais veementemente; o vizinho desagradável e seu cubo de matéria programável; as divagações sobre o mundo artístico, sobre o estado da Terra, sobre o ser humano, sobre a sociedade, sobre a vida, sobre a ambição inesgotável do acúmulo; a relutância do hospedeiro do curupira e o gradual apego deste à sensibilidade humana devido à exposição prolongada; os passeios pela área preservada no cerrado e o contato com os fantasmas dos animais; o MMORPG Distrito federal em que os jogadores são políticos e possuem poderes; Moema e sua ascensão mística no jogo e fora dele; a existência de um político honesto, uma mulher que desequilibra o curupira e o faz querer protegê-la pra salvar a humanidade; o narrador intrometido e cheio de opiniões, raivoso, fascinado, nessa revelação gradual de que se trata de uma inteligência artificial que ganhou consciência.

O livro se expande na segunda parte com a narrativa paralela do menino-menina e do próprio cubo, misturando lapsos temporais, incubação psíquica e um bom e velho bank robbery trope, e fecha de maneira apoteótica com a retomada da natureza, a fúria viva, o declínio das máquinas, a luta pela última fagulha de eletricidade, o abandono, a morte, a dúvida final que desponta no céu desse fim que não é fim, ou é, ou não importa, já que ressoa e isso é mais importante que a certeza, certo? Ou seja: pluralidade temática das boas.

Seria fácil dizer que a identificação vem naturalmente pro leitor de um país em que a corrupção é vista como o maior entrave pra gente sair de vez da posição terceiro-mundista de investimento extraviado e burocracia desnecessária, um assunto sanguenozóio. Não é privilégio nosso, claro, mas que timing, não? A insatisfação gera esses pipocos em todo canto e, sinceramente, quando estoura uma nova notícia de desvio de verba e afins não sei se haveria alguém descontente com a existência do curupira aqui hoje. Mas a identificação não vem só dessa posição de simpatia pelos atos guardados na garganta de todo mundo, vem também pela linguagem. Primeiro pelo uso da segunda pessoa, que coloca na maior parte do tempo o leitor no lugar do curupira. Em segundo pela simplicidade, grande marca da tua literatura. Pega esse pedaço aqui:

Você mantém uma lista de políticos corruptos. É uma lista beeeeeem grande. É preciso fazer justiça. Todos têm que morrer de maneira violenta. É preciso que a sociedade entenda que os criminosos do poder executivo, do legislativo e do judiciário são muitos piores do que os outros. Será que só você percebe isso com tanta clareza? Enquanto os criminosos comuns são no máximo uma gripe branda, os criminosos políticos são um câncer terrivelmente agressivo. É preciso fazer justiça, combater o tumor maligno, impedir a metástase. Você já assassinou trezentos, mas não passou da segunda página. É uma lista grande, eu sei, querido. Não estou reclamando. Acredite, estou muito orgulhosa de você. Todos têm que morrer de maneira brutal. Essa é a mensagem: corrupção pede violência, sangue. Um tumor maligno pede um bisturi, um corte firme. Sem anestesia. Você é um artista.

E por aí vai, nesse ritmo meio malemolente, uma coisa meio poética, lotada de pausas. Um diálogo mesmo, com os vícios de um diálogo que deixam a coisa fluir (na questão da fluência em alguns momentos mais frenéticos senti uma musicalidade muito característica da escrita do Marcelino Freire, que é tão cantada, e qual não foi minha surpresa ao vê-lo referenciado depois). Uma rapsódia, como você diz na abertura, jogando aí a colagem de tanta coisa e tanta fonte que não é brincadeira. Você fez isso no Sozinho no deserto extremo já, mas lá descaradamente. Aqui as referências vêm mesmo à tona na nota do autor no fim do livro (obrigado por elas, inclusive, abriram o leque pra pesquisas posteriores). Não querendo dizer que o livro é absolutamente simples; há passagens complexas, conceitos científicos, belas imagens e metáforas. E a trama é tão concatenada que não há nada de simples ali. Mas você sabe que digo simplicidade na linguagem de forma elogiosa, já entramos no assunto antes.

Aqui alguns ganchos que virariam epígrafes fácil fácil:

“Segredos são varetas de bambu que sustentam o cenário de cartolina do senso comum.” “O talento circense de gargalhar só com as mãos.” “Os últimos obtusos saem de seu esconderijo e caminham sob o sol a pino. / Sentem o calor, notam a luz monocórdia derramando agudos nos escombros.” “Icebergs deslizam na superfície oceânica do humor aquoso.”

A parte do despertar de Brasília, lá pela pág. 215, foi de cair o cu da bunda, cá entre nós. A humanização dos vários aspectos da cidade conferiu um toque surrealista que me deixou boquiaberto, foda demais.

Confesso que as repetições que se verificam em vários trechos do livro me irritaram um pouco, mais preocupado que eu estava a certa altura com a trama que com a experimentação linguística, mas os receios foram extintos quando uma plausível explicação lógica se desenhou dentro da própria história, uma justificativa pra fragmentação e ocasional repetição do narrador, que teria seu banco de dados invadido e roubado-embaralhado. Daí pra frente fez um sentido bem mais justificável que o simples efeito estético.

A mesma coisa acontece com os painéis que recheiam o livro. Aparentemente são colagens temáticas de assuntos abordados na história, mas não são mera representação; são parte da história também, a produção artística dos robozinhos revoltados com a corrupção política. Ou seja, o livro se significa enquanto artefato, que é mais do que muito livro faz, uma preocupação sensível de tornar a experiência de leitura algo completo, imersível. É o tipo de coisa que justifica um livro impresso. Gosto muito de ler no Kindle, mas como alguém que cresceu lendo no papel tenho esse apego. No futuro, creio que só as coisas que têm esse quê a mais de significado, esse cuidado, sobreviverão nas estantes dos colecionadores.

Na história tá todo mundo puto. Os robôs, as máquinas, o espírito dos animais, dos índios que por aqui viviam e foram dizimados, das criaturas folclóricas. É uma revolta em todos os níveis com esses desvios morais e os abusos de poder que se veem espelhados também na urbanização desenfreada. É um cautionary tale, um desabafo, uma vingança hipotética; ficção científica, fantasia, policial, experimental. É muita coisa. Mas no cerne é uma grande história em várias camadas. Das que fazem a gente ficar pensando depois de acabar, como a boa ficção especulativa faz. Não só sobre o que somos e o cenário que habitamos, mas pra onde vamos, o que seremos, o que cabe a nós mudar.

Bom, você sabe que isso é uma pincelada das impressões, nada mais ambicioso que um bate-papo. Não extingue de forma alguma a totalidade de associações que surgiram, mas acho que já passei da cota (uma ideia que me veio folheando aqui: a extinção da humanidade representa apenas o fim da linguagem. Os nomes é que se perderão, não mais que isso. Meio que coloca a gente no devido lugar, não? Outra: a finalidade artística do curupira era despertar a sensibilidade do povo e também significar, exprimir o trabalho dele? Por aí vai…).

Uma puta duma experiência. Brigado pela viagem, LB. Desci do trem sorridente.

Grande abraço!

Santiago

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Ao ler a mensagem acima, foi difícil controlar a alegria.
A satisfação borbulhou, escorreu dos poros.
Santiago Santos foi uma das grandes surpresas de minha visita a Cuiabá, dois anos atrás.
O rapaz nem chegou aos trinta anos e é um dos mais talentosos escritores da geração que começou a publicar nesta década.
Seus estupendos minicontos podem ser conferidos aqui: Flash fiction.
Quando um leitor-escritor incomum diz que teu livro vale a pena, o mundo sempre volta a fazer sentido por mais um tempo.

“Distrito federal” no caderno PrOA, da Zero Hora

12/11/2014

Zero Hora

O jornalista Carlos André Moreira estampou um trecho do novo romance e uma gravura do Teo Adorno, na edição da Zero Hora de domingo passado.

Obrigado, meu caro!