Archive for the ‘Entrevista’ Category

Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica

10/02/2015

Anuário

A edição especial do Anuário do Marcello e do Cesar traz, entre outras preciosidades, um debate estimulante sobre a literatura fantástica (fantasia, horror e ficção científica) na Terra Brasilis, neste início de século 21.

Pra falar sobre desafios e perspectivas, no final de 2013 foram convidados escritores, editores e pesquisadores: Ana Cristina Rodrigues, Ademir Pascale, Adriano Piazzi, André Vianco, Braulio Tavares, Carlos Orsi, Claudio Brites, Georgette Silen, Giulia Moon, Luiz Bras, Mary Elisabeth Ginway, Simone Saueressig, Richard Diegues e Roberto de Sousa Causo.

Compartilho a seguir minhas respostas.

1. Em 2004 a publicação de FC&F estava quase paralisada e dez anos depois temos um mercado editorial vigoroso na quantidade de livros lançados. Como você analisa esta mudança radical?
Acredito que a literatura de gênero está se beneficiando do crescimento geral do mercado editorial brasileiro, que por sua vez está acompanhando o crescimento da população brasileira. Hoje o número de escritores, editoras, livros publicados, leitores, premiações e eventos literários é um pouco maior do que há dez anos e muito maior do que há vinte anos, antes da informatização e da web. As pesquisas feitas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pela Câmara Brasileira do Livro mostram, por exemplo, que hoje as editoras lançam no mercado vinte e um mil novos títulos por ano. Em 1994 eram catorze mil e em 1990 eram apenas nove mil. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, por sua vez, revela que em 2000 havia apenas vinte e seis milhões de leitores no Brasil. Em 2011 já eram setenta e dois milhões de leitores. É certo que a literatura de gênero produzida por brasileiros sempre teve um comportamento excêntrico no país e nunca respeitou tabelas e estatísticas, mas acredito que nos últimos anos ela conseguiu acertar o passo e acompanhar de perto o movimento maior do mercado editorial.

2. Muitos observadores avaliam que os anos 2000 marcam uma virada na FC&F brasileira, com o surgimento de uma Terceira Onda. Em sua opinião quais seriam as principais diferenças deste período com o anterior, dos anos 1980/1990?
Eu até gostaria de opinar sobre essa classificação, mas conheço muito mal a ficção científica brasileira dos anos 80 e 90. Nessa época eu acreditava estupidamente que a ficção científica era um gênero subliterário. Vejam só o que os cursos universitários faziam com as mentes mais despreparadas… Só fui acordar desse sonho demagógico depois do doutorado em Letras, no início do século 21. Então, tudo o que eu conheço dos anos 80 e 90 são os clássicos: Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett; Piritas siderais, de Guilherme Kujawski; A máquina de Hyerónimus, de André Carneiro; A espinha dorsal da memória & Mundo fantasmo, de Braulio Tavares; Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife, e mais meia dúzia de livros que não estou lembrando agora. Apesar disso, a simples possibilidade de pertencer a uma nova geração literária me agrada bastante. Terceira Onda? Beleza, aceito surfar nessa onda. Se um editor quiser lançar a primeira antologia da nova geração de ficcionistas, conte com minha colaboração.

3. Quais são os principais problemas enfrentados pela FC&F nos dias atuais e quais perspectivas você vê para solucioná-los nos próximos anos?A falta de leitores é o principal problema. Mas esse também é o principal problema da literatura brasileira de modo geral. A verdade é que o leitor brasileiro não prestigia o escritor brasileiro. Basta olhar as listas de livros mais vendidos. Raramente um romance, uma coletânea de contos ou de poemas de um autor brasileiro aparece nessas listas. No campo da ficção científica a crise é aguda. Editores e leitores quase sempre preferem apostar nos estrangeiros. Se na literatura mainstream o Brasil tem ao menos uns poucos nomes consagrados que não encalham nas livrarias (Dalton Trevisan, Luis Fernando Verissimo), na ficção científica está faltando até isso: uns poucos nomes consagrados, capazes de cativar um grupo fiel de leitores. A ficção científica no Brasil está precisando sofrer o que, na termodinâmica, os físicos chamam de transição de fase. Gostaria muito que aparecesse no cenário nacional da FC um escritor ou um editor, melhor ainda, um escritor e um editor iluminados que fizessem a diferença, que provocassem a tão aguardada mudança de fase. Isso desencadearia uma expansão da esfera: mais livros, mais leitores, mais resenhas, mais eventos, mais estudos acadêmicos. Teríamos até, quem sabe, o primeiro prêmio literário importante para as obras e os autores de ficção científica e fantasia. Um prêmio análogo ao Jabuti e ao Portugal-Telecom.

4. Como você avalia a sua atividade autoral/editorial ao longo dos últimos dez anos (2004 a 2013)? Pode adiantar alguma coisa sobre seus projetos pessoais?
Os últimos dez anos foram os melhores de minha vida literária. Voltei a ler regularmente livros de ficção científica. Descobri que existia uma formidável comunidade até então invisível pra mim, formada por escritores, tradutores, jornalistas, críticos e editores apaixonados pelo gênero. Conheci uma dúzia ou mais de ficcionistas brasileiros talentosos. Organizei as coletâneas Futuro presente e Cartas do fim do mundo, esta com Claudio Brites. Organizei também o Projeto Portal, de contos, e a antologia Hiperconexões: realidade expandida, de poemas. Publiquei meus melhores livros: Paraíso líquido, Máquina Macunaíma e Sozinho no deserto extremo. Para os próximos dez anos, planejo manter esse ritmo. Estou trabalhando em dois novos livros: uma coletânea de minicontos intitulada Pequena coleção de grandes horrores e um romance tupinipunk chamado Distrito federal. Também está programado para o final de 2014 o segundo volume da antologia Hiperconexões.

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“Hiperconexões” na revista Pausa

11/09/2014

Vitruviano

Esta semana conversei com a jornalista e pesquisadora Márcia Costa, sobre a antologia Hiperconexões.

Márcia é coeditora da revista Pausa e autora do excelente estudo De Pagu a Patrícia: o último ato (Dobra Editorial).

Para conferir a entrevista, basta clicar aqui.

Reunião insólita

13/06/2014

Celuslose 4

O poeta Victor Del Franco, idealizador e principal realizador da revista Celuzlose, propôs algo inusitado: reunir num caderno especial os quatro elementos (Luiz, Nelson, Teo e Valério).

Está sendo divertido assistir aos quatro mosqueteiros do apocalipse interagindo pela primeira vez, nas páginas iniciais do número 4 da edição impressa da revista. Luiz comparece com uma entrevista e dois minicontos (Rodamoinho, talvez e Cabeças trocadas); Nelson, com o conto Lua, 1969; Teo, com sete vinhetas em preto e branco, e Valério com os poemas Cidadão exemplar, Pugilismo e Ride, ridentes.

Detalhes sobre este e outros números da Celuzlose, e sobre como adquirir a revista, você encontra aqui.

A seguir, a entrevista concedida ao incansável poeta-editor:

Antes da publicação do livro Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012), primeiro romance assinado por Luiz Bras, você já escrevia alguns artigos e reflexões com essa assinatura na coluna “Ruído Branco” do jornal Rascunho. Quando começaram a surgir as primeiras manifestações do Luiz Bras?
Começou com os livros escritos para crianças e jovens, a partir de 2003. Depois vieram os contos de ficção científica, a partir de 2006. Mas a questão da identidade subjetiva sempre me fascinou. Desde a adolescência, quando comecei a ler os filósofos e os psicanalistas, nunca mais deixei de refletir sobre os limites físicos e mentais que definem um indivíduo. Hoje eu tenho certeza de que esses limites são bastante maleáveis. O sujeito precisa de um RG e um CPF, do contrário a sociedade seria mais caótica do que já é. Mas no campo da criação artística e literária, ninguém é obrigado a ser o mesmo a vida inteira. Então, em meados de 2011, quando Nelson de Oliveira sentiu que estava na hora de se aposentar, de se isolar numa praia do Caribe, eu já desconfiava que Luiz Bras assumiria naturalmente o posto vago.

Luiz Bras está para Nelson de Oliveira assim como Álvaro de Campos está para Fernando Pessoa? Ou são duas situações distintas e, no seu caso, o termo heterônimo não faz sentido?
Creio que no meu caso a palavra heterônimo é muito forte, pois entre mim e o antigo escritor ainda há muitos pontos de contato. Eu prefiro a expressão alter ego. Ou simplesmente persona.

Seguindo nesta questão da persona, o Valério Oliveira é um desdobramento poético que surgiu a partir das manifestações do Luiz Bras ou ele nasceu antes? Qual é a trajetória do poeta?
Valério Oliveira nasceu uns quinze anos antes, na época em que eu descobri a poesia. Meus primeiros poemas surgiram no finalzinho dos anos 80, sob a influência fortíssima dos concretistas, principalmente de Décio Pignatari e Paulo Leminski, que flertava com o movimento. Bem antes da difusão do computador pessoal e da popularização da web… Eu trabalhava numa prancheta, finalizando os poemas com letraset. Também curtia muito a técnica da colagem: gostava de recortar imagens, palavras e frases de jornais e revistas, e montar textos experimentais com os recortes. Mas essa fase visual passou. Desconfio que as facilidades do Photoshop me desestimularam. Então, nos anos 90 veio a prosa, que me absorveu completamente. Valério Oliveira voltou à ativa somente no início deste século. Voltou menos experimental, mais narrativo. Mais bem-humorado.

Você diz que ainda há muitos pontos de contato entre Luiz Bras e Nelson de Oliveira. Certamente, um desses pontos de contato é a iniciativa para organizar antologias. Cito apenas algumas: Geração 90: manuscritos de computador (2001), Futuro presente (2009) e a mais recente, Hiperconexões: realidade expandida (2013). As antologias representam a sua tentativa de encontrar uma possível ordem no caos? Uma tentativa de sinalizar caminhos?
Encaro as antologias mais como uma ótima oportunidade de juntar escritores e celebrar a literatura. As revistas literárias também têm essa função social: reunir as diferenças, louvar publicamente o delírio em prosa e verso. Gosto da confraternização, da mistura de vozes. O desejo de sinalizar caminhos sempre está presente, é claro. Mas vivemos numa época muito peculiar, em que todos os caminhos estéticos já foram sinalizados. Da extrema concisão à verborragia máxima, hoje o cardápio poético oferece um pouco de tudo: versos metrificados e rimados, polimétricos, brancos, poesia marginal, épica, barroca, visual, satírica, parnasiana etc. Na prosa a situação é análoga. A liberdade criativa está em toda parte, na micro e na macroficção.

Nelson de Oliveira lançou o livro Às moscas, armas! (2000) apenas no formato digital. Como foi a recepção desse livro? E como você, Luiz Bras, avalia a questão dos livros digitais e impressos?
Lançar Às moscas, armas! apenas no formato digital foi mais uma de minhas experiências editoriais. A web ainda era novidade, ao menos pra mim. Então, ainda era fascinante ver um texto ser publicado, digamos, às 18h e, minutos depois, os primeiros comentários começarem a chegar. Comentários dos amigos de Salvador e Fortaleza. De Portugal. Dos Estados Unidos. Foi o que aconteceu com a coletânea de contos: recepção instantânea. Outra experiência interessante, nessa época, foi a novela Babel Babilônia, publicada primeiro na web. Os parágrafos da novela traziam links, que permitiam ao leitor saltar de um ponto a outro da trama. A Babel Babilônia on-line era uma obra aberta, à maneira de O jogo da amarelinha, de Cortázar. Sobre a questão do livro digital versus livro impresso, acredito que em cem anos, com o aperfeiçoamento do papel eletrônico, o livro impresso será assunto apenas de colecionadores.

No artigo “Duas elites”, que foi publicado no livro Muitas peles (Terracota, 2011), você traça um esboço do conflito entre alta literatura e literatura de gênero. Esse conflito é travado por integrantes da crítica acadêmica e autores da literatura de gênero. Podemos considerar que o Nelson de Oliveira está mais próximo da crítica acadêmica – ele já publicou um livro no qual analisa o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea, Axis mundi (Ateliê Editorial, 2009) –; por outro lado, Luiz Bras está mais próximo da literatura de gênero. Quando você está escrevendo (seja um conto, um romance ou um artigo para jornal) você enfrenta esse conflito com frequência ou ele já foi superado?
Exatamente. Essa é a diferença mais significativa entre os dois autores. Existe um fosso profundo, ao menos no Brasil, entre a alta literatura, chamada também de intelectual, e a literatura de gênero, chamada pejorativamente de comercial. Esse fosso foi aberto décadas atrás, pelos teóricos da indústria cultural capitaneados por Adorno, e nunca mais foi fechado. Essa separação precisa ser superada urgentemente, para o benefício de ambas as partes. No conflito entre as duas elites eu vejo a mesma separação que há, por exemplo, entre os destilados e os fermentados. Há pessoas que gostam de uísque e não suportam vinho, há pessoas que gostam de vinho e não suportam uísque, mas felizmente há também as que gostam de ambos, sem preconceito. Em minha opinião, os leitores e os escritores da alta literatura e os da literatura de gênero podem ensinar muito uns aos outros.

Cara ou coroa? Cada livro publicado é, antes de tudo, uma atitude política?
É no que eu acredito, meu caro. Defendido no artigo “Crítica é cara ou coroa”, do Muitas peles, esse conceito bastante radical é fascinante. “Livros são propostas de civilização. Cada livro publicado é, antes de tudo, uma atitude política. Por isso boa parte da crítica literária parece tão desnorteada, tão inconsistente. Estou falando da crítica que acredita que um livro possa ser intrinsecamente bom ou ruim. Essa visão restritiva não condiz com os fatos.”

Você tem uma atenção especial pelos quadrinhos, que, inclusive, servem de referência para a sua literatura. Você já pensou em se tornar um autor de graphic novels?
Neste exato momento estou trabalhando numa HQ intitulada Teoria do caos. É um projeto pessoal. Experimental. Trabalho apenas com um esboço de roteiro, com umas anotações bastante subjetivas. Vou desenhando sem muito compromisso, um pouco por dia. Não existe terapia melhor. Sou um colecionador de espantos. Primeiro foram os quadrinhos europeus, os álbuns de Moebius e Jodorowsky, a revista Métal Hurlant. Depois foram os álbuns de Frank Miller. Em seguida os mangás e os animês de Hayao Miyazaki e Katsuhiro Otomo. Tudo isso alimentou demais minha fantasia literária. Os quadrinhos e também o cinema. A música, as artes plásticas. Impossível não dividir meu tempo entre essas diferentes possibilidades de epifania. Minha literatura sempre foi muito receptiva. Pra mim não existem fronteiras intransponíveis, não entre as artes. Quando estou escrevendo gosto de dialogar com um filme ou uma canção, gosto de parodiar ou citar uma cena de mangá ou animê, uma pintura ou um cartum.

Já é possível adiantar algum ingrediente dessa HQ na qual você está trabalhando? É uma história que retrata o mundo em que vivemos ou as situações acontecem em um ambiente futurista, pós-humano?
Teoria do caos se passa num futuro próximo, num Brasil nem utópico nem distópico, mas bastante caótico. É uma narrativa polifônica, protagonizada por indigentes, militantes, militares, homens-mulheres, mulheres-homens, terroristas, políticos, ciborgues, xamãs, inteligências artificiais e criaturas do folclore brasileiro. O centro da trama é a revolução pós-humana. Graças à biotecnologia e a tecnociência, o humano está em metamorfose, mas isso não é garantia de que em breve super-homens caminharão sobre a Terra. Também não significa que nossa espécie desaparecerá numa nuvem radioativa. Não acredito que seremos exterminados pela nossa própria tecnologia. Nem utopia nem distopia, o que virá com a revolução pós-humana será mais um pouco do que sempre esteve aí: o velho caos cotidiano.

Por falar em pós-humano, em um dos minicapítulos de seu texto de abertura da antologia Hiperconexões: realidade expandida, você diz o seguinte: “A terceira revolução tecnológica, batizada de revolução pós-humana, promete um salto evolutivo tão radical e inquietante quanto o provocado pelas duas revoluções anteriores.” (A saber: 1. Invenção da linguagem / 2. Invenção da escrita). Nessa terceira revolução, podemos incluir as seguintes áreas do conhecimento: nanotecnologia, neurociência, engenharia genética, física quântica e tecnologias da informação. Como a literatura brasileira tem abordado esse tema?
Eu disse há pouco que “vivemos numa época muito peculiar, em que todos os caminhos estéticos já foram sinalizados”. Preciso retificar essa afirmação. Há pelo menos um caminho que a poesia vem ignorando olimpicamente: o pós-humano. Em centros de pesquisa do mundo todo, cientistas e engenheiros estão testando em laboratório maneiras de prolongar a vida humana saudável. Fazem parte dessas pesquisas a engenharia genética, a nanotecnologia e o desenvolvimento de próteses eletrônicas capazes de ampliar nossos cinco sentidos e nossa inteligência. No ritmo em que as coisas estão caminhando, ainda neste século veremos algo inédito na história da humanidade. Veremos a convergência geral de organismos e tecnologias, a ponto de se tornarem indistinguíveis. Esse avanço na ciência e na medicina tem gerado debates acalorados entre filósofos, sociólogos, antropólogos e cientistas. O pós-humano é um tema bastante comum na ficção científica em prosa. Autores clássicos da FC, como Isaac Asimov e Robert Heinlein já tratavam desse tema na década de 50, em seus contos e romances. Nos anos 80, vieram os ficcionistas do movimento cyberpunk e, nos anos 90, os ficcionistas do movimento new weird, que também se esbaldaram no pós-humano. Mas, na poesia – principalmente na poesia brazuca –, o tema quase não aparece. Suspeito que Hiperconexões: realidade expandida é a primeira antologia consistente de poemas sobre o pós-humano da literatura brasileira. Talvez da literatura mundial. Mas preciso fazer uma ressalva importante: os poemas do livro falam do pós-humano, mas não são poesia pós-humana. Há uma grande diferença entre as duas coisas. Em termos formais, a antologia oferece um pouco da boa e tradicional poesia feita de versos, de linhas de texto dispostas na página branca. A novidade está no tema, porque raros são os poemas escritos no Brasil que tratam do pós-humano. Sinceramente, ainda tenho dificuldade de imaginar como será a poesia pós-humana, daqui a cem ou duzentos anos. Por ora, tudo o que consigo conceber é a poesia sobre o pós-humano, e olhe lá.

Você citou Isaac Asimov e, recentemente (janeiro de 2014), o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo publicou uma matéria falando sobre as previsões feitas por Asimov em 1964, que estariam concretizadas em 2014. Algumas previsões estavam corretas e outras ficaram bem longe da realidade atual. Pois bem, faço o convite para um exercício de imaginação: cite cinco previsões que, segundo o seu ponto de vista, se tornarão realidade em 2064.
Gostei do convite. Vou me basear, obviamente, nos projetos que os grandes centros de pesquisa estão desenvolvendo neste exato momento. Em 2064 a informática já terá dominado quase todo o planeta. Nessa época teremos finalmente o computador quântico. Haverá residências e escritórios administrados por inteligências artificiais. A realidade virtual, em games e simuladores, será indistinguível da realidade real. O automóvel sem motorista, dirigido por GPS, já estará rodando há duas décadas. As grandes cidades do mundo estarão repletas de robôs de todos os formatos e tamanhos. Próteses neurais permitirão a transmissão de pensamento. Nos hospitais do primeiro mundo, complicadíssimas cirurgias microscópicas serão realizadas por robôs. As primeiras crianças geneticamente aperfeiçoadas, mais saudáveis e resistentes ao envelhecimento, nascerão nessa época. Sortudos endinheirados estarão fazendo turismo espacial, por agências privadas. A primeira colônia humana em Marte já estará terraformando uma pequena região do planeta vermelho. Já foram cinco palpites? Acho que me empolguei, rs.

Entrevista (completa) a Hugo Viana, da Folha de Pernambuco

26/05/2014

Programa Capa (6c)

Gostaria primeiro de saber como localiza o gênero horror na tradição literária nacional.
O horror é um conceito bastante amplo. Seus tentáculos invadem vários nichos da literatura brasileira. Escritores de nosso mainstream (Monteiro Lobato, Lygia Fagundes Telles etc.) já produziram boa ficção de suspense e horror. E há também os ficcionistas que se dedicam exclusivamente a esse gênero: Eric Novello e André Vianco, entre outros. Meu estilo é um pouco diferente do estilo desses escritores. Em meus minicontos, eu não quero aterrorizar meus leitores com o sobrenatural. Quero aterrorizá-los com a ciência e a tecnologia do futuro.

Acredita que a relativa ausência de livros do gênero indica uma posição do mercado editorial? Do interesse dos escritores? Ou ainda uma mistura dos dois lados?
A literatura de gênero (ficção científica, fantasia e horror) não goza de muita popularidade entre os intelectuais brasileiros. Ela é considerada uma subliteratura. Mas um grande exército de leitores invisíveis prestigia bastante os romances de Stephen King, Clive Barker… Eu gosto de afirmar que existem duas elites no competitivo campo literário: a elite da alta literatura e a elite da literatura de gênero. As duas não conversam, vivem em constante embate.

Ainda sobre o pequeno espaço reservado para as narrativas de horror: como percebe a participação da crítica e da academia na pesquisa e legitimação do gênero? Acredita que há alguma medida de preconceito?
Opa, acho que acabei respondendo essa questão nas anteriores.

Você fala que o livro é composto por minicontos. Em que sentido essa modalidade textual difere de contos e outras narrativas curtas tradicionais? O que caracteriza o miniconto e quais os desafios de um autor ao tentar envolver o leitor em poucos parágrafos?
O miniconto e o microconto são formas brevíssimas que muitos escritores brasileiros adoram exercitar. A diferença entre os dois está na extensão. O miniconto é feito de poucos parágrafos, enquanto o microconto é feito de poucas palavras, às vezes de poucas letras (para ser publicado no twitter, por exemplo). Contar uma história de maneira supereconômica é um desafio semelhante ao do soneto ou do haikai. Numa cultura que prestigia mais o romance do que os outros gêneros, ser minicontista é estar à margem da margem.

Especificamente sobre o livro. O tema dos contos varia entre aspectos do cotidiano: política, religião, sociedade. Como percebe o diálogo entre o horror e as instâncias recorrentes do cotidiano? O que é gerado a partir desse encontro?
O eixo que une todos os contos é o do horror absoluto. São histórias que sempre terminam muito mal. Foi a maneira que encontrei de me vingar dos políticos corruptos, das injustiças sociais, da burocracia assassina, enfim, da gloriosa estupidez humana.

Não apenas o horror, mas os textos tendem também para a ficção científica, para a ironia. Vistos em retrospectiva, acha que são gêneros particularmente bons para explorar medos, receios históricos de diferentes sociedades?
A ficção científica me interessa muito, principalmente a FC brasileira. Hoje, nos importantes centros de pesquisa, os cientistas estão modificando o corpo humano. É a biotecnologia, a engenharia genética, a revolução pós-humana. O que antes somente a religião se atrevia a prometer (a vida eterna da consciência saudável e produtiva), agora é a ciência que está ambicionando realizar. Para alcançar esse objetivo, o ser humano está disposto a modificar seu código genético e, se for necessário, unir-se fisicamente às máquinas. Tudo isso forma a matéria-prima com a qual eu gosto de trabalhar.

Gostaria de saber ainda sobre seu peculiar interesse nos temores do corpo; as experiências do sangue; as mutações dos organismos – aspectos que parecem integrar os melhores microcontos do livro.
A revolução pós-humana tem gerado debates intensos entre cientistas, sociólogos, juristas etc. Os escritores não podem ficar de fora. As drogas da inteligência prometem ampliar nossa capacidade intelectual. A engenharia genética promete gerar pessoas mais saudáveis, que viverão duzentos anos. A conexão cérebro-computador nos permitirá transmitir pensamentos e comandar robôs a distância. O futuro será perigoso e inquietante, e já estamos entrando nele.

“Pequena coleção de grandes horrores” no Estado de Minas

30/04/2014

Estado de Minas

Tendências da atual literatura brasileira

11/03/2014

Oficinas de criação literária, autoficção, mercado editorial, feiras, prêmios… Tempos atrás o caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, ouviu alguns críticos e acadêmicos a fim de verificar certas tendências da atual literatura brasileira. Os especialistas responderam a um questionário acerca das orientações, dos novos rumos, das qualidades e deficiências de nossa ficção contemporânea.

Respostas de Luiz Bras

1) É possível apontar algumas tendências na produção literária contemporânea?
Certamente. Mas antes preciso dizer que minha opinião foi influenciada em parte pela leitura de Contingência, ironia e solidariedade, de Richard Rorty, quando este fala de hermetismo e engajamento. Partindo da premissa de que existem dois tipos de linguagem literária (linguagem transparente e linguagem complexa) e dois tipos de conteúdo literário (conteúdo subjetivo e conteúdo político), a simples combinação dessas possibilidades opostas oferece quatro tipos de obra literária: livros de linguagem transparente e conteúdo subjetivo, livros de linguagem transparente e conteúdo político, livros de linguagem complexa e conteúdo subjetivo e livros de linguagem complexa e conteúdo político. É claro que o número de combinações é infinito, mas por ora vamos considerar apenas quatro. Também é evidente que essa classificação não implica qualquer diferença de valor. Explicitando: livros de conteúdo subjetivo são os que mergulham fundo na mente do sujeito, enquanto livros de conteúdo político são os que tratam das questões sociais. Respondendo a pergunta: hoje na literatura a tendência mais forte, quase dominante, é a dos livros (em prosa ou verso) de linguagem transparente e conteúdo subjetivo. Logo atrás vêm os livros (em prosa ou verso) de linguagem transparente e conteúdo político. A lista de vencedores dos principais prêmios literários dos últimos cinco anos é um retrato dessa tendência.

2) Quais seriam suas principais qualidades e deficiências?
Principal vantagem: fortalecimento e ampliação do público leitor. Principal desvantagem: não há, se você considerar que se trata de uma tendência que vai passar, igual a todas as outras. Hoje a realidade subjetiva, reconstruída com linguagem denotativa, é a matéria-prima predileta dos escritores. A realidade social também interessa, é claro – em menor grau, mas interessa. Então, o gênero literário do momento é a crônica (afinal, sua matéria-prima sempre foi a experiência cotidiana do autor), que pode se desdobrar em conto-crônica, em poema-crônica e até em romance-crônica. Há também os contos e romances autoficcionais, centrados na verdade biográfica do ficcionista. Esse apreço às vezes ingênuo pela realidade e pela verdade está salvando da falência a literatura brasileira.

3) Poderia explicar melhor por que diz isso?  Por que está salvando?
É ingênua a velha ilusão de que qualquer mensagem feita de períodos e parágrafos possa oferecer ao leitor uma representação verdadeira da realidade. A única realidade verdadeira que um poema, um conto ou um romance podem oferecer é a sua própria, literária. Esgotada a hegemonia modernista, nossa produção literária, tão povoada de Joyces e Maiakovskis, corria o risco de também definhar. Mas foi salva pela literatura de linguagem transparente e conteúdo subjetivo de qualidade, que, sem seu predador natural (o modernismo hermético), está proliferando bem. Na ficção, os jogos metalinguísticos, anti-ilusionistas, recuaram em favor da representação realista, ilusionista. E, na poesia, o estruturalismo antipático da poesia concreta perdeu todo o prestígio para a irreverência simpática da poesia marginal. Implícitas nos dois gêneros, ficção e poesia, eu noto hoje as regras da crônica literária. Olhar através da janela, não A janela, voltou a preponderar.

4) Você fala da poesia marginal. Creio que está pensando nos anos 1970, 1980, não? Sobre a poesia de hoje, você teria algo a dizer, no contexto da pergunta, ou seja, se a poesia de hoje está salvando a literatura da falência?
A poesia que mais está empolgando o leitor brasileiro hoje não é filha do surrealismo ou do concretismo. Não é uma poesia neobarroca, acadêmica ou cerebral, interessada em refletir sobre as muitas camadas do que chamados de verdade e realidade. É, ao contrário, uma poesia menos pretensiosa, sem firulas, coloquial e bem-humorada. Ela é filha da poesia marginal dos anos 70 e 80. Então, quando digo que sua articulação é a mesma da crônica literária, quero dizer que ambas trabalham com o aqui-agora da primeira pessoa do singular interessada quase exclusivamente num tipo muito simples, beirando o simplista, de verdade e realidade. Atraída pela dinâmica palpável e consensual da existência cotidiana. O que interessa a poetas e leitores é “a vida ao rés do chão”, para usar a feliz expressão de Antonio Candido. E, para abraçar essa versão menos complexa da vida real e verdadeira – versão que pode ser fotografada, filmada, noticiada nos jornais e comentada nas redes sociais –, o eu lírico não exercita a pompa e a grandiloquência, mas a conversa descontraída, sem bibliografia ou notas de rodapé. Essa poesia está ajudando a salvar da falência a literatura brasileira porque é a única que não está sendo lida apenas por poetas ou pesquisadores acadêmicos. Ela está sendo lida principalmente por gente que não está interessada em discutir, em primeiro lugar, a crise da epistemologia nem a verdadeira natureza da realidade.

5) A Feira do Livro de Frankfurt e os programas da política do livro mantidos pelo governo (bolsas de tradução, bolsas de criação, organização de festivais) trouxeram resultados significativos para a produção artística?
O Brasil não se tornou da noite para o dia um grande exportador de bons livros, filmes, peças etc. Não conseguiu espantar os velhos clichês (favela, futebol, carnaval, sertão, cultura indígena). Mas não resta dúvida de que, graças à participação da Feira do Livro de Frankfurt e dos novos programas do governo, o cenário hoje está um pouco melhor do que estava dois anos atrás.

6) A perspectiva de aceitação no mercado exterior norteia de alguma forma o tipo de literatura que se está produzindo? O jovem autor escreve pensando no exterior?
Difícil dizer no que o jovem autor está pensando. Eu acredito que, novato ou veterano, todo escritor ambiciona alcançar um vasto público, principalmente quando seu autor predileto é uma celebridade, no mínimo, ocidental. Um José Saramago, talvez. Uma Alice Munro ou uma Wislawa Szymborska. É verdade que editores e agentes literários, de olho no mercado internacional, estão pedindo ao autor brasileiro livros menos herméticos, menos transgressores. Na briga por novos mercados, essa é uma estratégia comercial válida. José Paulo Paes brincava que no Brasil todo escritor quer ser James Joyce ou Stéphane Mallarmé, ninguém se contenta em ser Alexandre Dumas ou Pablo Neruda. Parece que a posição da gangorra finalmente está mudando, ao menos na ficção. Joyce e Proust estão descendo, Dickens e Hemingway estão subindo.

7) Existe uma globalização dos temas?
Certos temas são universais e podem ser indicados com um único substantivo: guerra, morte, amor, redenção, pobreza, vingança etc. Formam um núcleo duro no qual o autor vai colando adjetivos: um idioma, uma nacionalidade, uma época, uma biografia. Mesmo particularizado o tema, seu núcleo universal continua lá. Essa é a única globalização legítima da literatura. Mas se os escritores brasileiros estão fazendo uso de uma estratégica cartilha globalizada, para finalmente entrar no mercado internacional, tudo bem. Não vejo nisso qualquer impedimento moral.

8) A literatura contemporânea inova em algum sentido? Ela renova formas, gêneros? Como?
O fim das vanguardas artísticas foi o fim das utopias políticas, e vice-versa. Hoje não dá mais para inovar em nada. Os grandes monumentos construídos pelas gerações passadas esgotaram as possibilidades. Tudo o que fazemos é restaurar uma coluna ou um afresco danificados pelo tempo. Mas é bom lembrar que o restaurador também é um profissional importante. Muitas vezes é graças à restauração que tomamos consciência de um belo detalhe que já estava desaparecendo.

9) Existe ainda no Brasil literatura regional? A origem geográfica é determinante na literatura que se produz?
O que vou dizer não tem nada a ver com a literatura regionalista, o romance de 30, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz. Tem a ver com o regional, apenas. Na hora da escritura, a origem ou a posição geográfica não são determinantes. São uma escolha afetiva. Posso morar numa cidadezinha do Ceará e escrever muitos romances ambientados em Marte, talvez por amar mais o planeta vizinho do que meu território natal. Mas há autores de província que gostam de escrever sobre a província, e isso é maravilhoso. Isso enriquece o cardápio. O momento, porém, é mesmo da literatura urbana e cosmopolita. O detalhe irônico é que num país tão vasto, feito o Brasil, toda metrópole é um pouco regional. Mas somente na escritura, não nas etapas seguintes da cadeia produtiva do livro. A origem ou a posição geográfica não são determinantes na hora da escritura, mas são determinantes na produção editorial, divulgação e circulação de literatura. Se você, escritor, estiver muito distante de um grande centro de cultura literária, a probabilidade de publicar por uma grande editora será muito pequena. Consequentemente, a possibilidade de ser lido e resenhado também será muito pequena.

10) A literatura produzida atualmente no país é política? Ser política é uma característica relevante?
Luigi Pareyson, em Os problemas da estética, avisa que a expressão literatura política pode apresentar mais de um significado. Mas ela em geral designa a literatura explicitamente engajada contra ou a favor de um governo, de uma classe social, enfim, de uma doutrina política específica: a Ditadura Militar, o governo Lula-Dilma etc. Logo, apenas uma pequena parte da ficção e da poesia produzidas hoje no país é de conteúdo político. A tendência mais forte, quase dominante, é mesmo a dos livros de conteúdo subjetivo. São obras em prosa ou verso preocupadas mais com as revoluções no microcosmo psíquico do que com as reviravoltas no macrocosmo social. Mas existe também a literatura política engajada contra ou a favor de uma ideia geral: a opressão humana e o desejo de liberdade, as distopias e utopias de modo mais amplo e atemporal. Este tipo de literatura de conteúdo político é o meu predileto, mas também anda em falta.

11) A que você atribui a tendência dominante da linguagem transparente e do conteúdo subjetivo?
Atribuo essa tendência à necessidade que um grande número de pessoas tem da chamada (equivocadamente) experiência verdadeira, real. Em literatura, a linguagem transparente favorece o ilusionismo que mascara a natureza fictícia da construção ficcional ou poética. Graças à linguagem transparente, denotativa, o leitor se esquece momentaneamente de que está lendo um texto. Já o conteúdo subjetivo, de natureza confessional, às vezes autobiográfico, é a garantia, para esse leitor, de que sua consciência está mergulhada numa história verdadeira, na vida real de uma pessoa de carne e osso. Em um romance narrado em primeira pessoa, por exemplo, o leitor está tão convencido de que invadiu a mente do protagonista, que se esquece de que está lendo um livro. E o protagonista, nesse jogo de ilusão, é sempre confundido com o próprio escritor.

12) É uma imposição do mercado (interno e externo) que os autores acabam incorporando?
O mercado de literatura sempre apreciou mais os livros legíveis aos ilegíveis. Estou usando os adjetivos prediletos de editores e agentes literários. Ao se referirem às obras experimentais e herméticas, filhas do alto modernismo, esses atores do campo literário reclamam, com razão, de que são obras praticamente invendáveis. Até o final do século passado, ser um autor experimental no Brasil ainda era o caminho mais curto para a consagração literária. Com o fim da utopia modernista, a tendência natural do mercado de privilegiar os livros legíveis já não encontra mais obstáculos. A disputa pelos prêmios e pelo afeto dos leitores agora acontece apenas entre as obras legíveis, não mais entre as obras legíveis e ilegíveis.

13) A chamada autoficção, voltada para o próprio eu, para a própria experiência, parece ser um dos mais fortes motes da produção literária dos últimos anos. Alguns estudos apontam uma exacerbação da subjetividade, que seria vista como um valor de autenticidade. Como avalia essa questão? Quais são as implicações disso na literatura brasileira?
Brito Broca, escrevendo sobre a vida literária no Brasil no início do século 20, observa que, para boa parte dos leitores da época, a vida dos autores era muito mais interessante do que as obras. Os leitores não queriam mais saber de folhetins. Queriam agora entrevistas com os autores e reportagens sobre eles. Um século depois, a cultura da celebridade dominou cada interstício da vida literária. A afirmação de que “a vida literária superou a literatura”, feita por Brito Broca, vale mais para este início de século 21 do que para o início do século 20. As bienais, festas e feiras foram criadas para acarear escritores e público. Então, se os leitores estão mais interessados na vida dos autores do que nas obras, nada mais natural que a vida dos autores participe das obras. Jamais escrevi uma única linha autobiográfica. A autoficção não é a minha praia e nunca será. Mas gosto dessa mistura de invenção e história pessoal. É o escritor ludibriando seu leitor ávido por fofoca.

14) A literatura, se voltada para o eu, para a própria experiência, pode ser política?
Apenas se você partir da premissa da Escola de Frankfurt, bastante radical, mas fascinante, de que o ser humano é um animal político e tudo o que ele faz é de natureza política. Nesse caso, até mesmo um romance hiperintrospectivo (penso nos livros de linguagem complexa e conteúdo subjetivo), que explore os abismos da mente, será um ato político contra, digamos, a banalidade da cultura do entretenimento. Essa ideia, quando levada para o campo da crítica literária, fica mais fascinante ainda. Tempos atrás eu a defendi no artigo Crítica é cara ou coroa: “Livros são propostas de civilização. Cada livro publicado é, antes de tudo, uma atitude política. Por isso boa parte da crítica literária parece tão desnorteada, tão inconsistente. Estou falando da crítica que acredita que um livro possa ser intrinsecamente bom ou ruim. Essa visão restritiva não condiz com os fatos.” (Muitas peles, Terracota Editora, 2011)

15) Como as formas de interação via redes sociais se manifesta na literatura que se produz hoje?
As redes sociais são ótimas ferramentas de divulgação de livros e ideias. Também servem para aproximar o escritor e o leitor. Mas ainda não invadiram as páginas dos principais gêneros da criação literária. No plano da criação, a presença das redes sociais continua muito tímida, restrita à crônica. A ciência e a tecnologia contemporâneas ainda não invadiram a ficção e a poesia produzidas hoje. Itens usados cotidianamente pelos escritores (celular, tablet, web, mp3 player, videogame, cartão eletrônico, câmera etc.) às vezes aparecem em crônicas, mas não em contos, romances e poemas.

16) Existe uma desagregação do romance como forma convencional – pela fragmentação, pela intervenção gráfica?
Não. A linguagem transparente é muito mais exercitada hoje do que a linguagem complexa. Os procedimentos modernistas mais radicais (fluxo de consciência, criação de palavras-montagens, uso de diferentes tipologias, inserção de desenhos e recortes de jornal) praticamente desapareceram do romance contemporâneo. Os procedimentos menos radicais (discurso indireto-livre, repetição minimalista, mistura de gêneros literários, fragmentação discursiva), esses procedimento ainda são usados, mas de maneira mais branda. São coadjuvantes, não protagonistas. É perceptível hoje, entre os romancistas mais bem-sucedidos, a quase unânime preferência pela trama linear e pelo narrador onisciente (em terceira pessoa) ou confiável (em primeira pessoal), expedientes fundamentais num romance realista clássico. Mas isso não é necessariamente mau. A passagem do século 19 para o século 20 assistiu ao que, na termodinâmica, os físicos chamam de transição de fase. Romantismo, naturalismo, simbolismo e parnasianismo foram deixados para trás. Talvez estejamos assistindo agora à outra transição de fase, em que o modernismo será deixado para trás, substituído por sabe-se lá o quê.

17) Antologias, coletâneas temáticas, seletas de escritores e outras iniciativas que partem do mercado editorial são frutíferas? Beneficiam a produção?
São bastante frutíferas. Aliás, quanto mais, melhor. Não vejo qualquer problema nas iniciativas às vezes oportunistas do mercado editorial. O grande adversário da boa literatura não é o mercado editorial, é a televisão, a música pop, o cinema, a web. O tempo que eu reservo à leitura está cada vez mais curto. É que as séries britânicas e norte-americanas, os animês japoneses e os massive multiplayer games proporcionam atualmente experiências tão inquietantes quanto um bom livro.

18) As oficinas de criação literária, que se multiplicaram nos últimos anos, moldam a literatura que se produz hoje?
As oficinas de criação literária não têm tanto poder assim, de moldar a literatura que se produz hoje. Elas são uma espécie de confraria, onde a ficção e a poesia são apreciadas e celebradas. Engana-se quem acredita que uma oficina de criação literária tem a obrigação de treinar e lançar os novos gênios da ficção e da poesia. Talento não se ensina. Não é possível ensinar alguém a escrever bem. Em minha opinião o talento é inato. Ou o diletante já nasce com ele ou jamais conseguirá ultrapassar a condição de aprendiz. Mas é possível ensinar alguém a não escrever mal. Por meio de toques, apontamentos, discussões. Por meio da troca de impressões e das mais variadas dicas literárias, musicais, teatrais, cinematográficas. As oficinas de criação literária são antes de tudo uma escola de leitura. Sua obrigação é formar leitores melhores. Quem não quiser escrever mal, quem quiser ajudar outros escritores a não escrever mal, deve primeiro evitar a leitura descompromissada. Deve obrigar a intuição a casar com a razão. Deve saber ler e se expressar com critério: como crítico, não como parente, namorado ou amigo de infância. Deve escrever apaixonadamente, ler apaixonadamente, discutir apaixonadamente. Mas sempre de maneira compromissada. Ao ler o trabalho dos colegas, deve apontar os vícios, os exageros, os lugares comuns. Deve tentar espantar o mau gosto, o kitsch. Deve sugerir alternativas, indicar caminhos, recomendar leituras.

19) Que espaço tem a poesia hoje, na produção e no mercado? Pode ganhar mais espaço após o sucesso surpreendente da edição da poesia completa de Paulo Leminski no ano passado?
A poesia é a menos vendável das artes e, talvez por isso mesmo, a que desfruta de maior prestígio. É mais fácil vender três mil exemplares de um romance ou de uma coletânea de crônicas ou contos do que de uma coletânea de poemas. Essa é a razão de nossa grande felicidade, sempre que um livro de poemas aparece nas listas de mais vendidos. Mas o sucesso da edição da poesia completa de Leminski é o típico ponto fora da curva, raríssimo. Os bons poetas que além disso vendem bem serão sempre exceção, jamais regra.

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Clique no link abaixo e confira as respostas dos outros entrevistados.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/02/1416062-leia-enquete-sobre-a-literatura-brasileira-contemporanea.shtml

Pesquisa de Marco Rodrigo Almeida
Redator do caderno Ilustríssima

Conversa com Tatiana Belinky, a bruxinha-fada do Pacaembu

12/08/2013

Tatiana

Dizer que Tatiana Belinky é uma das mais importantes escritoras infantojuvenis brasileiras, com mais de duzentos e cinqüenta livros publicados, é chover no molhado.

Dizer que essa jovem bruxinha nascida na Rússia em 1919 chegou ao Brasil com dez anos de idade, recebeu a cidadania brasileira e está radicada em São Paulo há mais de oitenta anos também é gastar palavras demais com o menos importante.

Porque Tatiana já conquistou o direito de dispensar apresentações desse tipo, objetivas e protocolares, cheias de datas e locais. Ela merece algo muito mais criativo: uma biografia imaginária, que comunique a real dimensão de sua existência rica em fantasia, humor e invenção.

É claro que Tatiana fez história na literatura, no teatro e na televisão, adaptando e traduzindo os clássicos, escrevendo poemas e contos, peças, telepeças e seriados para crianças e jovens. Quem não sabe que a primeira adaptação da obra infantojuvenil de Monteiro Lobato para a televisão foi feita por ela e Júlio Gouveia, seu marido, na antiga TV Tupi, definitivamente não é deste planeta.

É claro que Tatiana foi uma força intelectual importantíssima na renovação da literatura infantojuvenil brasileira, nas décadas de 70 e 80. Suas crônicas e resenhas críticas puseram óculos em muita gente míope que se recusava a enxergar o altíssimo valor dos livros para crianças e jovens.

Mas essa é a Tatiana das enciclopédias e dos dicionários críticos de literatura. É a Tatiana, vamos dizer, oficial. É a escritora em estado sólido, ou seja, em estado de Monumento da Independência das Letras Infantojuvenis Nacionais. Que tal, hoje, apenas pra variar, a gente conviver um pouco com a outra Tatiana?

Estou falando da Tatiana em estado líquido e gasoso, da Tatiana rainha-bruxa do Reino dos Cães e dos Gatos, super-bem-humorada, que veio da Rússia num dirigível invisível, é meia-irmã da Marquesa de Rabicó, adora limeriques e inventar palavras engraçadas.

Foi com essa Tatiana que eu passei duas horas mágicas, em seu palácio imaginário no bairro do Pacaembu, em São Paulo. Foi com a bruxinha com anteninhas de fada, capazes de sondar o invisível, que conversei.

As plantas curiosas não atrapalharam o bate-papo. Ficaram em silêncio, apenas escutando, enquanto os sete gatos trocavam impressões telepaticamente. Só os dois cachorros, Max e Tuca, de vez em quando lançavam no ar uns comentários divertidos, mas totalmente descabidos. A rainha-bruxa usava suas lentes-de-contato de enxergar a criança dentro do adulto.

Como escreveu o ficcionista Marcelo Maluf: “Tatiana está sempre no lugar privilegiado do seu imaginário.”

Tatiana, esta não é uma entrevista tradicional. É uma conversa entre amigos. Pode ser?
Ótimo. Não gosto de coisas tradicionais, detesto formalidades.

Sobre o que você gostaria de conversar? Poesia, teatro?
Gosto muito de poesia. De poemas divertidos, de limeriques. Meu livro Caldeirão de poemas traz traduções de poemas russos, alemães e ingleses, que fizeram parte da minha infância. Adoro escrever poemas, sobre todos os assuntos. Tudo dá samba, não existe tema proibido. Ter senso de humor é importante. Pode ser até um senso de humor negro. As três qualidades fundamentais num texto pra crianças são: ética, estética e humor.

Aposto que muitas crianças perguntam pra você que bicho é esse, o limerique.
Aí eu leio pra elas meus limeriques e explico que esse é um gênero poético inspirado numa cidade da Irlanda, Limerick. Ele foi desenvolvido pelo poeta Edward Lear. Também o Lewis Carroll escreveu alguns limeriques. São cinco linhas, três versos rimando, o primeiro, o segundo e o quinto. O terceiro e o quarto, mais curtos, rimam entre si. Isso dá ritmo, é ótimo pra fazer algumas brincadeiras. Meu primeiro livro de poemas foi justamente o Limeriques, publicado em 1987. Todo mundo conhece o limerique por minha causa, mas não fui eu quem inventou, não.

A poesia, de modo geral, é um espaço riquíssimo pra imaginação.
Poesia é fundamental na vida. Poesia e humor.

Poesia como sinônimo não só de verso, mas também de magia. Isso nos leva ao mago dos magos, que não era poeta mas era extremamente poético, Monteiro Lobato.
Ele foi um divisor de águas, um pioneiro. Antes dele, os livros para crianças eram muito chatos, moralistas. Um horror.

Todo mundo sabe que o Lobato foi uma figura importante na sua vida…
Vou contar como foi meu primeiro contato com o Monteiro Lobato. Foi a minha primeira gafe com ele. Na época eu já o admirava muito, como escritor. Ele tinha lido um artigo do meu marido sobre sua literatura infantojuvenil, publicado numa revista chamada Literatura e Arte, e gostado bastante. Então, telefonou pra nossa casa, procurando o Júlio, e eu atendi. “Aí é da casa do Júlio Gouveia?” “Sim. Quem está falando?” “Aqui é o Monteiro Lobato.” Eu pensei que fosse um trote e respondi: “E aqui é o Rei George da Inglaterra”. Ele riu do outro lado do telefone. Só então eu percebi que era mesmo o Monteiro Lobato. Ele queria fazer uma visita e foi à nossa casa naquela noite. Ele era parecido com o Júlio, fisicamente. Mas o Júlio era mais bonito.

Também sei que você gostaria de ser uma bruxa de verdade.
Quando eu era pequena, queria ser uma bruxa. Porque, diferente da criança, uma bruxa tem muito poder. Não queria ser uma fada. As fadas são boazinhas demais, certinhas demais. Eu queria ser uma bruxa. Mas uma bruxa bonita, como a madrasta da Branca de Neve. Quando a minha mãe ficava muito brava comigo, ela me chamava de bruxa, porque eu não chorava e não protestava, mas não dava o braço a torcer.

Pra mim e pra muita gente você é uma bruxinha de verdade. A bruxinha-fada do Pacaembu. Com um caldeirão incrível, onde você cozinha seus poemas e seus contos.
As pessoas descobriram que eu adorava bruxas e passaram a me mandar bruxinhas de todos os tipos. Hoje eu tenho uma coleção delas. Mas, quando eu era criança, depois que conheci a Emília, eu disse: “Não, agora eu quero ser a Emília.” A Emília é muito melhor, muito engraçada, ela é contestadora e tem um senso de humor maravilhoso. Quando me perguntam qual a figura feminina da literatura brasileira de que eu mais gosto, eu sempre respondo: “a Emília”.

“Eu sou a independência ou morte.” Foi o que a Emília respondeu certa vez, quando perguntaram à famosa boneca de pano o que afinal ela era. Adoro essa resposta. A Emília é o triunfo da imaginação. E a imaginação é isso: independência ou morte.
A imaginação é tudo, a fantasia é tudo. Sempre digo às crianças que o livro é um objeto mágico que não precisa de bateria ou eletricidade. O livro é muito maior por dentro do que por fora. Por fora ele tem a dimensão real, mas dentro dele cabem um castelo, uma floresta, uma cidade inteira. Cabe uma multidão de fadas, bruxas, heróis e vilões. Um livro a gente pode levar pra qualquer lugar. E com ele se leva tudo o que o escritor imaginou.

Um livro também é uma máquina do tempo. Com ele podemos viajar a qualquer época.
É verdade: uma máquina do tempo. Capaz também de impedir que a criança dentro da gente envelheça. Hoje eu sou antiga, mas não sou velha. Dentro de mim continua vivinha a criança que um dia eu fui.

Vamos conversar um pouco sobre o teatro?
Sempre fui apaixonada pelo teatro. A primeira vez que fui ao teatro, eu era muito pequena, foi em São Petersburgo, antes de vir para o Brasil. O teatro e os livros sempre fizeram parte da minha vida. Meus pais liam muito e sempre me levavam pra ver as peças em cartaz. Aos dez anos, quando cheguei ao Brasil, eu já tinha visto muito teatro e lido muito. Com o Júlio, que era psiquiatra, psicólogo e um educador nato, eu escrevi minhas primeiras peças.

Esse foi o início de sua carreira, ou, pra evitar a palavra carreira, de “uma trajetória cheia de aventuras”, como você gosta de dizer.
Em São Paulo não havia teatro para crianças. A primeira peça que fizemos foi uma adaptação de Peter Pan, que foi apresentada no Theatro Municipal, cedido pela prefeitura. Foi assim que comecei a escrever para as crianças. Mais tarde, quando começou a televisão no Brasil, alguém da direção da TV Tupi foi ver uma de nossas peças, Os irmãos ursos. Então, fomos convidados pra fazer as encenações nos estúdios da emissora. Foi um sucesso. O público adorou. Era algo novo: o teleteatro. Não havia videoteipe, nada disso. Era ao vivo. Para evitar os acidentes, precisávamos prever o imprevisto. Em pouco tempo, já tínhamos três programas por semana e a emissora logo pediu mais.

As ideias tinham que vir rapidinho, aos montes, não?
Eu sou uma escritora ambidestra. Eu agarro as ideias com a mão direita e escrevo com a mão esquerda. Ou vice-versa.

O início de sua carreira foi no teatro. Mais tarde, depois da televisão, vieram também os livros.
Aos quatro anos eu já sabia ler, primeiro em russo, depois em alemão. A leitura fazia parte da minha vida, como escovar os dentes. Ainda mais porque minha mãe era dentista. Ela era comunista, feminista e dentista, uma mulher forte, incrível. Não me lembro de mim sem livros. Hoje os pais querem que os filhos leiam mais, mas os próprios pais não gostam de ler. Isso é um contra-senso. Livro não é castigo ou obrigação, não é chateação. Ao mesmo tempo, tem gente que idolatra demais os livros, guardando todos bonitinhos na estante, longe dos filhos pequenos. Isso é terrível. Livro tem de ser curtição, prazer, sempre.

E no Brasil há pessoas que passam a vida toda sem conhecer o verdadeiro prazer da leitura.
O escritor francês Daniel Pennac disse: “o verbo ler não comporta imperativo, assim como o verbo amar e o verbo sonhar”. É verdade. O Ziraldo está certíssimo quando diz que ler é mais importante do que estudar. A criança não gosta de estudar, ela gosta é de aprender. E ela aprende o tempo todo. Profissão de criança é aprender, mesmo quando está brincando. Especialmente quando lê, a criança está aprendendo.

Adorei nosso papo, Tatiana. Também gostei de conhecer sua boneca Emília, de pano.
Ela está sempre aí, com as bruxas, me fazendo companhia.

Seus sete gatos e seus dois cachorros parecem se dar bem…
É a paz armada. É só um não invadir o território do outro, que fica tudo bem.

[ Publicado originalmente na revista Ponto nº 2, do Sesi-SP, em abril de 2013 ]

Estudos lusófonos

12/03/2013

Sorbonne

Atenção, destemidos do ciberespaço, já está na web a entrevista concedida ao jornalista e escritor Alexandre Staut, para o blogue Estudos Lusófonos.

Avancem com cuidado, Paris não é longe mas o oceano é manhoso. E guarda segredos profundos. Não me responsabilizo pela taquicardia ou por outros efeitos colaterais. Para ler, basta a coragem de clicar aqui.

O blogue é coordenado pelo professor Leonardo Tonus, do Departamento de Estudos Lusófonos da Université de Paris-Sorbonne (Paris IV).

Hyperpulp 3

04/12/2012

Nelson & Luiz 3

Hyperpulp é uma empolgante revista bilíngüe de literatura fantástica e arte, capitaneada pelo escritor e tradutor Alexandre Mandarino.

O primeiro número apareceu na web em janeiro de 2011 e traz muita coisa boa, nacional e internacional. Recomendo especialmente as magníficas ilustrações de seres imaginários, do artista catarinense Walmor Corrêa, o conto da norte-americana Cat Rambo, As sereias cantando umas para as outras, e o conto do canadense Douglas Smith, Anjos do Grito.

O segundo número saiu em janeiro de 2012 e traz os cenários urbanos congelados pelo ilustrador norte-americano Paul Madonna: imagens desabitadas, quase como se pertencessem ao meu novo romance, Sozinho no deserto extremo. Recomendo também dois contos irônicos e bizarros: Pervertido, de C.C. Finlay, e O coração da supracriança, de Daniel Pearlman, ambos norte-americanos.

Hyperpulp3

O terceiro número acaba de sair e desconfio que será por muito tempo o meu predileto. Nesta Hyperpulp 3 Alexandre publicou uma inesperada entrevista dupla, feita comigo e com Nelson de Oliveira, finalmente lado a lado. A entrevista foi feita num café do aeroporto de Cumbica, tempos atrás, pouco antes de Nelson e a família embarcarem para as Bahamas. O novo número traz também, em português e inglês, dois minicontos da série Pequena coleção de grandes horrores.

Está esperando o quê? Os três números da revista podem ser baixados gratuitamente aqui.

Entrevista no Estado de Minas

22/09/2012

A entrevista acima foi concedida ao jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes, para o caderno Pensar.

Conheço C.H.L. há muito tempo, desde o lançamento de Coração aos pulos (2001), uma excelente coletânea de contos. Recentemente participamos de um projeto incomum e inquietante, a coletânea Todas as guerras, organizada por Nelson de Oliveira. Meu conto foi sobre as Cruzadas e o de Carlos foi sobre a Guerra dos Cem Anos.

C.H.L. sempre esteve atendo à minha literatura e à de muitos outros escritores tupiniquins, de todas as gerações e constelações.