Archive for the ‘Ficção’ Category

Romance juvenil interativo

26/07/2015

Sugestões serão muito bem-vindas!

A editora propôs o desafio e eu topei na hora: escrever um romance de aventura, para jovens, incorporando as melhores sugestões dos leitores.

O primeiro capítulo já está disponível online. A partir da leitura desse capítulo inicial, todos os leitores poderão opinar sobre o desenvolvimento da história.

Aliás, o romance ainda não tem um título, porque gostaríamos de ouvir as sugestões dos leitores.

Interessado em visitar Cobra Norato? Clique aqui e saiba mais.

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“A última árvore” na Trasgo

13/03/2015

Trasgo

Galera, já está disponível o número 6 da revista eletrônica Trasgo. Eu participo com um conto inédito, intitulado A última árvore, ambientado numa favela apartada do resto do mundo por uma redoma. Dizem que no centro dessa favela há um labirinto. Dizem ainda que no centro desse labirinto há um grande ipê-amarelo. A última árvore do planeta.

Também concedi uma entrevista ao Rodrigo van Kampen, editor da revista. Para ler, basta clicar aqui.

FC brasuca no Valor

06/03/2015

Valor

No jornal Valor Econômico de hoje, um ótimo artigo assinado por Rodrigo Casarin, sobre a invisibilidade da ficção científica tupiniquim.

Mensagem enviada ao jornalista, tempos atrás:

Olá, Rodrigo.
Segue um comentário geral sobre o tema de tua reportagem.
Creio que as respostas a suas perguntas estão todas aí.
Sobre os destaques brasileiros (última pergunta) dê uma olhada no artigo enviado ao Rascunho. Nele eu indico vários livros de autores contemporâneos.
Sobre as ramificações da ficção científica, veja o arquivo anexo.
Um abraço,
Luiz

Depois de duas décadas pouco interessantes, a ficção científica está voltando a viver um bom momento no Brasil.
Quarenta anos atrás, editoras de médio e grande porte publicavam não apenas os clássicos estrangeiros − Asimov, Bradbury, Clarke, Dick, Heinlein etc. − mas também os brasileiros mais talentosos.
Obras-primas de André Carneiro, Jerônymo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone (autores da chamada Primeira Onda) foram seguidas, tempos depois, por livros igualmente preciosos de Fausto Fawcett, Braulio Tavares, Roberto de Sousa Causo, Fábio Fernandes e outros autores da Segunda Onda.
Então, algo aconteceu na virada do século. A economia esfriou, os editores perderam o interesse pelo gênero, a qualidade da produção brasileira caiu e a ficção científica passou a ser assunto apenas de fãs e fanzines.
Mas a estiagem parece estar chegando ao fim.
Com a informatização do processo de produção editorial, o custo industrial do livro caiu. Isso promoveu o nascimento de novas pequenas editoras, muitas das quais vêm publicando sistematicamente ficção científica estrangeira e brasileira, de autores da Segunda e da Terceira Onda.
Editoras de médio e grande porte também voltaram a publicar ficção científica, mas apenas a estrangeira. O caso mais bem-sucedido é o da editora Aleph, que tem investido pesado em seu catálogo de ficção científica, relançando os clássicos sem deixar de apostar nos contemporâneos.
Tanto a crítica acadêmica quanto a jornalística, salvo raríssimas exceções, ainda desprezam a ficção científica. Esse preconceito é antigo. Mas até isso está mudando.
Nas universidades tupiniquins, o número de trabalhos acadêmicos sobre obras de ficção científica aumenta ano após ano. A grande imprensa também está destinando mais espaço a resenhas e ensaios.

Pequena homenagem

17/04/2014

Cem anos de solidão

Este miniconto pertence à Pequena coleção de grandes horrores, recém-lançada pela editora Circuito.

Conto na Revista E

08/02/2014

Conto Sesc

Invasão alienígena no jornal Opção

29/04/2013

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Dois minicontos no jornal Cândido

13/01/2013

Rafael Sica

O jornal Cândido, publicado pela Biblioteca Pública do Paraná, traz no número 18 um par de minicontos da série Pequena coleção de grandes horrores. São eles: Só poeira e Bolas de feno ao sabor do vento. Pra ler, basta clicar aqui. A divertida ilustração em duas partes é do genial Rafael Sica.

Bunker

18/11/2012

Homem: Ele não quer abrir a porta.
Mulher: Disse que o perigo ainda não passou.
Rapaz: Que merda. Ele precisa abrir a porta agora.
Garota: Não quero morrer asfixiada.
Segundo homem: Não adianta. Ele não vai abrir.
Segunda mulher: Ele tem certeza que o perigo ainda não passou.
Segundo rapaz: Porra. O velho enlouqueceu, não percebem?
Segunda garota: Temos que pegar a chave.
Homem: Não sei… Se ele estiver certo… Se ainda for perigoso?
Mulher: O fogo, a radioatividade…
Rapaz: Não há fogo algum, não há radioatividade alguma.
Garota: A gente não devia estar aqui.
Segundo homem: Temos que sair de um jeito ou de outro.
Segunda mulher: Eu não quero. Não posso. Ele tem certeza que o perigo ainda não passou.
Segundo rapaz: Besteira. Ele está delirando, não percebem?
Segunda garota: O dia deve estar lindo, lá fora. Não suporto mais este frio, esta penumbra.
Homem: Ele vomitou de novo.
Mulher: A comida deve estar estragada. Ele não devia ter comido o feijão.
Rapaz: Esses enlatados aí? Estão vencidos há semanas. Prefiro morrer de fome.
Garota: Quero sair daqui agora. Não estou agüentando mais.
Segundo homem: Eu vou pegar a chave. Quem vem comigo?
Segunda mulher: Eu comi o feijão e não passei mal.
Segundo rapaz: Eu vou com você.
Segunda garota: Eu também.
Dono do bunker: Aí estão vocês, malditos, conspirando novamente. Tramando pelas minhas costas.
Homem: Fora da cama outra vez, chefe?
Mulher: Você não devia ter comido o feijão. Ah, tá vomitando na camisa…
Rapaz: Ele precisa de um médico, gente.
Garota: Temos que sair daqui agora. Cadê a chave?
Dono do bunker: Ficou louca? Quer morrer?!
Segundo homem: Louco nós estávamos quando seguimos você. Quando aceitamos ficar presos aqui dentro.
Segunda mulher: Gente, eu comi o feijão. Comi sim. E não passei mal.
Segundo rapaz: A chave deve estar no bolso dele.
Segunda garota: Segura os braços, que eu revisto.
Dono do bunker: Solta, desgraçado. Não entendem? Se vocês abrirem a porta nós morremos. A chuva radioativa, a água ácida. O vento corrosivo. O vento! O calor, estão entendendo? O calor. Vamos derreter feito bonecos de cera.
Homem: Parem. Vocês estão machucando o coitado. Vamos conversar. Se ele estiver certo… Se ainda for perigoso?
Mulher: Ah, tá vomitando de novo.
Dono do bunker: Solta, caralho! Se vocês abrirem a porta, mesmo só um pouquinho, nós morremos.
Rapaz: A chave não está no bolso. Ele deve ter escondido nos armários.
Garota: Ou num cofre secreto.
Dono do bunker: Desgraçados. Nós vamos morreeeeeer…
Segundo homem: Cuidado. Ele pegou uma faca.
Segunda mulher: Calma, chefe. Não.
Segundo rapaz: Velho louco. Assassino. Assas…
Segunda garota: Não, chefe.

Duas semanas depois, batidas na porta de aço.
Mais forte, mais forte ainda. A tranca explode.
Três homens entram. O cheiro é insuportável.
Uma lanterna devassa a escuridão.

Policial: Isso aqui é enorme. Como foi que ele construiu?
Bombeiro: Gastando todas as economias, dizem.
Vizinho: Ele passou dez meses trabalhando sem descanso. Avisava que uma tempestade terrível estava chegando. Que todo mundo morreria. Quando o abrigo ficou pronto, ele se trancou aqui embaixo.
Policial: Onde ele está?
Bombeiro: Aqui.
Vizinho: Essa não… Que merda.
Policial: Sangrou até a morte.
Bombeiro: Havia mais alguém com ele?
Vizinho: Não. Ele se trancou sozinho.

*     *     *

[ Este miniconto homenageia O abrigo (2011), excelente filme de Jeff Nichols, com Michael Shannon no papel principal. O personagem de Shannon tem visões obsessivas sobre o fim do mundo e, pra salvar a família, constrói um bunker no quintal de casa. Meu miniconto deve ser encarado como um final alternativo — quase uma fanfic — tão terrível quanto o final do filme. ]

Presas e predadores

24/08/2012

A criança passa fome. Os olhos ardem, os ossos doem. Seu cansaço já é uma doença incurável.

Você sente um tremor, uma vertigem. Nunca viu algo assim: a miséria na calçada.

A criança passa fome e morrerá em poucos dias. O velho caído ao lado da criança parece estar num aquário, se afogando. O peito, a garganta e a língua buscam oxigênio mas só encontram água. Invisível água.

Meia hora atrás você estava num mundo perfeito. Então algo mudou. Você estava num mundo perfeito que sequer sabia que era perfeito. O que poderia ser mais coerente com a perfeição do que a ignorância?

Então um tornado atravessou teu crânio e arrebatou tua mente.

Agora você está aqui.

O que mudou?

Nada mudou. Tudo mudou.

No início você não percebeu qualquer diferença. O reflexo no espelho do banheiro era o seu reflexo, a mulher na cama de casal era a sua mulher. Os filhos pequenos eram os seus filhos, a cidade do outro lado da janela era a sua cidade.

Então você sentiu o cheiro de peixe podre. De pobreza.

Repugnância.

Você sentiu o cheiro de peixe podre e viu a criança na calçada. A criança e o velho.

Horror. É preciso fazer alguma coisa. Você avança, logo recua, o cheiro. Fazer o quê? Você não sabe ajudar as pessoas. Nunca aprendeu. De onde você vem nunca foi preciso ajudar ninguém.

O fedor de peixe podre não emana só da criança e do velho na calçada. Ele emana da cidade toda.

Você não sabe quando começou a vomitar. Não sabe nem como conseguiu voltar ao apartamento. Uma cobertura moderna, suntuosa, agora desagradável.

Você conta tudo a sua mulher. A criança, o velho, a podridão geral.

Ela não sabe o que dizer, como confortar você, interromper os soluços. O mundo sempre foi assim: presas e predadores.

Você grita: não. O mundo nunca foi assim.

Algo aconteceu, meu amigo, algo enlouqueceu. Ou todo mundo apodreceu de repente, menos você, ou você foi trocado de mundo.

Sua mulher não entende.

Ela não sabe que de onde você vem as pessoas não roubam as pessoas, não torturam as pessoas, não violentam as pessoas, não consomem as pessoas. Como poderia saber?

Só então você lembra do tornado.

O golpe na base do crânio, o arrastão, a mente sendo levada pra longe.

Você lembra e tenta respirar. Também está se afogando, feito o velho no aquário invisível.

Sua mulher abre bem a janela, o vento entra. Nessa hora vocês avistam entre as nuvens o contorno difuso da outra Terra. Bela. Majestosa.

O disco azul pálido. Nosso planeta-reflexo, perfeito.

*     *     *

[ O miniconto acima é um modesto tributo ao sublime longa-metragem dirigido por Mike Cahill, com Brit Marling e William Mapother nos papéis principais. Fazia tempo que eu não via um filme tão bacana sobre duplos (os mais refinados preferem dizer doppelgänger). O roteiro saiu da mente e das mãos de Cahill & Marling e a premissa é a mesma do longa-metragem Odisséia para além do sol, de Robert Parrish, de 1969. Enquanto saboreava cada cena de A outra Terra, ficava pensando, só de farra, num final alternativo para o romance Sozinho no deserto extremo: outra Terra surgindo no céu e Davi, intrigado com mais esse fenômeno, matutando se a maioria das pessoas desaparecidas não teria sido transportada pra lá. ]

Doze microcontos

02/08/2012

Supremo supermercado
Com dificuldade ele encontra todos os itens da lista, menos os olhos e o rosto novo, pele clara, tamanho médio, diurno-noturno. Mais uma semana sem olhos, sem rosto, meu Deus?

Alien
Esse aí não é mesmo o homem com quem casei. Ai, será que trocaram meu marido? Aviso as autoridades? Melhor ficar quieta, senão vão querer destrocar.

Paradoxo Édipo
Ele viaja ao passado. Apaixona-se pela própria mãe, ainda jovem. Tem um filho com ela: ele mesmo. É a cara do pai, dizem.

Um velho engenheiro
Projetou a mulher ideal: J4N9. Jovem, sedutora e inteligente. Inteligente até demais. Azar. Logo ela se livrou dele e projetou um trio de T4RZ4Ns ideais.

Transplante
Um rim? Não, amorzinho. Nem um naco do seu fígado. Nem córneas ou medula óssea. É do teu espírito que eu preciso, só metade. Você doa pra mamãe?

Game
Ele faz um gesto com o indicador, um país desaparece. Ela faz um gesto com o polegar, um continente é destruído. Chegam os generais em pânico: naaauuum, a nova arma secreta! quem deixou?

“Elementar, meu caro Wilson.”
Não, doutora Cuddy. A senhora está errada. Jamais, em momento algum, Sherlock House disse essa frase.

Zôo holográfico
Parecem reais… Caraca, um dinossauro per, fei, to. Uau, um ciclope per, fei, to. Putz, um dragão per, fei, to. Epa, esse leão não está bom. Tá meia-boca. Não parece de verdade. Uau, aiaiai, meu braço!

O último homem
Com o sumiço das pessoas, a terrível solidão. Desespero. Uma arma vai resolver tudo, ele pensa. Encontra um revólver. E passa os dias vazando as janelas.

Telepatia
O chip em meu cérebro recebe e envia pensamentos. Hackers invadem o sistema. Enchem minha cabeça da pornografia mais abjeta. Ó Jesus, obrigado!

Lixão
Mergulha na matéria orgânica-inorgânica. Dá braçadas feito um campeão olímpico. Tenta chegar ao terraço do edifício quase inteiramente submerso. Mas é tragado pelas sereias das fossas industriais.

Introspecção
Trancou-se na sala de cirurgia. Abriu o próprio peito de cima a baixo. Estarreceu-se com o que encontrou: uma consciência maltrapilha e abobada, que era a sua cara.