Archive for the ‘Literatura’ Category

Mensagem aberta

29/12/2014

Ao professor-pesquisador que estuda a literatura brasileira contemporânea

Prezado professor, saudações!

Um pequeno grupo de professores-pesquisadores sempre esteve atento ao cânone, mas sem descuidar do contemporâneo. Graças a esse grupo, o estudo da literatura brasileira do século 21 vem ganhando espaço na esfera acadêmica.

Tempos atrás era muito forte a resistência da universidade em refletir sobre a literatura brasileira contemporânea. Às vezes passava pelo filtro um ou outro autor (ainda) vivo, apesar da idade. Mas um autor jovem… nem pensar.

Enquanto perdurou, essa ojeriza institucional aos novíssimos escritores foi muito criticada. Principalmente pelos novíssimos.

Em respeito ao protocolo acadêmico, graduandos e pós-graduandos viviam apenas em função do cânone. Consagravam autores e obras consagrados, num círculo de consagração.

Mas nas últimas duas décadas a situação se modificou. Suspeito que por insistência da nova geração de pesquisadores.

Devagar, os romances e as coletâneas de contos ou poemas da geração mais jovem de ficcionistas e poetas começaram a ser analisados. Não apenas em TCCs e artigos acadêmicos, mas também em dissertações e teses.

Hoje, a queixa de que a universidade trabalha apenas com as obras e os autores canonizados não se justifica. Muitos ficcionistas e poetas que estrearam em livro nos últimos vinte anos também já estão sendo estudados. Até mesmo nas universidades mais conservadoras do país.

Porém, uma minoria ficou de fora dessa abertura política. Se um velho preconceito foi dissolvido, outro ainda continua intacto. Refiro-me ao tradicional preconceito contra a ficção científica brasileira.

Esse gênero literário evoluiu muito nas últimas décadas. Sensível às sucessivas renovações estéticas promovidas ao longo do século 20, sua linguagem amadureceu, sua temática se atualizou.

Apesar dessas mudanças significativas, a quase totalidade da universidade brasileira ainda enxerga a ficção científica do mesmo modo reducionista que o senso comum. Confunde, por exemplo, a ficção científica literária, mais refinada e arrojada, com a cinematográfica, mais estereotipada e conservadora.

Ignora que o gênero tem uma longa história (ainda secreta) no Brasil, a ponto de já exibir características nacionais.

De modo geral, a universidade brasileira e o senso comum ignoram sua atualidade. Acreditam que a ficção científica de hoje e a dos anos 50 e 60 são a mesma coisa. Esse é um grande e trágico engano que poderia ser evitado de maneira muito simples: pela leitura.

Brasileiros talentosos estão escrevendo com afinco. Grandes romances e coletâneas de contos de ficção científica foram publicados nos últimos vinte anos. Mas não receberam a merecida atenção da imprensa. Também não estão recebendo a merecida atenção da universidade.

A simples classificação − ficção científica brasileira − os torna invisíveis. O veredito não-li-e-não-gostei é dado. E o preconceito perdura.

Faço um apelo ao bom senso incomum, contra o mau senso comum: não despreze, sem ao menos ler. Os melhores livros publicados neste início de século 21, de ficção científica brasileira, não merecem a invisibilidade.

Na verdade, esses livros somam força com os da literatura não estigmatizada. Eles ampliam o leque temático, inserindo questões que não são abordadas pela irmã rica: biotecnologia, engenharia genética, informática, inteligência artificial, cosmologia etc.

Fazem isso com uma linguagem afiada, você logo verá, sem abrir mão dos temas tradicionais de nossa problemática realidade político-social-tropical.

Em resumo, fazem o que os bons livros sempre fizeram, não importando o gênero: investigam o drama humano. Questionam seus sistemas, denunciam as armadilhas.

Se esse apelo à leitura imparcial, sem preconceito, for atendido, mais uma injustiça histórica será finalmente banida dos centros acadêmicos de reflexão.

Um abraço,

Luiz Bras

André Carneiro: desbravador de escuridões

07/11/2014

AndreCarneiro

Por indicação de Roberto de Sousa Causo, foi durante a organização da coletânea de contos Futuro presente, para a editora Record, que entrei em contato pela primeira vez com André Carneiro. Conversamos por telefone e André enviou para o livro o conto Paralisar objetivos, uma narrativa intrigante sobre pessoas misteriosas em busca da onisciência.

Causo também me presenteou com a coletânea A máquina de Hyerónimus, excelente, lançada pela editora da UFSCar. André Carneiro, que pouco tempo antes eu não conhecia, entrou imediatamente para a pequena lista de meus autores prediletos. Seus contos mais inquietantes costumam frequentar meus laboratórios de criação literária, entre eles o irreverente Meu nome é Go.

Na pele do famigerado Luiz Bras, tive a prazerosa oportunidade de entrevistar o autor para o jornal Cândido, de Curitiba. André também topou participar de duas outras coletâneas organizadas pelo Luiz: Hiperconexões: realidade expandida, de poemas sobre o pós-humano (editora Patuá), e Futuro infinito, de contos de ficção científica, que sairá em 2015 pela editora Positivo.

Entre meus romances prediletos da FC brasuca está Amorquia, que também cativou Teo Adorno, meu alter ego dublê de artista gráfico. Meses atrás, Teo publicou no facebook uma breve resenha desse romance e um colorido retrato do autor.

É pena, mas nós três (Luiz, Teo e eu) nunca tivemos a oportunidade de conhecer André pessoalmente. Nosso breve contato foi apenas por telefone e e-mail. Porém isso não diminuiu nem um pouco nossa admiração por sua obra. Também não diminui a certeza de que a nova geração de leitores e críticos literários precisa descobrir urgentemente esse escritor singular, desbravador de escuridões.

Nelson de Oliveira

+     +     +

Jornal Cândido: André Carneiro, o peregrino das dimensões simbólicas

+     +     +

Terminei de reler o romance Amorquia, do mestre André Carneiro (alô, curitibanos: o mestre está vivendo entre vós), sobre uma sociedade futura em que o trabalho foi abolido e a dedicação total às sutilezas do sexo representa o grau máximo de civilidade e civilização.

A releitura foi melhor do que a primeira leitura, talvez por eu me sentir mais maduro, hoje, pra esse tipo de experiência literária, do que três anos atrás.

Publicado em 1991, pela Aleph, Amorquia é um dos melhores romances brasileiros dos anos 90. Tão importante quanto o cultuado Não verás país nenhum, da década anterior. Mas está fora de catálogo. Procurem na Estante Virtual, correndo.

Nesse romance André Carneiro oferece um narrador em terceira pessoa descomplicado, que simplesmente registra, de maneira transparente e objetiva, o que viu e ouviu dos personagens. Mas esse narrador impessoal habita um sistema complexo: o contraponto (polifonia). O romance é feito de dezenas de capítulos curtos e a maioria são quase minicontos autônomos. Esses capítulos reúnem-se em poucos núcleos de personagens (aparentemente) imortais. Por ordem de entrada: Túnia, Pércus, Karlow, Marta, Játera, Philte e Philomene.

Na sociedade hedonista de Amorquia as crianças têm aulas de prática sexual desde pequenas e a religião reforça o tempo todo, de modo até agressivo, o sentido sagrado do prazer carnal. Além do trabalho, também foram abolidos o amor, o casamento e a fidelidade. Semelhante ao Admirável mundo novo, a promiscuidade (anarquia amorosa) é a regra. O toque de humor fica por conta da inversão dos papeis: agora as mulheres são as caçadoras insaciáveis, enquanto os homens se queixam da cobrança absurda que a nova cultura impõe, de fazer amor várias vezes por dia.

Reforçando a polifonia, há certos capítulos aparentemente desconectados da trama principal, que abrem uma brecha nessa realidade futura, levando o leitor a outro tempo e espaço. São capítulos que citam livros bastante conhecidos (O antigo testamento, Robinson Crusoé, Teresa filósofa) ou voltam no tempo (Idade Média, Renascimento, anos 60) pra avaliar como o sexo era encarado em outras sociedades.

O narrador do romance é descomplicado e transparente, mas não sabe tudo. A onisciência não é seu ponto forte. Caráter marcado pela crise modernista da epistemologia, ele sabe tanto quanto os personagens e o leitor. A trama é cheia de elipses e segredos, cuja soma revela, mais para o final, a sombra perversa da distopia (tortura, corrupção, morte) no coração da utopia (imortalidade, prazer, sabedoria).

O desenlace é puro André Carneiro: surpreendente, lírico, subjetivo, hermético, ao mesmo tempo belo e terrível.

Teo Adorno

“Paraíso líquido” no blogue Restless Books

12/07/2014

ParaisoLiquido

Luiz Bras doesn’t exist. It is the pseudonym of Nelson de Oliveira, an award-winning Brazilian writer who became Luiz Bras when he took up the sci-fi genre. Paraíso Liquido is a collection of short stories, considered to be one of the best contemporary Brazilian Science Fiction collections.
[ Renata Limon, Restless Books ]

O Último Crítico Literário dos Universos

14/06/2014

Conheci o generoso e perspicaz Eugen Weiss faz uns dois anos, na Casa Mário de Andrade, numa de minhas oficinas. Recentemente, Eugen nos presenteou com uma reflexão no mínimo inquietante sobre o jogo da crítica, da vida, do cosmo – reflexão que agora compartilho com os milhares de leitores deste blogue.

O Último Crítico Literário dos Universos

Olam Haba, o mundo vindouro preconizado na Cabalah judaica, não faz provisão nem previsão explícita para o papel do ser humano que viveria eternamente naquele mundo. Entretanto, caminhamos para ele independentemente das construções que podemos arquitetar, tanto as utópicas como as distópicas.

Talvez a razão para a progressão inexorável para esse destino esteja na aparente imutabilidade do comportamento do ser humano, notada desde os mais antigos mitos, tanto os registrados em alguma escrita como os que residem nas tradições orais. Afinal, se deus é eterno e fomos criados à sua semelhança, essa pétrea forma é uma exigência redundante. Não cabem especulações esperançosas, o erro é inato. O conhecimento, aquele que expulsou nosso primeiro antepassado da vida edênica, continua sendo revelado em doses maiores ou menores nas obras que compõe a massa de cultura da humanidade. Desde o paleolítico, aos poucos se percebe a sombra que nos acompanha nas obras esculpidas, grafadas ou pintadas. Alguma coisa na expressão do rosto, no gesto ou na frase dita em voz baixa. Revela-se.

Ficou cada vez mais fácil de, usando a forma escrita, explicitar essa sombra, ou sombras que pressionam o comportamento humano. Expressam-se na forma de jogos. Jogos nunca inocentes, como nos faziam crer as brincadeiras das crianças, ilusão apagada pelas considerações de Freud.

Não queremos explorar o tema por este caminho que nos afasta um pouco do objetivo, mas jogos são jogos porque têm resultado previsível: ou um ganha ou o outro ganha ou resulta em empate. Empate a ser decidido numa próxima oportunidade.

O núcleo essencial do ser humano transitou através de milênios, oculto e negado. Pela intensidade desses atos de negação, a pressão para a revelação se tornou enorme, incontrolável, propiciando a Energia para afrontar o estabelecido. O Tesão dominou os atos; quaisquer atos. Os mais jovens são sensíveis e receptivos e criativos. Os não tão mais jovens se debatem, se justificam e se apegam à linguagem cuja gramática de nada mais lhes serve. Morrem, morrerão, dão lugar ao fluxo incansável e interminável de revelações e esclarecimentos. Mas continua o jogo. O Jogo. Um Cara ou Coroa. Um sofisticado Jogo de Palitinhos.

As revelações vêm em muitas formas diferentes, muitos veículos diferentes, que oferecem recursos cada vez mais poderosos. Um exemplo poderia ser o livro de Joseph Conrad, Heart of darkness. Um mundo criado, um mundo revelado, um mundo negado de atrocidades no Congo Belga, explorado viciosamente pelo rei Leopoldo II da Bélgica, que resultou na escravização e morte de dois milhões de nativos. O horror, o horror, narra o protagonista que morre ao final e ressuscita erótico, energético, nas mãos de um Marlon Brando, buda vingativo, o coronel Kurtz das selvas do Vietnã, em Apocalipse now, novamente o horror, o horror.

O que considerar, o que criticar, se o paralelismo dessas duas construções é óbvio, de resultado final idêntico. Um Jogo. Repete-se, mas apesar disso revela o que não se sabia antes. A pulsão freudiana. O que trará a próxima reencenação? Não sabemos. Isso é comum e presente nas obras humanas. Nos universos construídos em livros, estátuas, teatros, músicas, óperas, pinturas, o que for, onde for.

Neste domingo, Luis Fernando Verissimo, na sua coluna no Estadão, trouxe o Obsoleto, em palavras muito melhores que estas aqui. Verissimo mostra que, de alguma forma, nos conformamos em ser o que somos, mas involuntariamente já pré-formamos um mundo futuro para conter algum resquício de nossa herança humana.

Podemos procurar alguns desses resquícios nos fragmentos de Luiz Bras na coletânea Pequena coleção de grandes horrores. Novamente, o horror, o horror. Ali, o coronel Kurtz, reduzido a pequenos pedaços, aparece na forma de sessenta e sete sementes para a criação de sessenta e sete mundos terminais.

Naquele destino apontado por Veríssimo, os humanos serão convertidos a seja lá o que for, talvez naquilo mostrado por Luiz Bras, e então, por consequência, apenas restará você, leitor, para o papel de Último Crítico Literário dos Universos.

Eugen Weiss

11 de maio de 2014

Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil

11/11/2013

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

Antonio Cestaro, Roberto de Sousa Causo e Claudio Brites
Ivan Marques e Jiro Takahashi
Luís Augusto Fischer e Ronaldo Bressane
Andréa del Fuego, Paulo Scott e Rinaldo de Fernandes
Marcelino Freire, Felipe Lindoso e Santiago Nazarian
Marcia Tiburi, José Leonardo Tonus e Beatriz Bracher
Affonso Romano de Sant’Anna e Cíntia Moscovich

Lem e a impossibilidade de comunicação

17/02/2013

Uma das mais assombrosas e filosóficas representações já realizadas de uma criatura alienígena é a do polonês Stanislaw Lem, apresentada em seu romance mais célebre, Solaris, publicado em 1961. Lem imaginou um vasto oceano vivo, senciente, capaz de reagir à atividade humana do modo mais assustador: materializando nossas projeções mentais de natureza inconsciente.

Entre o oceano e os pesquisadores humanos jamais se estabelece qualquer tipo de comunicação. Não há diálogo. A criatura reage à nossa presença de um modo incompreensível. Essa é a reflexão de Lem sobre o primeiro contato entre nossa espécie e uma espécie alienígena: talvez a troca de experiências seja impossível.

Solaris foi adaptado duas vezes para as telas: em 1972 por Andrei Tarkovski e em 2002 por Steven Soderbergh. Porém, devido ao caráter simplificador do cinema, sempre afeito a condensar e resumir um enredo, nos dois filmes certos detalhes importantes do romance foram deixados de lado.

Tarkovski e Soderbergh concentraram-se no conflito gerado pelas cópias de pessoas mortas ou ausentes, que o oceano materializa pra cada tripulante da estação de pesquisa. Mas deixaram passar batidas muitas outras manifestações da imensa criatura líquida. No romance, o oceano freqüentemente cria em sua superfície formações monstruosas e enigmáticas, sem qualquer função aparente, que os cientistas batizaram de extensores, fungóides, mimóides e simetríades. As mais belas e misteriosas talvez sejam as últimas:

“Imaginem um palácio que datasse dos grandes dias da Babilônia, mas construído com alguma substância viva e sensível, com a capacidade de evoluir: a arquitetura desse edifício atravessa uma série de fases, e nós o vemos assumir as formas de um edifício grego e depois a de um romano. As colunas crescem como galhos e tornam-se mais estreitas, o telhado sobe, arqueia-se, curva-se; o arco descreve uma parábola abrupta, depois sucumbe em forma de seta: nasce o estilo gótico, que chega à maturidade e, no devido tempo, dá passagem a novas formas. A austeridade abre caminho a uma confusão de linhas e formas que se rompem: surge o barroco. Se a progressão continua — e as sucessivas mutações devem ser vistas como estágios na vida de um organismo em evolução —, chegamos finalmente à arquitetura da era espacial, e talvez também a alguma compreensão da simetríade. Infelizmente, a comparação permanece superficial, não importando como essa demonstração possa ser desenvolvida e aperfeiçoada (houve tentativas de visualizá-la com a ajuda de modelos e filmes). Ela é evasiva e ilusória, e evita o fato central de que a simetríade é completamente diferente de qualquer coisa que a Terra já produziu.” (Tradução de Reinaldo Guarany para a edição do Círculo do Livro)

Drummond e a ficção científica

08/02/2013

MaquinaDoMundo

Num dos mais belos poemas da língua portuguesa, um homem comum, sem qualidades salientes, encontra uma criatura fabulosa de origem desconhecida, talvez extraterrestre, talvez vinda do futuro, não dá pra ter certeza. O tema desse poema é o susto do ser humano ao se confrontar com o sobre-humano, com o infinito. Tão amedrontado fica o sujeito diante da criatura gigantesca, onipotente e onipresente, que sua única reação é desviar o olhar, recusar o conhecimento absoluto que generosamente está sendo oferecido.

A máquina do mundo, de Drummond, foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a convite do caderno MAIS da Folha de S.Paulo (edição de 2 de janeiro de 2000), na época publicado aos domingos. O poema pertence à coletânea Claro enigma, de 1951.

É óbvio que a máquina do mundo do poema de Drummond é a mesma figura alegórica que encontramos em textos bastante diversos, difundidos desde a Antiguidade até a Renascença. Para as tradições antigas, a universal máquina do mundo era o intrincado mecanismo do cosmo, de natureza antropocêntrica. Eram, por exemplo, as esferas celestes de Ptolomeu, que a deusa Tétis apresentou a Vasco da Gama, no poema máximo de Camões.

Porém, ao interpretar o poema de Drummond, nada me obriga a aceitar apenas a visão alegórica, figurada. Posso muito bem trocá-la pela visão realista, literal. A máquina do mundo corporifica-se. Onde os antigos e os renascentistas enxergavam uma representação poética e até religiosa da estrutura do cosmo, eu enxergo uma criatura inquietante, uma inteligência alienígena, meio orgânica meio artificial, originária de outra galáxia ou de outro universo.

Ou seja, o que me impede de seqüestrar o poema de Drummond do território da metafísica e acomodá-lo gentilmente no território hoje muito mais interessante da ficção científica?

Setenta anos

18/08/2012

O ficcionista e tradutor paulistano Petê Rissatti, especialista na obra de Fernando Sabino, fez uma importante descoberta: o clássico O encontro marcado era pra ser um romance de ficção científica distópica. Sabino revela essa intenção em duas longas cartas endereçadas ao jornalista Paulo Mendes Campos (a primeira carta) e ao editor Ênio Silveira (a segunda). Rissatti encontrou as duas cartas enquanto pesquisava pra sua tese de doutorado sobre o romance brasileiro urbano. O que levou o escritor mineiro a mudar de ideia sobre a trama de sua principal obra, ninguém sabe. O que sabemos com certeza é que, se o plano inicial tivesse sido mantido, O encontro marcado seria hoje mais uma narrativa essencial da ficção científica brasileira.

O encontro marcado
Romance distópico de Fernando Sabino
Eduardo, rapaz tímido de dezoito anos, com uma grave doença da qual não se encontra diagnóstico seguro na segunda década do século 21, é congelado por seus pais até que a cura seja encontrada. No fim do século, Eduardo é descongelado e descobre um mundo bem diferente do que ele conhecia. Por um lado, sua grave doença já pode ser curada em qualquer farmácia, com dois ou três comprimidos. Por outro, as condições políticas e sociais que encontra no Novo Mundo não são das melhores: na Terra com quinze bilhões de habitantes não existe mais privacidade possível. O espaço para cada ser humano em terra firme foi reduzido a vinte metros quadrados, a água é reprocessada e tem um gosto horrível, a comida é racionada e todos os passos dos cidadãos são controlados por meio de chips e outras parafernálias que Eduardo só conhecia dos romances da sua época. Mas seu maior problema será encontrar o filho de uma relação furtiva com uma vizinha, ocorrida antes de seu congelamento. Filho que agora estaria com setenta anos.

Pesquisa: Petê Rissatti

Cultura FM – Programa Entrelinhas

27/07/2012

O jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto convidou-me pra participar do programa Entrelinhas: Confluências entre Música e Literatura, apresentado por ele na Cultura FM (103,3). Topei na hora. Difícil foi escolher as composições. De uma lista inicial com minhas trinta músicas mais queridas, depois de muito sofrimento consegui selecionar oito.

O programa vai ao ar no dia 31 de julho, terça-feira, às 21h. O bate-papo com Manuel foi tão prazeroso, informal e descontraído, que estouramos astronomicamente o tempo regulamentar. Talvez uma ou duas composições precisem ser cortadas na edição.

1. Debussy: Prelúdio ao entardecer de um fauno. Homenagem musical ao célebre poema de Mallarmé, sobre o envelhecimento e o declínio do vigor físico. O fauno Mallarmé é o personagem-assombração do romance Poeira: demônios e maldições, de meu amigo Nelson de Oliveira.
2. Ravel: Pavana para uma infanta defunta. A música erudita e o cinema foram a principal matéria-prima do ficcionista Cabrera Infante em seu romance engraçadíssimo Havana para um Infante defunto.
3. Carl Orff: Veris leta facies. Duvido que o compositor estivesse pensando no Marquês de Sade, quando orquestrou esse poema medieval sobre a chegada da primavera. Mas o cineasta Pier Paolo Pasolini, em seu último filme, não deixou escapar essa triste constatação: a barbárie muitas vezes anda de mãos dadas com o refinamento.
4. Stravinsky: Os augúrios primaveris: a dança das adolescentes. Trecho do balé A sagração da primavera. Stravinsky é meu compositor predileto, sempre foi. Considero genial toda a sua obra, da primeira a última composição. Um de meus romancistas mais queridos, Alejo Carpentier, homenageou esse balé num romance também intitulado A sagração da primavera.
5. Prokofiev: Montecchios e Capulettos. Trecho do balé Romeu e Julieta. Shakespeare teria gostado de assistir à essa adaptação de sua peça mais popular. Tentei reproduzir, num dos capítulos do romance Sozinho no deserto extremo, o andamento e a atmosfera desse trecho magnífico.
6. Debussy: Hommage à S. Pickwick Esq. P.P.M.P.C. Debussy homenageou diversos escritores, a maioria poetas. Esse prelúdio é um delicado tributo ao romancista Charles Dickens e a seu personagem Samuel Pickwick. Os prelúdios de Debussy são a música-fantasma que assombram pelo menos três contos da coletânea Paraíso líquido.
7. Gilberto Mendes: O meu amigo Koellreutter. Finalmente um compositor brasileiro nesta seleção. O santista Gilberto Mendes (não deixem de ler seu livro de memórias, Viver sua música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à Avenida Nevskiy) homenageia aqui outra importante figura de nossa vanguarda: o alemão Hans-Joachim Koellreutter, que na juventude mudou-se para o Brasil, fugindo do nazismo.
8. Edgar Meyer: Please don’t feed the bear. Meyer é um compositor e instrumentista que transita por vários gêneros musicais. Uma descoberta recente, indicação do poeta Ninil Gonçalves. Gosto de ouvir seus CDs quando estou escrevendo.

Eugênio e Ana Maria

23/07/2012

O escritor e pesquisador curitibano Mustafá Ali Kanso, especialista na obra de Erico Verissimo, fez uma importante descoberta: o clássico Olhai os lírios do campo era pra ser um romance de ficção científica new wave. Examinando pra sua tese de doutorado os arquivos do festejado romancista gaúcho, Mustafá encontrou várias anotações que deixaram clara essa intenção não realizada por Erico. O que o levou a mudar de ideia, ninguém sabe. O que sabemos com certeza é que, se o plano inicial tivesse sido mantido, Olhai os lírios do campo de asteroides seria hoje mais uma narrativa essencial da ficção científica brasileira.

Olhai os lírios do campo de asteroides
Romance new wave de Erico Verissimo
A primeira parte do romance se inicia com Eugênio Fontes, um próspero exomédico, viajando de sua propriedade lunar rumo à cidade orbital da Terra, que dista três horas de astronave. O chamado veio de um hospital da cidade orbital, onde seu grande amor do passado, Olívia, está morrendo. É durante essa breve jornada que Eugênio, em sucessivos flashbacks, retoma seu passado. Ele evoca a infância infeliz no campo de asteroides, dada a pobreza do pai fabricante de trajes espaciais, e o desejo que acometeu o protagonista de se tornar um homem rico e livrar a família de todas as vergonhas geradas pela miséria. É por essa razão que Eugênio se casa por interesse com Eunice, uma mulher muito rica, e abandona Olívia. Nesse meio-tempo se inicia a Primeira Guerra Interplanetária. Com essa história ao fundo, o autor compõe um painel de tipos humanos sempre às voltas com o conflito segurança versus felicidade. Na segunda parte, Eugênio rompe o casamento com Eunice, encorajado por saber da existência de Ana Maria — filha que teve com Olívia —, e passa a ser um médico do campo de asteroides, atendendo os mineiros pobres. O romance termina com uma cena antológica: Eugênio e sua filha Ana Maria passeando alegremente de buck-rogers pela praça orbital de Ceres.

Pesquisa: Mustafá Ali Kanso