Paraíso líquido

Essa coletânea reúne treze contos sobre o futuro. Sobre a maneira como o ser humano está modificando o ser humano. Evitei os temas mais explorados pela ficção brasileira contemporânea — periferia, violência urbana, dramas conjugais, adolescentes desnorteados etc. — e procurei privilegiar os menos abordados: o indivíduo diante das novas tecnologias, dos avanços da medicina, das futuras crises sociopolíticas etc. De certa forma, troquei conscientemente as personagens comuns de hoje pelas subjetividades incomuns de amanhã.

Paraíso líquido significa uma mudança importante na minha vida e na minha literatura. Fugir do lugar-comum foi o que eu tentei com mais afinco ao escrever cada narrativa dessa coletânea. Se hoje em dia, depois de Oswald, Rosa e Clarice, tornou-se praticamente impossível renovar a linguagem literária, procurei ao menos renovar a temática.

O modo como a tecnologia está mudando a sociedade, para o bem e para o mal, é assustador. Já faz algum tempo que o homem vem modificando fisicamente o homem. Nunca estamos satisfeitos com o que somos. Esse processo de modificação começou externamente, com as tatuagens tribais, os piercings, os adereços na cabeça, no nariz, nos lábios, no corpo todo. Com a evolução da medicina, o interior do corpo foi invadido por próteses e dispositivos não orgânicos. Mais recentemente, o cérebro também começou a receber implantes.

Anos atrás percebi que existe muito escritor talentoso escrevendo sobre a periferia das grandes cidades, os dilemas da classe média, as guerras conjugais e o cotidiano difícil das pessoas comuns. Se também começasse a escrever sobre tudo isso, eu seria só mais um entre as feras da literatura. Então decidi procurar outro assunto. Foi assim que comecei a escrever sobre a sociedade e os dilemas do futuro. Sobre a maneira como as novas tecnologias estão modificando o ser humano e provocando novas crises sociais e existenciais.

Para o público adulto.
Desenho da capa feito por Teo Adorno.
Terracota Editora

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20 de janeiro de 2010

Estou em estado de graça. O júri foi generoso e me concedeu uma das bolsas do ProAC. Isso quer dizer que até a metade deste ano será publicada a coletânea de contos Paraíso líquido. Fazia tempo que eu estava esperando por um sinal positivo do cosmo, ou do acaso. Um aviso, uma dica, qualquer coisa, um e-mail incandescente ou um angorá abençoado com o dom da fala, que ronronasse: “Revise os contos. Eles sairão em livro.”

Neste exato momento estou terminando de reler as doze narrativas que compõem o novo livro. A mais antiga, intitulada Nostalgia, foi escrita no início de 2007 para a coletânea Futuro presente, organizada por Nelson de Oliveira. A mais recente, e também a mais longa de todas, foi finalizada em dezembro de 2009. Intitula-se, como o novo livro, Paraíso líquido, e fala de um lugar incomum — a Paisagem —, habitado por seres incomuns cujo maior pavor é uma criatura incomum, de poder ilimitado e vastas dimensões, chamada Nuvem.

Imagine minha felicidade ao receber do ilustrador Teo Adorno o desenho acima, que será a capa do livro. As espirais da Nuvem expressionista do Teo sugerem aspereza, solidez e vigor, como se fossem feitas de um tipo fluido de rocha metálica colorida. Por Tutatis! Que o céu cai sobre minha cabeça, se essa não é a Nuvem que eu imaginei assombrando a Paisagem.


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