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2014 foi um ano muito produtivo

06/12/2014

Livros 2014

Descrição do personagem

22/09/2014

Um modo incomum e irreverente de descrever um personagem é usar na descrição o vocabulário da profissão do personagem.

O resultado é quase sempre uma divertida amostra de nonsense. Exemplos:

O cardiologista tem trinta anos e sua fisionomia pulsante é uma organizada confusão de cateteres e artérias coronárias. A careca minuciosa feito um hemograma, os olhos capazes de controlar o colesterol a distância, as pequenas orelhas de estetoscópio, os dedos finos de bisturi, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do plantonista crônico, obediente à agenda aguda das paradas cardíacas, acostumado ao labirinto circulatório e respiratório do hospital.

O advogado tem trinta anos e sua fisionomia ajuizada é uma organizada confusão de intimações e habeas corpus. A careca minuciosa feito um código penal, os olhos capazes de controlar o processo judicial a distância, as pequenas orelhas de escrivão, os dedos finos de procurador, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do criminalista defensivo, obediente à agenda justiceira dos alvarás de soltura, acostumado ao labirinto doloso e culposo do tribunal.

O matemático tem trinta anos e sua fisionomia cilíndrica é uma organizada confusão de vértices e expressões numéricas. A careca minuciosa feito um algoritmo, os olhos capazes de controlar os fractais a distância, as pequenas orelhas de esquadro, os dedos finos de compasso, tudo isso é compatível com a imagem que fazemos do professor poliédrico, obediente à agenda comutativa das figuras concêntricas, acostumado ao labirinto assimétrico e incongruente da pós-graduação.

Uma variante desse método quase surrealista de descrição de um personagem é usar na descrição o vocabulário não de sua profissão, mas de algo que o personagem goste: um esporte, um passatempo, uma arte (música, cinema, literatura etc.).

Exercício

Descreva um personagem usando o método proposto acima.

O espaço na ficção

17/09/2014

Como subverter a categoria espacial numa obra de ficção?

Adolfo Bioy Casares faz isso em sua narrativa mais famosa, A invenção de Morel.

Numa ilha aparentemente deserta do Pacífico, um fugitivo da lei encontra um grupo de pessoas e passa a espioná-las. Mas essas pessoas, nosso pobre xereta logo descobre, não são de carne e osso. São representações tridimensionais (holografias perfeitas) de turistas que estiveram na ilha, mas já desapareceram.

O conto Chegarão chuvas suaves, de Ray Bradbury, é protagonizado por uma casa deserta, automatizada, numa cidade devastada.

Por sua vez, Robert A. Heinlein concebe, no conto And he built a crooked house, uma casa em forma de hipercubo, com suas faces conectadas à quarta dimensão. Por fora, a casa é um cubo comum. Por dentro, todas as passagens levam a outros cubos, e as janelas abrem para lugares distantes no espaço e no tempo.

O romance de Stanisław Lem, Congresso futurológico, fala do espaço criado apenas em nossa mente, por substâncias alucinógenas. Realidade virtual também é o tema do romance Simulacron-3, de Daniel F. Galouye. Há ótimas versões cinematográficas desses dois livros.

No romance Jumper, de Steven Gould, o herói tem a habilidade de se teletransportar para qualquer lugar do planeta. O livro foi levado às telas pelo diretor Doug Liman.

A redução e a ampliação do espaço acontecem em certos momentos de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E nos filmes Viagem fantástica e Querida, encolhi as crianças. E no seriado que eu AMAVA quando era criança: Terra de gigantes.

O espaço cotidiano também muda em O incrível homem que encolheu, de Richard Matheson. Nesse romance um pai de família de classe média observa que tudo ao seu redor − esposa, filhos, objetos − está ficando maior a cada dia. Ou então é ele quem está encolhendo sem parar.

Outro exemplo de uso inusitado do espaço pode ser conferido no curta-metragem Tango, de Zbigniew Rybczynski, em que ocorre uma hipnótica sobreposição de personagens e ações.

Essa também é a premissa do curta-metragem Le portefeuille, de Vincent Bierrewaerts, em que um rapaz pára perto de uma carteira perdida na sarjeta. A partir daí a história mostra quatro alternativas de desenvolvimento.

Na primeira, o rapaz não vê a carteira e segue em frente. Na segunda, ele pega a carteira e segue em frente. Essa trilha também se bifurca: num caminho, o rapaz embolsa a grana e joga no lixo a carteira vazia. Noutro caminho, ele decide devolver a carteira com o dinheiro. Essa trilha também se bifurca. Num caminho, o rapaz se dá mal. Noutro caminho, nada de grave acontece.

O interessante é que as realidades paralelas acontecem simultaneamente, no mesmo espaço.

Certas gravuras ilusionistas de M.C. Escher também perturbam nossa trivial percepção do espaço tridimensional.

Por fim, no conto A biblioteca de Babel, todo o universo é transformado, por Borges, numa vasta biblioteca composta de um número absurdo de pequenas galerias hexagonais.

Exercício

Escreva uma breve ficção (entre vinte e trinta linhas) em que a categoria espaço seja subvertida de alguma forma.

O tempo na ficção

02/09/2014

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

Narrador, personagem, enredo e linguagem são as que recebem mais atenção dos ficcionistas.

Tempo e espaço, ao contrário, são as categorias que os ficcionistas menos reelaboram e subvertem. Há algo de aparentemente inflexível na noção cotidiana de tempo e espaço, algo que parece fixo e imutável.

Talvez por isso os escritores se esforcem tanto pra manter a corriqueira ilusão espaçotemporal, de índole naturalista.

Podem até inventar narradores excêntricos e personagens bizarros vivendo aventuras insólitas, mas, nos quesitos tempo e espaço, preferem não fugir da tradicional ordem cronológica e geométrica dos fatos. Escolhem reforçar a ilusão de causalidade, em vez de desmontá-la.

Na literatura e no cinema, porém, há exemplos excelentes de narrativas que tratam o tempo de maneira pouco convencional.

No romance Um dia, o narrador de David Nicholls acompanha os protagonistas durante duas décadas, mas cada capítulo focaliza apenas um dia do ano: 15 de julho.

No romance Orlando: uma biografia, Virginia Woolf nos apresenta um protagonista que simplesmente não envelhece. Fenômeno semelhante ocorre com o garoto de doze anos do conto Saudações e adeus, de Ray Bradbury.

No conto O curioso caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald, o protagonista nasce velho, vai rejuvenescendo ao longo da narrativa, até se transformar num feto e morrer.

No conto Viagem à semente, Alejo Carpentier inverte a seta do tempo e a história transcorre como num filme projetado de trás pra frente: os personagens rejuvenescem, os ponteiros do relógio giram no sentido contrário, a fumaça entra na chaminé, a água sobe para a torneira etc.

Um romancista brasuca, partindo da mesma premissa, conseguiu subverter não só nossa trivial noção de tempo, mas também de leitura. O romance Um minuto, de Newton Cesar, pede pra ser lido de trás pra frente. Você começa pela última linha, lá na página 197, vai subindo, vai voltando, e termina na primeira linha da página 9. No plano narrativo, o tempo também retrocede para o protagonista inicialmente velho e senil, que vai rejuvenescendo, ganhando saúde e agilidade.

No curta-metragem Palíndromo, de Philippe Barcinski, a projeção-de-trás-pra-frente faz de uma narrativa banal algo muito interessante.

No romance O jogo da amarelinha, Julio Cortázar embaralha a ordem dos capítulos, propondo ao leitor que leia na seqüência que preferir.

Numa passagem do romance Ubik, de Philip K. Dick, os personagens permanecem os mesmos, mas a tecnologia e os objetos retrocedem: um computador de última geração se transforma num computador de vinte anos atrás, depois numa máquina de escrever, o mesmo acontecendo com as roupas, os automóveis, os edifícios etc.

No filme O feitiço do tempo, de Harold Ramis, o protagonista fica preso numa fatia de tempo e é obrigado a reviver o mesmo dia inúmeras vezes. Essa divertida premissa já foi usada em muitas outras obras de ficção literária e audiovisual.

Em Amnésia, Christopher Nolan inverte o calendário, contando uma história de trás pra frente (o primeiro capítulo é na verdade o último da ordem cronológica). O mesmo ocorre no longa-metragem Irreversível, de Gaspar Noé, e no magnífico curta-metragem T.R.A.N.S.I.T., de Piet Kroon.

Em Corra, Lola, Corra, de Tom Tykwer, o tempo cronológico apresenta bifurcações que a protagonista consegue reavaliar quando a escolha inicial dá errado. Esse filme realiza na tela a premissa de um conto de Jorge Luis Borges, o genial Exame da obra de Herbert Quain.

Outra forma de subverter a causalidade numa narrativa é fazer o herói viajar no tempo e alterar um fato histórico qualquer. Ou encontrar seus múltiplos eus do passado e do futuro.

A maioria dos escritores de ficção científica já escreveu sobre viagens no tempo. Bons exemplos na literatura e no cinema não faltam: A máquina do tempo, de H.G. Wells, O fim da eternidade, de Isaac Asimov, a trilogia De volta para o futuro, de Robert Zemeckis, etc. O número de exemplos é quase infinito.

No divertido conto All you Zombies, de Robert A. Heinlein, um viajante no tempo descobre que é, nada mais nada menos, pai e mãe de si mesmo. Esse conto ganhou uma boa adaptação para as telas, intitulada O predestinado, dirigida pelos irmãos Michael e Peter Spierig.

No conto O outro, de Borges, o velho Borges tem uma provocativa conversa com o jovem Borges.

No filme brasuca O homem do futuro, de Cláudio Torres, o protagonista encontra-se com outros dois eus de épocas diferentes.

Exercício

Escreva uma breve ficção (entre vinte e trinta linhas) em que a categoria tempo seja subvertida de alguma forma.

Comentário:
Qualquer hora, se conseguir reunir a habilidade e o talento necessários, quero escrever a história de um sujeito que tem quarenta anos, no dia seguinte volta a ter oito (mas se lembra que já teve quarenta), no outro dia salta para os oitenta (sempre se lembrando de tudo) e assim por diante, coitado.
Se essa história já foi contada num livro ou filme, por favor, me avisem. Vou querer ler-assistir.

Post-scriptum de 2014: o longa-metragem Shuffle, de Kurt Kuenne, lançado em 2011, é exatamente essa história. O filme narra a desventura de um sujeito cuja cronologia está fora de ordem, embaralhada. A cada dia ele acorda numa idade diferente, num dia diferente de sua vida, indo e voltando na linha cronológica, e sempre se lembrando de tudo.

Anotações sobre o conto

13/08/2014

Em março deste ano teve início o Ateliê Permanente de Criação Literária, na Oficina da Palavra – Casa Mário de Andrade, em São Paulo.
Os gêneros conto e crônica são o foco principal do Ateliê, e as anotações abaixo formam parte da base teórica das atividades de escrita.

Anotações sobre o conto

O território comum da literatura e da biologia é a anatomia.

Literatura e biologia produzem organismos que podem ser desmontados, analisados e catalogados. Mas esse movimento reducionista jamais foi capaz de aprisionar o mistério da criação.

Nas livrarias e nas bibliotecas existem quase duas dezenas de obras que teorizam sobre as formas literárias, dando dicas, comentando exemplos etc. Mas o estudo dessa bibliografia garante muito pouco durante a escritura de um conto ou um poema.

As anotações abaixo são uma simplificação didática, apenas isso: um desenho bastante esquemático, mostrando quais são os órgãos vitais de qualquer narrativa curta ou longa.

São o ponto de partida para saborosas conversas sobre as ficções que mais amamos. Debates descontraídos. Informais. Acompanhados de um bom fermentado ou destilado.

Eu duvido que exista, além da anatomia, uma fisiologia das formas literárias, ou seja, a ciência do funcionamento dos órgãos vitais de qualquer obra em prosa ou verso. Se existir, deve ser uma especialidade tão complicada e esotérica que não valerá a pena se preocupar com ela.

Teoria e prática é um casamento virtuoso. Mas na hora de escrever vale mais a prática excessiva do que a teoria exagerada.

[ Querido contista em início de carreira, não siga em frente antes de ler o artigo Reflexões sobre as antigas reflexões sobre o conto: parte 1 e parte 2. ]

Categorias da narrativa

As categorias da narrativa são basicamente seis: narrador, personagem, tempo, espaço, enredo e linguagem.

O narrador e o personagem principal (protagonista) formam o centro gravitacional de qualquer narrativa. Ao redor deles gira todo o universo ficcional.

Os personagens se dividem em protagonista, antagonista e coadjuvante.

Muitas vezes o narrador é o protagonista ou um coadjuvante muito ligado a ele.

Não é exagero dizer que o protagonista é o elemento mais importante de uma narrativa. É do personagem principal – seu drama, suas ações, sua personalidade, seus conflitos internos e externos etc. – que os leitores mais se recordam, anos depois da leitura de um conto, uma novela ou um romance de que gostaram.

Os heróis da ficção são geralmente mais famosos do que os ficcionistas que lhes deram a vida. É mais fácil se lembrar da história de Ulisses, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Anna Karenina, Macabea ou Riobaldo do que da biografia dos autores que dedicaram tempo e talento na escritura dessas histórias.

Tipologia do narrador

Narrador em primeira pessoa
Protagonista: o herói conta sua história.
Coadjuvante: um amigo ou parente do protagonista conta a história, mantendo-se em segundo plano.
Exemplos famosos de narradores-coadjuvantes estão em Um estudo em vermelho, de Arthur Conan Doyle, A cidade e as serras, de Eça de Queirós, O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, Doutor Fausto, de Thomas Mann, e On the road, de Jack Kerouak.

Narrador em segunda pessoa
É o tipo mais raro de narrador. Trata-se basicamente de uma voz personificada, que narra e comenta as ações do protagonista, dá conselhos a ele, divaga, irrita-se, comove-se, sem jamais se corporificar na trama.
Somente o leitor escuta o narrador em segunda pessoa, mas este jamais fala com o leitor. O narrador em segunda pessoa fala apenas com o herói, mas este jamais escuta o que ele diz.
Narrador, protagonista e leitor vivem em planos existenciais diferentes.
Todos os contos da coletânea A vida é fêmea, de Homero Fonseca, são narrados em segunda pessoa.
Outro bom exemplo de narrador em segunda pessoa está em Como ficar podre de rico na Ásia emergente, de Mohsin Hamid.
Três capítulos de É assim que você a perde, de Junot Díaz, também apresentam esse narrador incomum.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente discreto ou neutro: narra de maneira objetiva e imparcial, sem se envolver emocionalmente com a história que está contando.
Onisciente intruso ou intrometido: narra de modo passional, envolvendo-se emocionalmente com a história que está contando.
Onisciente polifônico ou em transe: narra de maneira exaltada, às vezes delirante. Sua fala desordenada mistura a primeira, a segunda e a terceira pessoa. Sua linguagem é o discurso indireto livre, o monólogo interior ou o fluxo de consciência.

É bom frisar que a tradicional onisciência não é um atributo essencial do narrador.

O narrador onisciente, o próprio nome já diz, é o deus que sabe tudo não apenas do protagonista mas de todos os personagens e da história inteira. Não há detalhe ou segredo que ele não conheça. Seu alcance cronológico e geográfico é enorme. Está familiarizado com o desenlace antes mesmo que aconteça.

Muitos ficcionistas, porém, preferem evitar a onisciência do narrador: tiram dele o conhecimento absoluto, fazendo-o acompanhar bem de perto apenas o protagonista. Narrador e herói agora compartilham a mesma perspectiva e testemunham os mesmos eventos, sem saberem o que virá em seguida.

Mas esse narrador ainda mantém a habilidade de ouvir os pensamentos do protagonista, de conhecer sua vida subjetiva.

Há ficcionistas que tiram até isso de seu narrador, limitando-o a apenas descrever, de fora, o que está acontecendo.

O narrador volúvel e pouco confiável – em primeira, segunda ou terceira pessoa – é outra alternativa bastante estimulante, à disposição do ficcionista que deseja fugir do lugar comum. Esse narrador sonega informação e distorce certos fatos, a fim de melhorar sua reputação e ludibriar o leitor.

Modo dramático
À maneira do teatro: discurso direto, feito apenas de diálogos, às vezes com breves indicações de cena. Pode ser levado ao palco facilmente.
Muitos ficcionistas parodiaram certas formas de diálogo (catecismo, entrevista, inquérito policial, conversa no telefone, na rede social, interrogatório no tribunal etc.) na composição de narrativas incomuns.

Narrador-montador
Típico de narrativas experimentais, esse narrador intangível promove a colagem ou a montagem de fragmentos de textos (incluindo bilhetes, cartas, documentos, horóscopos, matérias de jornal e revista etc.) e imagens (desenhos, fotos, tíquetes, rótulos, anúncios de jornal e revista, partituras etc.).

Não é frequente, mas uma narrativa pode fazer uso de mais de um tipo de narrador.

Exemplos

Narrador em primeira pessoa
Protagonista
Ladeira desgraçada, roubou todo o meu fôlego. Paro um minuto pra cuspir. Abro a jaqueta e limpo os óculos na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Pulo o muro do quintal e fico observando a maçaneta da porta dos fundos à luz da lua. Minha experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Mau sinal: a porta está destrancada. Abro bem devagar. Empunho a lanterna e o revólver roubados do meu padrasto, minhas mãos tremem. Antes de entrar, olho em volta. Pode ser uma armadilha.

Narrador em primeira pessoa
Coadjuvante
Ladeira desgraçada, meu amigo resmunga, apoiando-se em mim. Paramos pra cuspir e recuperar o fôlego. Turco abre a jaqueta e limpa os óculos na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Turco pula o muro do quintal e fica observando a maçaneta da porta dos fundos à luz da lua. Sua experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Mau sinal: a porta está destrancada. Turco abre bem devagar. Empunha a lanterna e o revólver roubados do seu padrasto, suspeito que suas mãos tremem. Antes de entrar, Turco olha em volta. Pode ser uma armadilha.

Narrador em segunda pessoa
É verdade, meu amigo: ladeira desgraçada. Pare um minuto pra cuspir e recuperar o fôlego. Teus óculos estão imundos, limpe na ponta da camiseta. Todas as luzes da casa estão apagadas. Hora de pular o muro do quintal. Vai ficar encarando pra sempre a maçaneta da porta dos fundos? Tudo bem, querido. Eu sei que sua experiência com arrombamentos é absolutamente zero. Epa! Mau sinal: a porta está destrancada. Abra bem devagar, Turco, bem devagar. Está esperando o quê pra empunhar a lanterna e o revólver? É, neguim, a lanterna e o revólver roubados do teu padrasto. Tuas mãos estão tremendo? Fique atento. Pode ser uma armadilha.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente discreto ou neutro
Uma névoa leitosa realça o inverno.
Bruno desce do táxi, entra no saguão do hotel, acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra Simone. Não devia ter confiado nela, pensa.
– A reunião foi péssima. Ele não assinou o contrato. Você precisa vir pra cá agora mesmo.
– Ficou louco? – ela boceja. – É quase meia-noite. Não posso.
– Você me enfiou nessa embrulhada. O desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro. Você precisa pagar ao menos a conta do hotel.
– Amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo – sua fala está mais fraca, sem emoção. – Agora não dá mesmo. – Outro bocejo. – Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente intruso ou intrometido
Uma névoa leitosa realça o maldito inverno. Cidade do caralho. Frio da porra.
Bruno desce do táxi, entra no saguão do hotel, acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra quem? Pra idiota da Simone, é claro. Confiar nessa vagabunda foi a maior besteira de sua vida.
– A reunião foi péssima. Ele não assinou o contrato. Você precisa vir pra cá agora mesmo.
– Ficou louco? – Um bocejo, essa não, ela bocejou mesmo. – É quase meia-noite. Não posso.
– Você me enfiou nessa embrulhada. O desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro. Você precisa pagar ao menos a conta do hotel.
– Amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo. – Sua fala está mais fraca, sem emoção. Putinha covarde. – Agora não dá mesmo. – Outro bocejo. – Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Narrador em terceira pessoa
Onisciente polifônico ou em transe
Uma névoa leitosa realça o maldito inverno, cidade do caralho frio da porra, Bruno desce do táxi entra no saguão do hotel acomoda-se na poltrona mais distante da porta e telefona pra quem?, pra idiota da Simone é claro, ah imbecil, confiar nessa vagabunda foi a maior besteira de sua vida, Bruno explica que a reunião foi péssima ele não assinou o contrato você precisa vir pra cá agora mesmo, Simone boceja e resmunga ficou louco? é quase meia-noite não posso, você me enfiou nessa embrulhada o desgraçado não assinou o contrato nem transferiu o dinheiro você precisa pagar ao menos a conta do hotel, amanhã cedo eu passo aí e acerto tudo, sua fala está mais fraca sem emoção putinha covarde outro bocejo, Bruno insiste, ela desconversa agora não dá mesmo Otávio já está desconfiando dessas escapadas fora de hora.

Personagem

Um bom modo de firmar a fisionomia, o temperamento e o caráter de um personagem, seja ele o protagonista, o antagonista ou um coadjuvante, é respondendo um questionário simples.

O escritor deverá fazer isso antes mesmo de começar a escrever o conto.

A ficha abaixo, do protagonista, é somente um modelo que poderá ser modificado e incrementado de acordo com as circunstâncias.

Ficha do protagonista

Nome:
Apelido:
Data e local de nascimento:
Sexo:
Etnia:
Classe social:
Altura e peso:
Estado civil:
Escolaridade:
Religião:
Extrovertido ou introvertido:
Profissão:
Passatempo:
Prato preferido:
Fale um pouco de sua mãe:
Fale um pouco de seu pai:
Tem irmãos?
Grande amor de sua vida:
Quando perdeu a virgindade:
Um problema de saúde:
Maior virtude:
Pior vício:
Um segredo inconfessável:
Maior desejo (secreto ou não):
Acredita na imortalidade da alma?
Acredita em civilizações extraterrestres?
Frase predileta:
Outros dados importantes:
Quem ou o quê é seu antagonista?
Quando e como morreu:

Dica: quando for definir o segredo inconfessável, pense em algo realmente vergonhoso. Nesse segredo abjeto pode estar o principal conflito da narrativa.

Se o protagonista não for uma pessoa, mas um animal, um vegetal, um objeto ou uma força da natureza, outras perguntas mais pertinentes deverão ser formuladas pelo escritor.

Questões sobre a raça, o pelo ou as penas ou as escamas do animal; sobre os ramos, as folhas, o fruto e as flores do vegetal; sobre o material, o peso e as dimensões do objeto; sobre a intensidade e a constância da força da natureza (tornado, tempestade, vulcão etc.).

Nos casos em que o animal, o vegetal, o objeto ou a força da natureza forem personagens antropomorfizados, boa parte da ficha acima poderá ser usada. Um gato, uma orquídea, uma cadeira ou uma nuvem com características humanas podem ser extrovertidos ou introvertidos, ter um passatempo, um grande amor, virtudes e vícios, um segredo inconfessável…

E todos têm, sem exceção, um antagonista. Do contrário faltaria o combustível fundamental de qualquer enredo: o conflito.

Exercícios

Usando o narrador em segunda pessoa e a ficha do protagonista preenchida, escreva um breve texto (entre dez e quinze linhas) sobre o tema: o protagonista sai de casa.

Segundo exercício: o conflito.
Usando o modo dramático (discurso direto), escreva sobre o tema: o protagonista encontra seu antagonista.

Terceiro exercício: um momento marcante.
Usando o foco narrativo de sua preferência, escreva sobre o tema: o protagonista encontra a morte.

Indicações de leitura
Antonio Candido e outros autores: A personagem de ficção, editora Perspectiva.
David Lodge: A arte da ficção, editora L&PM.
Ítalo Moriconi (organização): texto introdutório de Os cem melhores contos brasileiros do século 20, editora Objetiva.
Ligia Chiappini Moraes Leite: O foco narrativo, editora Ática.
Massaud Moisés: capítulo sobre o conto, em A criação literária (volume 1), editora Cultrix.
Nádia Battella Gotlib: Teoria do conto, editora Ática.
Ricardo Piglia: Teses sobre o conto e Novas teses sobre o conto, em Formas breves, editora Companhia das Letras.