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Mensagem de Sandra Schamas

10/03/2017

Capinha

Distrito Federal, uma rapsódia de Luiz Bras
Ilustração e diagramação de Teo Adorno
Editora Patuá, São Paulo, 2014

Bela edição de capa dura com ilustrações interessantes e intrigantes.

Já na assinatura do autor uma novidade: um carimbo anunciando o enredo próximo, em forma de labirinto (talvez um mapa de metrô).

Meu caro amigo Luiz,

Apesar de ter feito parte de um grupo de estudos de crítica literária por três anos, apesar de ter me dedicado e me esforçado, o que mais aprendi é que não sou boa nisso. Não sei fazer a análise de uma obra de modo acadêmico, tampouco sei dissecá-la como um cirurgião. Só posso dizer que o livro me captura e eu embarco na viagem e vou traduzindo para a emoção as palavras escolhidas pelo autor.

Distrito Federal não me capturou de cara, fiquei olhando para ele uns bons meses antes de me aventurar na leitura. Nesse processo, confesso, também demorou um tempo para que eu me envolvesse com a complicada trama, talvez por ficar encantada justamente com a escrita em si. Linda, limpa, culta, sonora, poética quase sempre, violenta e escatológica às vezes. Escrever bem é uma expressão pobre para o que você faz. Ainda não sei dar um adjetivo adequado.

O detalhe da página de rosto avisando que é uma rapsódia é fundamental e poderia passar despercebido. O livro é uma rapsódia mesmo, uma mistura de prosa e poesia, e uma ode à loucura dos dias de hoje, tendo em vista que cada parágrafo é um módulo sonoro e semântico.

Nem que você quisesse, não dá para esconder sua vasta cultura e seu cuidado nas mínimas referências, incansável nas pesquisas, eu acredito.

Fiquei impressionada com a sua sensibilidade em relação à vida de um modo geral. Tudo te afeta, tudo. As pessoas e seu comportamento bizarro, o planeta, a tecnologia, o meio-ambiente e todos esses assuntos polêmicos, como a questão de gênero, da opção sexual, do politicamente correto. De um modo muito sofisticado você se vinga traduzindo a raiva que sente de todas essas injustiças nessa história tão fantasiosa e tão real ao mesmo tempo.

Você se lembra do filme Minority Report, de 2002, em que a polícia detecta e impede crimes que estão para acontecer? Então, enquanto lia eu me lembrava daqueles seres sensitivos que ficam numa piscina de água morna, que muito me impressionaram no filme. Me senti como eles, suscetível à qualquer interferência minimamente brusca.

Bem, vamos ao livro:

O livro se divide em três partes: Teoria do caos, Deus ex-machina, Segredos & milagres.

Teoria do caos
Durante a leitura tive a impressão de estar num videogame doido e violento ou dentro do livro ou do filme Alice no País das Maravilhas. O texto é dividido em blocos que se repetem, às vezes completamente, às vezes não, mas é isso que vai dando sentido à trama.

Poderia descrever esse método que você criou de uma maneira muito visual: são cirandas fantásticas girando ao mesmo tempo, uma máquina cheia de engranagens, e o leitor vai pulando de uma para a outra a fim de poder entender o absurdo da história e perceber que ela não é tão absurda assim. Essas rodas vão descrevendo o nosso mundo hoje, bem ruinzinho como está.

Seu livro também me fez lembrar um videoclipe onde a graça é ter muitas informações acontecendo ao mesmo temo: a música, as imagens, as colagens rápidas e todas em movimento. Para ser honesta, tenho dificuldade em assistir videoclipes, fico meio tonta e logo me canso. Com seu livro comecei assim também, não foi uma leitura fácil para mim, mas acabou me encantando pela sofisticação.

Me veio à mente também um texto de Oliver Sacks que acabei de conhecer na oficina que estou fazendo. Olha só:

“Em novembro de 1965, eu consumia doses enormes de anfetaminas todos os dias e depois, não conseguindo dormir, consumia doses enormes de hidrato de cloral, um hipnóide, todas as noites. Certo dia, sentado num café, comecei a ter as alucinações mais desvairadas, que vieram de repente, como descrevi em A mente assombrada.”

Entendi que a brasilidade, os seres mitológicos brasileiros são os que se vingam de modo muito violento de toda essa corrupção e desse caos social que a gente vive. Um currupira e uma saci incorporam dois humanos, ou o que restou de humanidade nos seres, saem fazendo chacinas, estripando, espalhando órgãos e fazendo das vísceras obra de arte. Dá prazer ler isso porque a vontade de acabar de modo bem cruel com cada filho da puta que está nos poderes grandes e pequenos é real. Deve ser muito bom poder jogar esse game e ver o sangue dessa gente espirrando pra todo lado.

O que era o cerrado virou uma imensa metrópole, com uma ilha de clorofila aqui outra ali. Há esperança.

Adorei a comparação de um político a um bacilo, uma força da natureza irracional e destrutiva com a qual não adianta querer argumentar. Discutir com um bacilo? Genial. A afirmação de que cada vez que um corrupto recebe uma propina uma galáxia inteira se apaga… Muito bom.

Os demônios decadentes, os obtusos (duros e moles) omissos porque a lei os impede de sentir, a matéria programável, as detalhadas regras de etiqueta e a fome… Uns passam fome, outros explodem de tanto comer… Nossa! Demais. Os cheiros, as porcarias e descrições absurdas e interessantíssimas, como, por exemplo, uma metralhadora líquida.

Morri de rir com uma frase sua: “preferia um mundo sem bocas, sem cu, sem mandíbulas taradas”. A reflexão sobre o sistema penal e carcerário é incrível, entra até aquela menina que matou o pai e a mãe, “o mundo não precisa de pena de morte, precisa de justiça”. Obras paradas com mato tomando conta… Que tristeza que é isso em nosso sitema. O Face a Face e a brain-net são sacadas brilhantes. Enfiar cotovias vivas na goela dos consultores financeiros, guaixinins no rabo dos diretores de empresas de cartão de crédito, que maravilha.

Nesse primeiro segmento, do que eu mais gostei foi a ideia de que somos viciados no cheiro da corrupção. Pura verdade.

Deus ex-machina
O ritmo se acalma com a justiceira menina-menino e a protetora esfera-cubo-pirâmide, o útero protetor que me lembra o filme A bolha assassina.

“Uma dose de morango sustenido e framboeza bemol” é dez.

Para exemplificar a sofisticação, a sonoridade e a escolha das palavras separei esse trecho:

“A esfera-cubo-pirâmide pensou ter visto o clarão obscuro, o ruído silencioso do seu próprio reflexo esférico-cúbico-piramidal no fundo da reentrância nebulosa. Podia ser apenas um conjunto de memórias misturadas.”

Raízes-tentáculos, pétalas-pinças e espinhos-agulhas são escolhas sensacionais. Gosto também dos neocarcereiros da prisão mental e da libertação da menina-menino dessa terrível prisão.

Segredos & milagres
Nessa última parte a gente volta a lembrar que está em um game e já traz aquela sensação de que as coisas podem melhorar, quando o corrupto começa a sentir medo.

A metrópole aparece com mais presença e a afirmação de que uma cidade superpovoada é o lugar ideal para a solidão é verdadeira, na minha opinião. Estar entre muitos também é uma forma de solidão. Me identifiquei.

Brasília passa a ter músculos e artérias, a metrópole evolui e começa a destruir os humanos (ou quase humanos), e vai se tornando inteligente porque “a evolução jamais barganha, mesmo quando chantageada”, e a cidade se transforma numa gigante centopéia. A chuva ácida dá arrepios e os fedores são nojentos… Os fiscais da prefeitura continuam sendo estripados, a bolha volta, o medo aumenta, a merda se espalha.

Nesse mundo imundo até os grafiteiros aparecem como mais uma coisa que a gente não sabe nem o que pensar nestas alturas do campeonato. Direito do cidadão, a cidade para todos e as polêmicas que surgiram com as medidas do prefeito-coxinha… Como seu livro é de 2014, acho que foi uma profecia.

A imoralidade corrompeu a civilização e essa gente louca acabou com a natureza.

Nesse final é revelado que foram os robôs que fizeram as ilustrações. Faz sentido.

Caótico e violento é o final e mil anos se passam. Depois, luzes se aproximam, ou seja, há luz no final do túnel. Apesar de não estar evidente, o final é cheio de esperança e a gente se sente de alma lavada por ter imaginado tanta vingança. Mas achei positivo, difícil de acompanhar mais superpositivo.

Meu amigo Nelson-Luiz-Teo, que viagem!

Eu nunca tinha lido nada parecido e ainda estou sob o impacto de tanta ação.

Pelo seu livro pude avaliar sua inteligência, sua cultura, seu domínio da língua, sua criatividade e sua imaginação. E bota imaginação nisso! Foi minha primeira leitura de um livro de literatura fantástica de qualidade. Enfim…

Essa foi uma tarefa difícil, como escrever a você, a quem admiro e a quem considero um mestre, as minhas impressões sobre seu livro? Não tinha outro jeito a não ser com o coração.

Me sinto honrada com a tarefa e esse exercício me fez pensar muito sobre a literatura em geral. De que modo ela pode, e vai, evoluir para sair da mesmice, e como eu posso me adaptar a uma nova era, porque é o que eu acho que vai acontecer.

Muito obrigada, meu caro amigo, por deixar que eu entrasse no Distrito Federal e vasculhasse tudo.

Grande abraço,

Sandra

[ Feicibuqui, dia 9 de março de 2017 ]

“Pequena coleção de grandes horrores” por Ana Peluso

16/10/2015

CapaPCGH

Nem que eu quisesse resumir PEQUENA COLEÇÃO DE GRANDES HORRORES, de Luiz Bras (Editora Circuito, 2014), a um complexo, porém elegante, desconcertante, eu poderia. O livro é mais do que isso. É também, e principalmente, inquietante. Irreverente, irônico, icônico, poético, bem-humorado, intertextual, inventivo, pós-humano, existencialista até, e talvez por isso tudo um desconcertante não baste. Não espere ler o livro de cabo a rabo, como se fosse um conjunto de relatos cheios de lugar-comum. PEQUENA COLEÇÃO DE GRANDES HORRORES está longe do lugar-comum e das saídas prontas e facilitadas. Cada conto (micro ou maxi) é uma porrada, um espanto, como, de certa forma, sugere o próprio título do livro. Há idiomas a serem decifrados. Algumas sementes de DISTRITO FEDERAL (do mesmo autor, Editora Patuá, 2014) estão lá. É difícil deixar um conto e passar ao próximo, e do próximo ao próximo, pois todos têm universos muito próprios, estruturas que se definem muito bem no imaginário do leitor, e o que eu mais aprecio em literatura: personagens e situações nada convencionais. O resultado disso é que você vai ficar preso ao livro, e mesmo quando finalizar sabe que sempre vai retornar. Comigo, por exemplo, algumas estórias (ou seriam histórias?) me chamam para serem relidas já, de imediato, de forma que, se houver algo urgente a ser tratado comigo, encabece o rol de espera, pois no momento me encontro boquiaberta e pensativa, sem muita reação ao dito mundo real, no final das contas tão bem representado aqui pelo ideário fantástico do autor.

[ Ana Peluso é autora da coletânea 70 poemas, lançada em 2014, pela Patuá ]

“Pequena coleção de grandes horrores” na Musa Rara

24/07/2015

Musa Rara

A escritora Fátima Brito, autora da coletânea de contos Entre o elevador e a praça (Patuá), escreveu linhas preciosas sobre a vasta brutalidade e a breve leveza disseminadas na Pequena coleção de grandes horrores.

Para ler a resenha, basta clicar aqui.

“Paraíso líquido” resenhado por Clayton de Souza

23/07/2015

ParaisoLiquido

Não são poucas as surpresas que aguardam o leitor (principalmente o mais pragmático, infenso às narrativas mais delirantes) nas páginas inusitadas de Paraíso líquido, primeiro livro de contos do escritor Luiz Bras, que alinha a literatura de especulação sobre o ser humano à mais pura ficção científica. Ao folhear atentamente essas páginas, o leitor adentrará um terreno em que convivem pacificamente Borges e Blade runner, Kafka e Neon Genesis Evangelion, ou Matrix.

Luiz Bras é um escritor aguerrido à causa dessa literatura tão pouco considerada nos meios mais sisudos de nossa alta cultura. E como leitor já tarimbado da tradição literária universal (os seguidores de sua coluna mensal no Jornal Rascunho podem atestar isso com facilidade), e não menos versado no que há de mais notório na ficção científica (Neuromancer, Eu, robô etc.), trata de operar uma alquimia consistente entre estes polos, e o resultado passa longe do irrisório.

Como exemplos, cabe a menção a contos como Aço contra osso, Memórias e Futuro presente, onde em situações transreais como uma caçada humana a um programa que assimila seres vivos, um jogo de manipulação mental envolvendo dois hackers e uma mãe e sua filha, ou uma trama que gira em torno de uma crise global envolvendo três líderes mundiais e uma compulsiva e astuta assistente, respectivamente, é desenvolvido um jogo de espelhos e identidade além de equações simétricas e fascinantes, elementos que nos enlevam na prosa borgiana, como em O jardim dos caminhos que se bifurcam.

Outro elemento recorrente são as situações que envolvem tais contos, quase sempre entre o colapso da realidade e o momento apocalíptico. Em ambos, o humano e o tecnológico se entrecruzam, e a web é a instância última da realidade, a contestá-la ou a transcendê-la, rumo a uma dimensão de conhecimento mais vasta que a mera realidade. É o labirinto em que a consciência (alterada ou não artificialmente) se vê enredada, como nos contos Nuvem de cães-cavalos, Nostalgia e Singularidade nua: o ser humano é sempre o títere do universo da informática, mesmo quando aparenta ser o manipulador consciente para quem ela, a informática, é mero instrumento de suas pretensões sub-reptícias (Memórias, Singularidade nua).

Estilisticamente, há que se ressaltar a intensa criatividade do autor, mesmo quando suas fábulas fazem menção ou nos lembram obras como O vingador do futuro, ou Blade runner. Pasma-se o leitor quando, entre um conto e outro, se depara com uma teia tão complexamente tecida, em quase nada remetendo uma à outra. Sua escrita é simples e acessível, embora imbuída de termos próprios do gênero, como nanotecnologia ou hiper-realidade. Sua habilidade na construção textual permite inclusive construir um conto, Déjá-vu, que pode ser lido de trás para frente, alterando no processo a noção temporal dos fatos.

Por fim, Paraíso líquido é desses livros que se originam de um criativo processo alquímico cujo resultado vale a pena ser conferido até pelo leitor mais recalcitrante. Suas prerrogativas sustêm a leitura, e, mais importante, fecundam a reflexão durante e após o processo.

Clayton de Souza

“Pequena coleção de grandes horrores” no LiteraturaBr

24/04/2015

CapaPCGH

Preciosa avaliação de minha coletânea de humor negro, feita pelo escritor Marco Aqueiva, autor de Sob os próprios pelos: seres extraordinários (Patuá).
Para ler a resenha, basta clicar aqui.

“Distrito federal” na revista Germina

13/04/2015

Curupira colorido

O romancista Ricardo Josua resenhou a rapsódia Distrito federal para a revista Germina, das queridas Mariza Lourenço & Silvana Guimarães.
Para ler, basta clicar aqui.

Mensagem do Ademir Assunção

08/04/2015

Curupira-ciborgue

Caro Luiz,

Desde Cidades da noite escarlate (William Burroughs) um livro não me impressionava (assustava, talvez seja um termo melhor) tanto quanto Distrito federal. Genial a maneira como você realizou a simbiose de xamanismo e alta tecnologia. O justiceiro-curupira, vingando o extermínio das forças naturais com requintes de crueldade, a narrativa ambígua (tudo leva a crer que se trata de um game sendo jogado no terreno da hiper-realidade), o narrador inteligência-artificial, enfim, toda a trama e a maneira como foi construída remetem a uma Matrix mais radical e muito mais crítica.

Mais do que um livro muito bem escrito (há longos trechos memoráveis), é um livro muito bem pensado, com uma imaginação vertiginosa. Mais que um livro bem escrito e bem pensado: uma parábola da falência de um modelo de civilização, mais do que um modelo político a ou b, com seus excessos de produção e consumo, inclusive os excessos de produção incessante de realidades. Um trecho em especial me chamou muitíssimo a atenção (entre vários outros): a iniciação da personagem Moema. A fragmentação do corpo, as partes cozinhadas no caldeirão e a recomposição do corpo, ora: isso é rito clássico de iniciação xamânica! Quem conhece os relatos vai perceber. Tenho a impressão que Roberto Piva iria uivar três dias seguidos com teu livro! Para mim, junto com Subsolo infinito e Sozinho no deserto extremo, Distrito federal forma uma trilogia perturbadora. Com uma diferença: Subsolo infinito me parece uma viagem xamânica dantesca, Sozinho no deserto extremo uma ficção científica da pesada, Distrito federal uma crítica arrasadora dos caminhos que estão se anunciando com nitidez assustadora.

Só faria um reparo: acho que poderia ter concluído a narrativa na parte Deus ex machina, usando-a mesmo como um recurso deus ex machina, encontrando um fecho ali mesmo. Pode ser que tenha me escapado algo das suas intenções, mas achei que depois dessa parte começou a se repetir um pouco. Não quero bancar o chato, o estraga-prazer, talvez seja apenas uma percepção equivocada da minha parte. De todo modo, isso não tira a força, a surpresa, o espanto com a engrenagem alucinante que é Distrito federal.

Crossroads (Furio Lonza), Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida (a despeito de ter sentido falta de um desfecho melhor) e Distrito federal formam o tripé dos livros de ficção que mais me impressionaram nos últimos tempos. Três grandes obras de ficção contemporânea. Parabéns, você conseguiu. E não é a primeira vez.

Um abraço,

Ademir

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Desde que tomei contato com a poesia de Ademir Assunção, nos longínquos anos 90, esse guerrilheiro-outsider se tornou uma figura importante em meu imaginário criativo. Depois fui conhecer suas outras facetas, de jornalista e ficcionista transgressor, de performer e músico atrevido, e elas ampliaram a impressão original. Ademir faz parte do grupo reduzido de xamãs tresloucados que há duas décadas eu admiro bastante.

Então, receber desse mestre mestiço uma avaliação tão generosa (na verdade, duas avaliações, contando também a do feicibuqui, reproduzida abaixo), pra mim é o mesmo que receber um prêmio literário. Suas palavras sobre o Distrito federal e os outros dois romances bateram forte, emocionaram até.

Repito: sempre encarei o trabalho do Ademir como um dos mais relevantes e autoconscientes da cena atual. E não sou o único. Vasculhem a web. Há uma multidão de escritores e artistas de todos os escalões que admiram o cara. Ora, quando um autor do seu nível comenta espontaneamente um trabalho meu, porra, isso é ducaralho.

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O cheiro insuportável da corrupção

Uma entidade sobrenatural ocupando o corpo de um hospedeiro natural passa a executar todos os corruptos que consegue encontrar.

Para ser mais exato: um curupira, ocupando um corpo humano, ou melhor, meio humano, meio biônico.

Essa entidade tem um faro infalível para identificar os corruptos.

Seu faro está acima dos ritos jurídicos dos humanos.

Um humano é falível, pelos mais diversos motivos: um juiz do supremo tribunal federal pode absolver um notório corrupto, por erro ou por conveniência, afinal, um juiz do supremo tribunal federal também pode ser um notório corrupto; ou pode condenar um inocente, também por erro ou conveniência, afinal, um juiz corrupto do supremo tribunal federal pode condenar um inocente para encobrir os crimes dos verdadeiros corruptos, inclusive os dele.

O faro dessa entidade, não. É infalível. Ela sente o cheiro do corrupto. E o cheiro do corrupto para ela é insuportável.

Por isso ela parte para a condenação.

E a condenação é a execução sumária do corrupto.

Mas não se trata de uma execução vulgar.

A entidade é um artista. Suas execuções são verdadeiras obras de arte.

Ela eviscera os corruptos.

Com precisão cirúrgica e genialidade artística.

Ela retira os rins, o baço, a bexiga, o pâncreas, o fígado, o intestino grosso e o delgado, os olhos (tomando o cuidado de manter o nervo ótico intacto), os pulmões e o coração do corrupto. Vivo, é claro.

Ela dispõe cuidadosamente todos os órgãos e vísceras ao lado do corpo do corrupto, num arranjo excepcional, verdadeiramente artístico.

Ela faz isso com senadores, deputados, líderes de bancadas, juízes, governadores, fazendeiros, industriais, usineiros, banqueiros, autoridades militares, empresários – somente os corruptos, pois, como já se disse, seu faro é infalível. Nenhum inocente é condenado. Nenhum culpado escapa.

Esse é o jogo, o game, de Distrito federal, novo livro de Luiz Bras. Uma rapsódia genial e assustadora.

Assustadora por quê?

Porque uma gangue de imitadores, sem o mesmo faro e sem o mesmo talento artístico, passa a imitar o mestre.

E aí, não se sabe o que pode acontecer, pois eles podem começar a eviscerar todos os que cometem qualquer tipo de corrupção moral: desde os motoristas que param o carro na vaga de deficientes físicos até os que fraudam a renda familiar para conseguir uma bolsa do Fies para a filha, desde os médicos que receitam determinados medicamentos em troca de benesses dos laboratórios farmacêuticos até os jornalistas que mentem sabendo que estão mentindo, desde gerentes de supermercados que recebem presentes para colocar alguns produtos em destaque nas prateleiras até programadores de rádio que tocam determinadas músicas em troca de festas com mulheres já previamente pagas.

E o pior é que os discípulos, vale repetir, não são entidades extra-humanas, portanto, não possuem o mesmo faro infalível e o mesmo talento artístico do mestre.

[ Feicibuqui, dia 14 de março de 2015 ]

“Distrito federal” no Correio Braziliense

18/03/2015

Correio Braziliense

Breves teorias-do-caos sobre o “Distrito federal”

28/01/2015

Capinha

Um longo poema beat-tupiniquim. Mistura de Allen Ginsberg e Mário de Andrade, com um toque de O silêncio dos inocentes. A vingança do mito sobre a objetividade: a corrupção tem raízes bem mais profundas!
[ Daniel Lopes, autor de A delicadeza dos hipopótamos ]

Mais do que uma ficção, Distrito federal é, na verdade, o documento mais contundente, a biópsia literária mais penetrante do nosso atual estado mental, estado social reativo, agressivo, perturbado, enlouquecido, excitado pelas vertigens da vida no Brasil, esse abismo que nunca chega. Com sua mistura de Câmara Cascudo com Cronemberg, de TV Senado com Chico Picadinho, de Robocop com Francis Bacon, muito bem azeitada, humorada, inspirada, Luiz Bras escancara com maestria a ira nada sagrada, a ira obscena que guia todos nós diariamente, para o colo do Último Grande Exu, o exu da Suculenta Insolência Infinita, alimentado pelas ruínas da Política, da Tecnociência, da Religião e do Humanismo. Alguma coisa cheira muito mal na atualidade. Principalmente no Brasil, abismo das ruínas encruzilhadas. Gambiarra das antropofagias. Distrito federal é um documento imprescindível.
[ Fausto Fawcett é autor de Favelost ]

Linhas de fuga em guerra de significação: Distrito federal me toma duma maneira que não comovia desde Panamérica, feito transe redivivo desse Agrippino milimetricamente estilhaçado que Luiz Bras encarna. Li numa assentada, leitura que exige repetição indefinida: um temporal incessante, não rio apascentado de leito. Inaudito como um Paris, Texas dirigido agora por Fritz Lang reinventando o zoom literário. Se a tranZmodernidade brasileira carecia dum manifesto, eis essa artesania dum nomadismo precioso. Mensurar algo que ainda deita raízes não posso, mas esse se revela o livro necessário para uma demanda de sentidos possíveis e desdobrados ao infinito do criativo.
[ Flávio Viegas Amoreira é autor de Escorbuto, cantos da costa ]

Distrito federal é uma das realizações mais ambiciosas de Luiz Bras, autor instigante e provocador, que renovou a ficção científica brasileira nos últimos anos.
[ Marcello Simão Branco, coeditor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica ]

Distrito federal é uma obra de impressionante lucidez, um belo romance-poema que, utilizando um ritmo alucinado e imagens cortantes, destrincha a realidade política brasileira atual.
[ Márcia Barbieri, autora de A puta ]

Distrito federal é uma abdução. Luiz Bras cria um ciclo vicioso para quem lê, que mostra o ciclo vicioso de como o poder corrompe, causa danos e volta a corromper. Para o leitor é um alívio se aproximar, através das páginas, do universo de fedores e verdades que está bem abaixo do nosso nariz. O tempo vai, volta e, durante todo ele, permanece a sensação de que moral e bom-senso estão perdidos e fora do lugar. E estão.
[ Mariana Teixeira, autora de Inversos paralelos ]

Em Distrito federal, Luiz Bras dá voz a um povo cansado & triste, sem nada de heróico ou retumbante, que afinal reage, tingindo de vermelho um planalto central desenganado pela sujeira pública que nos assola e define.
[ Moacyr Godoy Moreira, autor de Soalho de tábua ]

Distrito federal expõe o detrito universal (humano) sem didatismo ou amenizações, em apurada linguagem e numa estrutura textual desconcertante. Pode-se chamar até de uma estrutura rizomática, tamanha a confluência de páginas numericamente distantes. A ausência de linearidade dá a sensação de um movimento circular que amplia a voracidade desse curupira pós-humano que se depara com os mesmos obstáculos corruptores e corrompidos em renovada alternância, nos dando a sensação de reinicio constante desse jogo destrutivo.
[ Ninil Gonçalves, autor de Absorções ]

Em Distrito federal, capa, projeto gráfico, gravuras, diagramação, estão perfeitamente ligados e integrados ao texto maravilhoso. O romance reflete a época em que vivemos, vai ao futuro, volta, e ainda assim duvidamos de suas terríveis premonições. Literatura me pareceu a única esperança. Adorei o livro.
[ Paula Bajer Fernandes, autora de Nove tiros em Chef Lidu ]

Distrito federal não se limita a replicar os ícones e os paradigmas clássicos da ficção científica. Reconfigura-os à luz das particularidades do contemporâneo e, assim, cumpre o modelar papel do gênero: fomentar uma nova maneira de ver o cambiante mundo ao nosso redor. Literariamente interessado no entrelaçar de forma e conteúdo, é um raro exemplo de narrativa longa de ficção científica no Brasil.
[ Ramiro Giroldo, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia ]

A engenhosa narrativa tupinipunk de Luiz Bras agrega uma indignação de faca nos dentes à literatura do Brasil pós-Mensalão. Deveria virar tendência – e caixas do livro serem lançadas sobre Brasília.
[ Roberto de Sousa Causo, autor de Glória sombria ]

Distrito Federal é uma narrativa de ritmo alucinante e visceral.
Nem tente fugir, você será dominado pelo curupira.
Mas atenção, o Ministério da Cultura adverte: se você estiver envolvido em alguma maracutaia, não leia esse livro.
As consequências serão terríveis.
[ Victor Del Franco, autor de A fluidez da aurorA ]

Distrito federal é ao mesmo tempo raia de loucura e realidade em brasa. Não dá para se deixar levar pelo formato pouco convencional, as mensagens pulsam nas páginas o tempo todo, sem cessar, como um coração arrancado do peito, louco para fugir, encontrar caminhos diferentes daqueles já traçados. Um mergulho em códigos e mistérios que cada um vai interpretar de uma maneira.
Senti raiva, senti nojo, senti alegria, senti um chamado nesta rapsódia. É como um carro desgovernado que sabe exatamente o alvo que vai atingir. Atual, rebuscado, enfurecido, rebelde, e que se dane quem não gostar de adjetivos, teria ainda muitos mais. Distrito federal se desprende do real para descrever a nossa realidade matuta, o nosso caráter obtuso, mesmo que seja o obtuso que deseja sair do embotamento que nos atordoa pelo banho de merda e mau cheiro que se espalha.
Uma pena que o curupira não voltasse sua fúria para os pequenos corruptos também, aqueles que defendem com unhas e dentes a moral e subornam o guarda e furam a fila. Uma lástima que o curupira não tenha mirado os preconceituosos, os homofóbicos, os pedófilos, os mentirosos. Mas o castigo aos chupamerdas eleitos & corruptos lava a alma, apesar de não nos livrar da nossa responsabilidade por eles estarem onde estão.
Senti falta de uma presença maior do saci. E de outros orixás que muito bem se encaixariam no enredo: Nanã Buruquê e Omolu carregando os espíritos dos estripados seria sensacional, ou curando os obtusos; Ogun cortando cabeças, disputando com o curupira o sangue dos políticos fedorentos…
É uma colcha de retalhos psicocibernética, na qual o tempo tem importância mínima, pois tudo poderia ocorrer num segundo ou em bilhões de anos. E a vitória da natureza é o sopro da esperança depois de exterminado esse câncer que chamamos de humanidade.
Viva o curupira!
[ Petê Rissatti, autor de Réquiem: sonhos proibidos ]

Mensagem do Santiago Santos

14/12/2014

Capinha

Salve, LB!

Da última vez que nos falamos, ainda em SP, comentei contigo a impressão maior do DF, que eu carregava ainda lá por 1/3 do livro: a de que tava com dificuldade de selecionar as partes pra grifar. No estudo da prática literária me parece que nada substitui bons autores na hora de aprender. Lá vou eu selecionando e na medida do possível dissecando as boas passagens e rabiscando ali nos cantos as justificativas que cabem no pouco que já deu pra aprender lendo um pouco de tudo. O problema é que com essa característica diferenciada do DF (a escolha das frases curtas e dos parágrafos de, em média, 1 ou 2 linhas meio que demanda a estratificação que deixa tudo explosivo; é um livro de mais pontos que vírgulas, se isso forma algum parâmetro que desconheço) tudo é concentrado, tudo é síntese e pólvora, e em cada página tem uma coisinha que, puta merda, dá vontade de separar e explicar por que impacta tanto.

Pra começar (já comecei, mas, porra, as liberdades que um e-mail te dá, não?) a premissa é foda. Andando com o livro debaixo do braço por SP e depois Cuiabá, quem me via com o artefato (não é pra menos, um bichano de capa dura, com capa e contracapa estampadas com esse mosaico de símbolos, e lombadona vermelha − parabéns pra tua contraparte, Teo, também) perguntava que diabos era aquilo que eu tava lendo. Minha sinopse se dava nessas linhas: “O espírito do último curupira entra no corpo de um humano e começa a matar políticos corruptos porque pra ele o cheiro é insuportável. Se passa num futuro em que as cidades tomaram conta do planeta e quase não há nada da natureza por aí. Para o curupira os assassinatos são obras de arte.” E a resposta era sempre: que foda. E é mesmo. Aquele pedaço que você liberou não sei pra qual veículo, do comecinho da história, que é quando o curupira possui o cara que ele controlará pela maior parte do livro, porra, é uma puta arma de convencimento. Essa síntese, esse impacto, essa porrada, tá ali, naquelas (curtas) linhas. Foi tão convencedora que levou o amigo que me hospedou em SP a falar DF quando perguntei que livro ele queria, em agradecimento pelo sofá-cama e pelos papos madrugada adentro mesmo ele tendo que trabalhar dali a algumas horas.

Mas premissa é tempero. Nela não tão subentendidos os desvios da trama principal, como o fascínio pelo último saci; os copycats que se proliferam ao redor do curupira e criam uma ordem que o enxerga e louva como mestre, a seu contragosto; delírios artísticos no destrinchamento de cada ladrão menor ou maior dessa sociedade em que se vive durante séculos e os crimes se acumulam mais veementemente; o vizinho desagradável e seu cubo de matéria programável; as divagações sobre o mundo artístico, sobre o estado da Terra, sobre o ser humano, sobre a sociedade, sobre a vida, sobre a ambição inesgotável do acúmulo; a relutância do hospedeiro do curupira e o gradual apego deste à sensibilidade humana devido à exposição prolongada; os passeios pela área preservada no cerrado e o contato com os fantasmas dos animais; o MMORPG Distrito federal em que os jogadores são políticos e possuem poderes; Moema e sua ascensão mística no jogo e fora dele; a existência de um político honesto, uma mulher que desequilibra o curupira e o faz querer protegê-la pra salvar a humanidade; o narrador intrometido e cheio de opiniões, raivoso, fascinado, nessa revelação gradual de que se trata de uma inteligência artificial que ganhou consciência.

O livro se expande na segunda parte com a narrativa paralela do menino-menina e do próprio cubo, misturando lapsos temporais, incubação psíquica e um bom e velho bank robbery trope, e fecha de maneira apoteótica com a retomada da natureza, a fúria viva, o declínio das máquinas, a luta pela última fagulha de eletricidade, o abandono, a morte, a dúvida final que desponta no céu desse fim que não é fim, ou é, ou não importa, já que ressoa e isso é mais importante que a certeza, certo? Ou seja: pluralidade temática das boas.

Seria fácil dizer que a identificação vem naturalmente pro leitor de um país em que a corrupção é vista como o maior entrave pra gente sair de vez da posição terceiro-mundista de investimento extraviado e burocracia desnecessária, um assunto sanguenozóio. Não é privilégio nosso, claro, mas que timing, não? A insatisfação gera esses pipocos em todo canto e, sinceramente, quando estoura uma nova notícia de desvio de verba e afins não sei se haveria alguém descontente com a existência do curupira aqui hoje. Mas a identificação não vem só dessa posição de simpatia pelos atos guardados na garganta de todo mundo, vem também pela linguagem. Primeiro pelo uso da segunda pessoa, que coloca na maior parte do tempo o leitor no lugar do curupira. Em segundo pela simplicidade, grande marca da tua literatura. Pega esse pedaço aqui:

Você mantém uma lista de políticos corruptos. É uma lista beeeeeem grande. É preciso fazer justiça. Todos têm que morrer de maneira violenta. É preciso que a sociedade entenda que os criminosos do poder executivo, do legislativo e do judiciário são muitos piores do que os outros. Será que só você percebe isso com tanta clareza? Enquanto os criminosos comuns são no máximo uma gripe branda, os criminosos políticos são um câncer terrivelmente agressivo. É preciso fazer justiça, combater o tumor maligno, impedir a metástase. Você já assassinou trezentos, mas não passou da segunda página. É uma lista grande, eu sei, querido. Não estou reclamando. Acredite, estou muito orgulhosa de você. Todos têm que morrer de maneira brutal. Essa é a mensagem: corrupção pede violência, sangue. Um tumor maligno pede um bisturi, um corte firme. Sem anestesia. Você é um artista.

E por aí vai, nesse ritmo meio malemolente, uma coisa meio poética, lotada de pausas. Um diálogo mesmo, com os vícios de um diálogo que deixam a coisa fluir (na questão da fluência em alguns momentos mais frenéticos senti uma musicalidade muito característica da escrita do Marcelino Freire, que é tão cantada, e qual não foi minha surpresa ao vê-lo referenciado depois). Uma rapsódia, como você diz na abertura, jogando aí a colagem de tanta coisa e tanta fonte que não é brincadeira. Você fez isso no Sozinho no deserto extremo já, mas lá descaradamente. Aqui as referências vêm mesmo à tona na nota do autor no fim do livro (obrigado por elas, inclusive, abriram o leque pra pesquisas posteriores). Não querendo dizer que o livro é absolutamente simples; há passagens complexas, conceitos científicos, belas imagens e metáforas. E a trama é tão concatenada que não há nada de simples ali. Mas você sabe que digo simplicidade na linguagem de forma elogiosa, já entramos no assunto antes.

Aqui alguns ganchos que virariam epígrafes fácil fácil:

“Segredos são varetas de bambu que sustentam o cenário de cartolina do senso comum.” “O talento circense de gargalhar só com as mãos.” “Os últimos obtusos saem de seu esconderijo e caminham sob o sol a pino. / Sentem o calor, notam a luz monocórdia derramando agudos nos escombros.” “Icebergs deslizam na superfície oceânica do humor aquoso.”

A parte do despertar de Brasília, lá pela pág. 215, foi de cair o cu da bunda, cá entre nós. A humanização dos vários aspectos da cidade conferiu um toque surrealista que me deixou boquiaberto, foda demais.

Confesso que as repetições que se verificam em vários trechos do livro me irritaram um pouco, mais preocupado que eu estava a certa altura com a trama que com a experimentação linguística, mas os receios foram extintos quando uma plausível explicação lógica se desenhou dentro da própria história, uma justificativa pra fragmentação e ocasional repetição do narrador, que teria seu banco de dados invadido e roubado-embaralhado. Daí pra frente fez um sentido bem mais justificável que o simples efeito estético.

A mesma coisa acontece com os painéis que recheiam o livro. Aparentemente são colagens temáticas de assuntos abordados na história, mas não são mera representação; são parte da história também, a produção artística dos robozinhos revoltados com a corrupção política. Ou seja, o livro se significa enquanto artefato, que é mais do que muito livro faz, uma preocupação sensível de tornar a experiência de leitura algo completo, imersível. É o tipo de coisa que justifica um livro impresso. Gosto muito de ler no Kindle, mas como alguém que cresceu lendo no papel tenho esse apego. No futuro, creio que só as coisas que têm esse quê a mais de significado, esse cuidado, sobreviverão nas estantes dos colecionadores.

Na história tá todo mundo puto. Os robôs, as máquinas, o espírito dos animais, dos índios que por aqui viviam e foram dizimados, das criaturas folclóricas. É uma revolta em todos os níveis com esses desvios morais e os abusos de poder que se veem espelhados também na urbanização desenfreada. É um cautionary tale, um desabafo, uma vingança hipotética; ficção científica, fantasia, policial, experimental. É muita coisa. Mas no cerne é uma grande história em várias camadas. Das que fazem a gente ficar pensando depois de acabar, como a boa ficção especulativa faz. Não só sobre o que somos e o cenário que habitamos, mas pra onde vamos, o que seremos, o que cabe a nós mudar.

Bom, você sabe que isso é uma pincelada das impressões, nada mais ambicioso que um bate-papo. Não extingue de forma alguma a totalidade de associações que surgiram, mas acho que já passei da cota (uma ideia que me veio folheando aqui: a extinção da humanidade representa apenas o fim da linguagem. Os nomes é que se perderão, não mais que isso. Meio que coloca a gente no devido lugar, não? Outra: a finalidade artística do curupira era despertar a sensibilidade do povo e também significar, exprimir o trabalho dele? Por aí vai…).

Uma puta duma experiência. Brigado pela viagem, LB. Desci do trem sorridente.

Grande abraço!

Santiago

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Ao ler a mensagem acima, foi difícil controlar a alegria.
A satisfação borbulhou, escorreu dos poros.
Santiago Santos foi uma das grandes surpresas de minha visita a Cuiabá, dois anos atrás.
O rapaz nem chegou aos trinta anos e é um dos mais talentosos escritores da geração que começou a publicar nesta década.
Seus estupendos minicontos podem ser conferidos aqui: Flash fiction.
Quando um leitor-escritor incomum diz que teu livro vale a pena, o mundo sempre volta a fazer sentido por mais um tempo.