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Mensagem de Sandra Schamas

10/03/2017

Capinha

Distrito Federal, uma rapsódia de Luiz Bras
Ilustração e diagramação de Teo Adorno
Editora Patuá, São Paulo, 2014

Bela edição de capa dura com ilustrações interessantes e intrigantes.

Já na assinatura do autor uma novidade: um carimbo anunciando o enredo próximo, em forma de labirinto (talvez um mapa de metrô).

Meu caro amigo Luiz,

Apesar de ter feito parte de um grupo de estudos de crítica literária por três anos, apesar de ter me dedicado e me esforçado, o que mais aprendi é que não sou boa nisso. Não sei fazer a análise de uma obra de modo acadêmico, tampouco sei dissecá-la como um cirurgião. Só posso dizer que o livro me captura e eu embarco na viagem e vou traduzindo para a emoção as palavras escolhidas pelo autor.

Distrito Federal não me capturou de cara, fiquei olhando para ele uns bons meses antes de me aventurar na leitura. Nesse processo, confesso, também demorou um tempo para que eu me envolvesse com a complicada trama, talvez por ficar encantada justamente com a escrita em si. Linda, limpa, culta, sonora, poética quase sempre, violenta e escatológica às vezes. Escrever bem é uma expressão pobre para o que você faz. Ainda não sei dar um adjetivo adequado.

O detalhe da página de rosto avisando que é uma rapsódia é fundamental e poderia passar despercebido. O livro é uma rapsódia mesmo, uma mistura de prosa e poesia, e uma ode à loucura dos dias de hoje, tendo em vista que cada parágrafo é um módulo sonoro e semântico.

Nem que você quisesse, não dá para esconder sua vasta cultura e seu cuidado nas mínimas referências, incansável nas pesquisas, eu acredito.

Fiquei impressionada com a sua sensibilidade em relação à vida de um modo geral. Tudo te afeta, tudo. As pessoas e seu comportamento bizarro, o planeta, a tecnologia, o meio-ambiente e todos esses assuntos polêmicos, como a questão de gênero, da opção sexual, do politicamente correto. De um modo muito sofisticado você se vinga traduzindo a raiva que sente de todas essas injustiças nessa história tão fantasiosa e tão real ao mesmo tempo.

Você se lembra do filme Minority Report, de 2002, em que a polícia detecta e impede crimes que estão para acontecer? Então, enquanto lia eu me lembrava daqueles seres sensitivos que ficam numa piscina de água morna, que muito me impressionaram no filme. Me senti como eles, suscetível à qualquer interferência minimamente brusca.

Bem, vamos ao livro:

O livro se divide em três partes: Teoria do caos, Deus ex-machina, Segredos & milagres.

Teoria do caos
Durante a leitura tive a impressão de estar num videogame doido e violento ou dentro do livro ou do filme Alice no País das Maravilhas. O texto é dividido em blocos que se repetem, às vezes completamente, às vezes não, mas é isso que vai dando sentido à trama.

Poderia descrever esse método que você criou de uma maneira muito visual: são cirandas fantásticas girando ao mesmo tempo, uma máquina cheia de engranagens, e o leitor vai pulando de uma para a outra a fim de poder entender o absurdo da história e perceber que ela não é tão absurda assim. Essas rodas vão descrevendo o nosso mundo hoje, bem ruinzinho como está.

Seu livro também me fez lembrar um videoclipe onde a graça é ter muitas informações acontecendo ao mesmo temo: a música, as imagens, as colagens rápidas e todas em movimento. Para ser honesta, tenho dificuldade em assistir videoclipes, fico meio tonta e logo me canso. Com seu livro comecei assim também, não foi uma leitura fácil para mim, mas acabou me encantando pela sofisticação.

Me veio à mente também um texto de Oliver Sacks que acabei de conhecer na oficina que estou fazendo. Olha só:

“Em novembro de 1965, eu consumia doses enormes de anfetaminas todos os dias e depois, não conseguindo dormir, consumia doses enormes de hidrato de cloral, um hipnóide, todas as noites. Certo dia, sentado num café, comecei a ter as alucinações mais desvairadas, que vieram de repente, como descrevi em A mente assombrada.”

Entendi que a brasilidade, os seres mitológicos brasileiros são os que se vingam de modo muito violento de toda essa corrupção e desse caos social que a gente vive. Um currupira e uma saci incorporam dois humanos, ou o que restou de humanidade nos seres, saem fazendo chacinas, estripando, espalhando órgãos e fazendo das vísceras obra de arte. Dá prazer ler isso porque a vontade de acabar de modo bem cruel com cada filho da puta que está nos poderes grandes e pequenos é real. Deve ser muito bom poder jogar esse game e ver o sangue dessa gente espirrando pra todo lado.

O que era o cerrado virou uma imensa metrópole, com uma ilha de clorofila aqui outra ali. Há esperança.

Adorei a comparação de um político a um bacilo, uma força da natureza irracional e destrutiva com a qual não adianta querer argumentar. Discutir com um bacilo? Genial. A afirmação de que cada vez que um corrupto recebe uma propina uma galáxia inteira se apaga… Muito bom.

Os demônios decadentes, os obtusos (duros e moles) omissos porque a lei os impede de sentir, a matéria programável, as detalhadas regras de etiqueta e a fome… Uns passam fome, outros explodem de tanto comer… Nossa! Demais. Os cheiros, as porcarias e descrições absurdas e interessantíssimas, como, por exemplo, uma metralhadora líquida.

Morri de rir com uma frase sua: “preferia um mundo sem bocas, sem cu, sem mandíbulas taradas”. A reflexão sobre o sistema penal e carcerário é incrível, entra até aquela menina que matou o pai e a mãe, “o mundo não precisa de pena de morte, precisa de justiça”. Obras paradas com mato tomando conta… Que tristeza que é isso em nosso sitema. O Face a Face e a brain-net são sacadas brilhantes. Enfiar cotovias vivas na goela dos consultores financeiros, guaixinins no rabo dos diretores de empresas de cartão de crédito, que maravilha.

Nesse primeiro segmento, do que eu mais gostei foi a ideia de que somos viciados no cheiro da corrupção. Pura verdade.

Deus ex-machina
O ritmo se acalma com a justiceira menina-menino e a protetora esfera-cubo-pirâmide, o útero protetor que me lembra o filme A bolha assassina.

“Uma dose de morango sustenido e framboeza bemol” é dez.

Para exemplificar a sofisticação, a sonoridade e a escolha das palavras separei esse trecho:

“A esfera-cubo-pirâmide pensou ter visto o clarão obscuro, o ruído silencioso do seu próprio reflexo esférico-cúbico-piramidal no fundo da reentrância nebulosa. Podia ser apenas um conjunto de memórias misturadas.”

Raízes-tentáculos, pétalas-pinças e espinhos-agulhas são escolhas sensacionais. Gosto também dos neocarcereiros da prisão mental e da libertação da menina-menino dessa terrível prisão.

Segredos & milagres
Nessa última parte a gente volta a lembrar que está em um game e já traz aquela sensação de que as coisas podem melhorar, quando o corrupto começa a sentir medo.

A metrópole aparece com mais presença e a afirmação de que uma cidade superpovoada é o lugar ideal para a solidão é verdadeira, na minha opinião. Estar entre muitos também é uma forma de solidão. Me identifiquei.

Brasília passa a ter músculos e artérias, a metrópole evolui e começa a destruir os humanos (ou quase humanos), e vai se tornando inteligente porque “a evolução jamais barganha, mesmo quando chantageada”, e a cidade se transforma numa gigante centopéia. A chuva ácida dá arrepios e os fedores são nojentos… Os fiscais da prefeitura continuam sendo estripados, a bolha volta, o medo aumenta, a merda se espalha.

Nesse mundo imundo até os grafiteiros aparecem como mais uma coisa que a gente não sabe nem o que pensar nestas alturas do campeonato. Direito do cidadão, a cidade para todos e as polêmicas que surgiram com as medidas do prefeito-coxinha… Como seu livro é de 2014, acho que foi uma profecia.

A imoralidade corrompeu a civilização e essa gente louca acabou com a natureza.

Nesse final é revelado que foram os robôs que fizeram as ilustrações. Faz sentido.

Caótico e violento é o final e mil anos se passam. Depois, luzes se aproximam, ou seja, há luz no final do túnel. Apesar de não estar evidente, o final é cheio de esperança e a gente se sente de alma lavada por ter imaginado tanta vingança. Mas achei positivo, difícil de acompanhar mais superpositivo.

Meu amigo Nelson-Luiz-Teo, que viagem!

Eu nunca tinha lido nada parecido e ainda estou sob o impacto de tanta ação.

Pelo seu livro pude avaliar sua inteligência, sua cultura, seu domínio da língua, sua criatividade e sua imaginação. E bota imaginação nisso! Foi minha primeira leitura de um livro de literatura fantástica de qualidade. Enfim…

Essa foi uma tarefa difícil, como escrever a você, a quem admiro e a quem considero um mestre, as minhas impressões sobre seu livro? Não tinha outro jeito a não ser com o coração.

Me sinto honrada com a tarefa e esse exercício me fez pensar muito sobre a literatura em geral. De que modo ela pode, e vai, evoluir para sair da mesmice, e como eu posso me adaptar a uma nova era, porque é o que eu acho que vai acontecer.

Muito obrigada, meu caro amigo, por deixar que eu entrasse no Distrito Federal e vasculhasse tudo.

Grande abraço,

Sandra

[ Feicibuqui, dia 9 de março de 2017 ]