Posts Tagged ‘Paraíso Líquido’

“Paraíso líquido” resenhado por Clayton de Souza

23/07/2015

ParaisoLiquido

Não são poucas as surpresas que aguardam o leitor (principalmente o mais pragmático, infenso às narrativas mais delirantes) nas páginas inusitadas de Paraíso líquido, primeiro livro de contos do escritor Luiz Bras, que alinha a literatura de especulação sobre o ser humano à mais pura ficção científica. Ao folhear atentamente essas páginas, o leitor adentrará um terreno em que convivem pacificamente Borges e Blade runner, Kafka e Neon Genesis Evangelion, ou Matrix.

Luiz Bras é um escritor aguerrido à causa dessa literatura tão pouco considerada nos meios mais sisudos de nossa alta cultura. E como leitor já tarimbado da tradição literária universal (os seguidores de sua coluna mensal no Jornal Rascunho podem atestar isso com facilidade), e não menos versado no que há de mais notório na ficção científica (Neuromancer, Eu, robô etc.), trata de operar uma alquimia consistente entre estes polos, e o resultado passa longe do irrisório.

Como exemplos, cabe a menção a contos como Aço contra osso, Memórias e Futuro presente, onde em situações transreais como uma caçada humana a um programa que assimila seres vivos, um jogo de manipulação mental envolvendo dois hackers e uma mãe e sua filha, ou uma trama que gira em torno de uma crise global envolvendo três líderes mundiais e uma compulsiva e astuta assistente, respectivamente, é desenvolvido um jogo de espelhos e identidade além de equações simétricas e fascinantes, elementos que nos enlevam na prosa borgiana, como em O jardim dos caminhos que se bifurcam.

Outro elemento recorrente são as situações que envolvem tais contos, quase sempre entre o colapso da realidade e o momento apocalíptico. Em ambos, o humano e o tecnológico se entrecruzam, e a web é a instância última da realidade, a contestá-la ou a transcendê-la, rumo a uma dimensão de conhecimento mais vasta que a mera realidade. É o labirinto em que a consciência (alterada ou não artificialmente) se vê enredada, como nos contos Nuvem de cães-cavalos, Nostalgia e Singularidade nua: o ser humano é sempre o títere do universo da informática, mesmo quando aparenta ser o manipulador consciente para quem ela, a informática, é mero instrumento de suas pretensões sub-reptícias (Memórias, Singularidade nua).

Estilisticamente, há que se ressaltar a intensa criatividade do autor, mesmo quando suas fábulas fazem menção ou nos lembram obras como O vingador do futuro, ou Blade runner. Pasma-se o leitor quando, entre um conto e outro, se depara com uma teia tão complexamente tecida, em quase nada remetendo uma à outra. Sua escrita é simples e acessível, embora imbuída de termos próprios do gênero, como nanotecnologia ou hiper-realidade. Sua habilidade na construção textual permite inclusive construir um conto, Déjá-vu, que pode ser lido de trás para frente, alterando no processo a noção temporal dos fatos.

Por fim, Paraíso líquido é desses livros que se originam de um criativo processo alquímico cujo resultado vale a pena ser conferido até pelo leitor mais recalcitrante. Suas prerrogativas sustêm a leitura, e, mais importante, fecundam a reflexão durante e após o processo.

Clayton de Souza

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“Paraíso líquido” no blogue Restless Books

12/07/2014

ParaisoLiquido

Luiz Bras doesn’t exist. It is the pseudonym of Nelson de Oliveira, an award-winning Brazilian writer who became Luiz Bras when he took up the sci-fi genre. Paraíso Liquido is a collection of short stories, considered to be one of the best contemporary Brazilian Science Fiction collections.
[ Renata Limon, Restless Books ]

Sobre o “Paraíso líquido”

21/01/2014

Nuvem

Cuiabá, primavera-verão de 2013

Olá, Luiz!

Perdão pelo atraso excessivo, mas as coisas fora da literatura aqui foram bem atribuladas, tive pouco tempo pra ler nessas últimas semanas, e como queria atrasar a resposta pra depois da conclusão do Paraíso líquido, acabei deixando seguir.

(…)

Falando com o Cesar Silva aqui no Facebook, acabei comprando os Anuários de 2010 e 2011, depois quero ler a tua entrevista lá. E também assinei o jornal Rascunho pra acompanhar as novidades do mundo literário. Eu sei que tem em PDF de graça na internet, já abri algumas edições aqui, mas parece que no computador eu sempre encontro motivos pra não ler ou postergar indefinidamente. Agora acompanharei tua coluna lá com afinco.

Eu tinha separado o link com os minicontos do Lama aqui pra ler, mas ficaram nessa mesma encruzilhada do Rascunho, então fico contente em saber que vai sair em papel, lerei com gosto. E o link da resenha do Lanark, do Alasdair Gray, me deixou salivando pra comprar! Se um dia eu falir você será um dos culpados, Luiz. hehehe

Agora, quanto ao Paraíso líquido.

O que salta aos olhos, de cara, é uma característica do teu texto que comentei contigo pessoalmente já: a simplicidade. De uma forma boa, claro, uma simplicidade que pega o leitor pela mão e passeia pela história. É claro que a natureza de alguns contos distorceu essa simplicidade, nem tanto temática mas estruturalmente, transformando-os em contos que eu provavelmente não largaria na mão de alguém não habituado à leitura (o próprio conto Paraíso líquido me parece um bom exemplo), mas é claro que isso tem lugar dentro de um livro que, na minha opinião, é um caldeirão experimental. Você brincou e brincou aqui, mas a diversão é nossa.

Me parece natural dizer que gostei de uns mais que de outros, embora todos tenham sido muito bons. O primeiro, particularmente, explodiu minha cabeça. Primeiro contato é uma pequena obra-prima. Por vários motivos. Em primeiro lugar pela linguagem fugaz e entrecortada de criança, parágrafos curtos, palavras simples, sequência ordenada. A maneira como é narrada é verídica, cativante, como se saída mesmo da boca de uma criança. O mistério do conto, a existência do alienígena, não é colocado em dúvida por um segundo que seja até o momento inegável da revelação. Por mais que os sinais estejam lá, escancarados, o garoto não se deixa convencer, se prende a essa idealização infantil da existência do extraterrestre. Achei muito realista. E pra completar: a história paralela do avô no hospital, que dá uma carga dramática fodida ao conto, as considerações da criança a respeito da notícia não chegar, do que pode estar acontecendo… Tudo funciona. O final é demais, o protagonista se tornando amigo do oriental, o esforço para não chorar na frente do novo amigo. Dá pra entender fácil por que você escolheu esse conto pra abrir o livro. Ele é uma porrada na boca do estômago, de tão bom.

Do Memórias gostei dos diálogos, muito bem feitos. Você apanha essa sonoridade na fala que parece natural. Dá pra acreditar mesmo que a mãe tá vivendo numa conspiração desgraçada, e no fim você vê que a menina estava certa. Confesso que encaminhando pro fim previsto a história ficaria apenas boa, mas com a adição do sub-sub-plot você deu uma reviravolta bacana, deixou marcante.

O Nuvem de cães-cavalos ilustra bem como você consegue trabalhar com o tema do suspense sutil, eu diria, pois prende mas não causa aflição, pelo menos não aquela aflição de segurar no braço da poltrona. Me agrada muito a forma como você brinca com o leitor, brinca com as convicções que ele construiu a partir da confiança depositada no personagem ou no narrador, constantemente desconstruída. E gosto da finalização sem desfecho, sem o connect, aberta. Lembra o Cortázar. Você pinta o quadro, dá todas as pinceladas pro cara entender mas não emoldura, é aquela coisa que tá ali, na tela, mas vive nesse constante perigo da expansão, de nanoformigas prestes a continuar a pintura para o canvas molecular criado na cabeça do leitor.

Pirei no Daimons. Os brinquedos assassinos, maniqueístas, vivos. Novamente, a trapaça com o conforto do leitor, que é estimulante. O vai e vem, que é explorado em vários contos aqui. Os argumentos dos brinquedos, a forma como se esforçam para levar as mortes adiante, a menção a uma organização em que há vários outros brinquedos bem-sucedidos; tudo isso constrói aquele universo rico que é explorado indiretamente no conto, e agrega.

Aço contra osso foi uma loucura só. Lembrei do Borges em suas charadas cíclicas, nos seus labirintos. Ambientes inspirados, diálogos ágeis, misteriosos na medida certa, um final surpreendente, também sem desfecho definitivo. Muito evocativo.

Do Nostalgia eu confesso que curti muito mais o começo que o fim. Gostei tanto do começo, da fuga e do mistério de Vitória, que imaginei um romance todo surgido a partir disso. Mas quando começa a parte mitológica do conto, brincando com deuses e conceitos divinos escritos de forma bíblica, versicular, eu fui um pouco afastado do conto. É muito bem escrito, obviamente, mas não me empolgou como o início, mais tradicional. Talvez isso se deva ao meu desconhecimento do mundo de Cobra Norato, que sei que você desenvolveu em outros lugares.

Déjà-vu foi uma loucura ler na sequência, um quebra-cabeças maluco e denso. Depois que li ele de trás pra frente, na forma cronológica dentro do conto, consegui ligar os pontos que ficaram em aberto. Gostei dessa experimentação estrutural.

A Carta do fim do mundo achei divertida demais, as referências malucas que você insere, todo o caráter nonsense da escrita e o fato do narrador se reconhecer como um verdadeiro babaca.

Cruzada foi outro que me derrubou da cadeira aqui. Que conto foda! Que coisa evocativa! Fiquei ligado na história, naquele ambiente de morte e guerra, na loucura. A descrição é muito efetiva em passar o desespero. “Não demora muito e a matilha do cão negro aparece para reclamar sua cota de carne humana. Saem do lixo e das ruínas, esses animais descontrolados. Chegam para chafurdar no sangue, nas omoplatas e no fígado dos mortos. Chegam para chupar os globos oculares.” Puta merda! A desesperança se completa com a aparente despreocupação total nos assuntos humanos da criatura que você criou.

Futuro presente imagino que tenha saído no Portal da Fundação, você toca nos conceitos do Asimov. Quando a história tem bastante cortes temporais como essa ela engrossa, ganha corpo, ganha background.

Singularidade nua me lembrou em parte Ender’s game, talvez porque eu tenha acabado de ler e trate de crianças também. Achei um conto bem ousado, muita coisa acontecendo. Gostei como os três foram convencidos, tem sacadas muito inteligentes.

Protagonistas e figurantes é outro dos favoritos. O narrador bocudo, que despreza os personagens, que narra ciente de tudo, que vai revelando conexões impensadas, que vai abrindo a narrativa; os cortes são muito pontuais; o cenário é empolgante. Me lembrou um pouco o William Gibson, e curto muito a praia dele.

Já o último, Paraíso líquido, confesso que é uma incógnita. Eu li esse conto de cabo a rabo, às vezes amando e às vezes odiando. Me pareceu uma experiência bem ousada, uma fábula para adultos. Eu tentava arrancar sentidos durante a leitura, e tirei vários, mas todos eram confusos e incertos, e a narrativa seguia num aparente descaso, em cenas aleatórias que iam se juntando e ganhando corpo no fim, com a aproximação da nuvem. Mas ao mesmo tempo que queria amassar o livro eu continuava lendo, preso na narrativa simples e confusa e contraditória. Segui a saga de Líquido e o fim simbólico, místico, cíclico, me deixou encucado. Foi aquela coisa de não saber realmente o que pensar, mas me deixou refletindo. Não sei qual era o seu objetivo com essa história, mas ela provoca alguma coisa, não sei bem o quê, mas provoca.

No fim reafirmo o que disse no começo: o livro é um caldeirão experimental. É um apanhado de contos que versam sobre grandes temas. Foi uma viagem meio amalucada, meio incerta, meio à deriva, mas acredito que foi exatamente a sua intenção: desconcertar o leitor, provocar, empurrar e puxar, sacudir. Dar uma refeição de alto nível, uma amostra das discussões existentes no universo da FC com a sua roupagem, seu estilo, sua marca. É uma obra que satisfaz, que confunde, que provoca.

Juntar a experiência deste livro com a do Sozinho no deserto extremo me deixou bastante curioso pra conhecer o seu novo romance (lembro apenas que você comentou ser numa temática meio cyberpunk; aliás, tem algo previsto já?) e também me fez querer conhecer muito o trabalho anterior, como Oliveira, de que conferi comentários em alguns lugares, o Poeira: demônios e maldições.

É isso, Luiz.

Sigo aqui, lendo e conhecendo mais dos mestres da literatura, engordando o referencial, e escrevendo também. Em outra ocasião te mando alguma coisa que bolei nos Flash fiction. Mas acho que este e-mail em particular já está grande que chega.

Um grande abraço!

Ricardo Santos

Resenha de um conto

26/06/2012

Chegou ao fim o laboratório de ficção científica que eu coordenava no Sesc Belenzinho. Já estou com saudade. Dezenas de contos curtos foram produzidos pelos meus queridos alquimistas da palavra, que exercitaram os mais diferentes subgêneros: cyberpunk, distopia, invasão alienígena, new weird, pós-apocalipse, steampunk, viagem no tempo etc. No final do laboratório, um dos participantes presenteou-me com o que ele mesmo chamou de “tentativa de crítica de um conto de Luiz Bras, que será apresentada para outro grupo”, sendo o outro grupo um grupo formado durante uma oficina de crítica literária. Obrigado pela resenha, Sebastião.

Sob a nuvem de cães-cavalos

Sebastião Paz

O conto cyberpunk Nuvem de cães-cavalos é parte do livro Paraíso líquido, de Luiz Bras.

Nesse conto é narrado o encontro, em público, entre um homem e uma mulher. Mulher-menina de pele meio azulada, cabelo não muito curto, muito negro e muito liso, olhos tristes.

O personagem-narrador não é onisciente e nos faz lembrar do angustiado Bentinho, do Dom Casmurro, de Machado de Assis.

No conto, o fantástico e o psicológico se juntam à ficção científica, e também ao poético: “As meias listradas — amarelo e lilás balançando, se misturando — ressaltam outros sentimentos menos juvenis.” Ou: “Tempo, vida. Vida, tempo. Não conseguia largar essas palavras. Até que uma se impôs. Tempo, tempo, tempo.”

Às vezes, o científico se mescla a esse psicológico-poético-fantástico: “Prazer, medo, excitação: tudo. Neuroquímica. O córtex pré-frontal e o hipotálamo em brasa.”

As seguintes impressões do protagonista em relação à mulher da trama, “Seu olhar maravilhoso me intimidava. Havia intensa inteligência nele e eu sempre tive medo — pavor — de mulheres bonitas e inteligentes”, podem até justificar a solidão de certas celebridades, vistas como que em pedestais, quando na verdade são meros seres humanos carentes. Ou haveria um complexo de inferioridade no personagem-narrador?

Também se pode dizer que existe no conto a questão do duplo. Seriam Bruno e Samuel a mesma pessoa? Seriam nomes de pessoas diferentes? A incerteza é uma tônica nessa narrativa: “Será possível que o louco sou eu?” Ou: “Nádia era um desses pacientes?”

Junte-se a isso o embate entre os dois personagens principais, na tentativa de convencimento ou autoconvencimento. Quando um pretende tentar abrir os olhos do outro para a realidade, recebe a seguinte resposta: “Não seja ridículo. A realidade? Conheço bem a realidade. Quem há muito tempo está cego pra ela é você.”

Segundo Cleusa Rios Pinheiro Passos, titular de teoria literária e literatura comparada da USP, o conto de ficção científica pode também ser fantástico. Tudo depende do tratamento. Para tal mestra, o conto fantástico tem o poder de explodir para além, transbordar dos limites das poucas páginas.

Isso nos leva a dizer que outras abordagens para além deste trabalho dedicado a um dos muitos contos de Luiz Bras são possíveis e até bem-vindas.

Delírios de um autor inventado

08/04/2012

A jornalista e escritora Katherine Funke publicou em seu blogue uma bela crônica sobre a coletânea Paraíso líquido, acompanhada por uma ótima entrevista. Essa é a segunda dobradinha crônica-entrevista da série Entrevista de Investigação. A primeira, publicada no domingo passado, foi com o escritor Renato Tardivo. Atenção ao lema do blogue: “sem pressa e sem tempo a perder”. No dia em que vocês conhecerem melhor Katherine e melhor ainda a literatura de Katherine, verão que esse lema faz todo o maravilhoso sentido.

Últimos exemplares

26/01/2012

A primeira edição da coletânea Paraíso líquido está chegando ao fim. A edição de mil e quinhentos exemplares foi integralmente patrocinada pelo Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Por isso os exemplares não foram comercializados. Não faria sentido vender algo que já estava mais do que pago pelo contribuinte.

Quatrocentos exemplares foram distribuídos pela Secretaria entre as bibliotecas de vários municípios do Estado. Os outros exemplares foram dados de presente aos leitores que compareceram às duas sessões de autógrafo na capital paulista.

Os últimos trinta exemplares estão aqui, ao meu lado, aguardando os últimos interessados. Se você ainda não tem um Paraíso líquido, basta enviar um envelope selado, no valor de R$ 5,00, para o endereço abaixo, que seu exemplar seguirá imediatamente, lépido e fagueiro, para suas mãos.

Luiz Bras
Rua Dr. Paulo Vieira, 166 apto 72
01257-000 – São Paulo – SP

Bate-papo nota dez

14/05/2011

Ótima notícia: Paraíso líquido foi recomendado pelo crítico Ramiro Giroldo, na Entrevista com Ramiro Giroldo, doutorando em literatura brasileira, para Lydia Rodrigues. Eu estava pensando em pinçar os melhores trechos da conversa, mas logo vi que teria que pegar a entrevista inteira. Recomendo a visita ao site Escrivonauta: Explorando o Universo da Escrita.

Rumo ao pós-humano

07/03/2011

Na edição deste mês da revista Galileu há uma interessante entrevista com Miguel Nicolelis. Pessoas e máquinas conectadas fisicamente? Desconfio que as implicações literárias da pesquisa desse célebre neurocientista brasileiro não passarão despercebidas aos escritores que desejarem escrever sobre o mundo contemporâneo.

Flávio Carneiro: apontamentos

19/02/2011

16 de fevereiro

Caro Luiz,

Terminei agora há pouco a leitura do seu livro. De início, digo logo que gostei muito. Como você sabe, não sou lá um grande leitor de FC. Conheço uma ou outra coisa e fiz a resenha de uma antologia organizada pelo Causo. Tentei ler com um duplo olhar (fico imaginando como ficaria isso em termos concretos num conto do gênero, esse duplo olhar, sem ser, claro, a saída fácil de um monstrinho com quatro olhos), o de que estava lendo um livro de contos, pura e simplesmente, e ao mesmo tempo um livro de contos de FC. Claro, isso não foi difícil. Primeiro, porque costumo ler tudo assim mesmo, sem forçar demais o olhar do gênero em si, mas também sem me esquecer dele, pelo menos quando se trata, por exemplo, do policial, do fantástico ou, no caso, da FC. Segundo, porque seus contos pedem uma leitura assim. Quem ler o livro pensando apenas nos clichês do gênero pode até gostar dos contos, mas sem dúvida vai perder muito da riqueza que há neles.

Sobre os dois de que gostei mais já havia comentado com você: Paraíso líquido e Primeiro contato. Este segundo continua sendo meu favorito, mas não fique zangado com isso (rs). É que este me interessa mais enquanto forma de colocar em diálogo a simplicidade e a sofisticação, como te disse em outra mensagem.

Sobre os outros contos, fui anotando num caderno e no meu exemplar uma coisa ou outra, que transcrevo aqui:

Memórias
– gostei da ideia em si, mas achei que o final destoa um pouco, não só do restante do conto como também dos outros finais de outros contos, que são muito bons (anotei alguns e vou te dizer adiante).
– achei que está mais pro fantástico do que pra FC. Essa distinção é delicada, eu sei.

Daimons
– bem-sucedida a estratégia da repetição, como se fosse um refrão marcando o ritmo do texto.
– muito boa (um dos fortes do livro como um todo) a relação entre infância e crueldade, fugindo ao estereótipo da criança-anjo etc.
– recorrentes no livro, sempre tratadas de forma eficiente: a metalinguagem e a fantasia.
– ótimo o final. O narrador seria um brinquedo? Na verdade, não é isso mesmo que os narradores são? Brinquedos do escritor e, quando bem fabricados, também do leitor?

Aço contra osso
– ótimo final.
– gostei muito desse conto. E acho que ele se prestaria a um ensaio que venho adiando há séculos, e acho, francamente, com todos os projetos de ficção que tenho pela frente, que nunca vou escrevê-lo. Fico, porém, incentivando os orientandos a fazer isso, um ensaio sobre o duplo na ficção brasileira contemporânea. Cheguei a esboçar isso num artigo já publicado (agora não me lembro onde, numa revista), falando de algumas obras, como Budapeste, Barco a seco (Rubens Figueiredo) e outros. Este seu conto cairia como uma luva neste ensaio que não vou escrever (rs).

Nostalgia
– novamente aqui a imagem do duplo, que percorre todo o livro. Me agrada bastante essa ideia do duplo (que é na verdade a base do romance que estou terminando), a ambiguidade realidade/imaginação etc.
– surpreendente o final. Gostei.
– este conto, se desdobrado, não daria talvez um belo romance?

Déjà-vu
– destaque para os nomes: Pró-Labore, Urbi et Orbi etc. Humor. Sobre essa questão do humor teria muito a falar. Seria outro tema interessante pra mais um artigo que não vou escrever (daqui a pouco tenho um belo livro inexistente): o humor no fantástico e na FC. Acho interessante pensar nisso, em como o humor desestrutura aquilo que, me parece, é de algum modo estruturador dos gêneros fantástico e FC: certa dose de catarse, de envolvimento (mais pro afetivo, menos pro intelectual) do leitor com o texto. O sujeito passa a acreditar naquilo que está lendo, no sobrenatural ou no mundo futuro, com suas próprias regras. Por isso, aliás, penso que a FC se resolva melhor, enquanto gênero, no romance do que no conto — acho que vou repetir isso no comentário sobre a antologia que ainda vou ler (Cyberpunk, da Tarja Editorial) —, porque o leitor tem mais tempo pra se envolver com a história. O que, inclusive, torna o conto um exercício mais ousado da parte do escritor. Quer dizer, o conto de um modo geral é um exercício mais ousado do que o romance, eu acho (e Borges dizia isso, noutras palavras), mas na FC talvez isso seja mais flagrante. Aí um dos méritos do seu livro, o de ter enfrentado e vencido o desafio de um livro de contos de FC.

Voltando ao humor: ele de algum modo dá um nó na catarse, lembrando o leitor de que não está noutro mundo mas neste mesmo, do presente (o que fica mais evidente num conto do final do livro, em que você fala da Stella Maris Turismo, por exemplo), e que, ao mesmo tempo em que está com o pé na fantasia, está também com um pé no artifício (arte-artifício).

SP, 2013.
– adorei.
– aqui também o humor atravessando a catarse.
– meu próximo projeto de romance, depois de A ilha, é algo em torno de uma máquina do tempo. Tudo a ver com esse conto.

Cruzada
– um pouco diferente dos outros, pela linguagem. Lírico, quase fábula.
– anotei ao final, no meu exemplar: muito bonito.

Futuro presente
– é este o da Stella Maris. Grande sacada.
– humor.
– novamente o jogo, bem conduzido, da repetição, desta vez pela matemática.
– bom: o jogo matemático com as senhas (164).
– adorei a Terra dos Planos. Dá vontade de recortar essa parte e escrever outro conto, quem sabe um romance.
– formigueiros. Você conhece um conto do Rubem Fonseca, chamado O campeonato? Acho que é a única incursão dele na FC. A história se refere também a formigueiro e, aliás, acaba terminando com essa referência. Se não conhece, talvez você goste de ler. Não é um conto de que eu goste muito, embora tenha partido deste conto, num diálogo explícito de metalinguagem, para escrever meu romance policial, com o mesmo título: O campeonato.

Singularidade nua
– humor: manual do escoteiro-mirim, frase sobre pop star (182).
– personagens crianças: muito bem construídas. Como disse já, esse é um dos fortes do livro, o modo como você constrói personagens crianças e narra as cenas deles, com seu mundo particular. Gosto muito.
– referência à mãe de Huno (p. 190): excelente. Tocante.
– bom final: a linguagem se desfazendo, ou se refazendo.

Protagonistas e figurantes
– p. 222: frase sobre o acaso. O livro como um todo toca num tema que também me interessa bastante: o acaso. Há uma espécie de jogo (poderia dizer dialético?) entre acaso e não-acaso. Em gêneros como o policial e a FC, o acaso é um grande filão ficcional. Em qualquer ficção, aliás, não apenas nesses gêneros.
— neste conto, achei o enredo um pouco confuso. Acho que a metalinguagem não se realiza tão bem quanto noutros momentos do livro.

No geral, o que quero dizer (ou dizer de novo) é que gostei muito do seu livro. O meu exemplar, com marcações, fica guardado aqui. Os outros que você me mandou em breve vão circular entre os meus alunos.

Abração,

Flávio

 

17 de fevereiro

Flávio, meu caro, obrigado pela carta rica em detalhes da leitura. Na verdade, você fez uma análise-mapa da coletânea, então estou planejando imprimir e afixar na frente do meu computador, pra reler de tempos em tempos, sempre que estiver em dúvida sobre qual caminho seguir. Nessa troca, creio que eu saí ganhando: você ficou com o exemplar do livro, anotado, mas eu fiquei com uma ótima e atenta leitura crítica.

Sobre os artigos que você já idealizou mentalmente (o duplo, humor na FC etc.), porém jamais escreverá, digo o mesmo que eu disse ao Braulio Tavares, sobre os rascunhos de romance que talvez ele jamais venha a escrever. Faça como Borges, que, preguiçoso para a narrativa longa, quando tinha uma boa ideia escrevia em forma de metaficção a resenha do romance inexistente, como se este já tivesse sido escrito e publicado. Estratégia genial. Mas a alternativa também é muito boa: obrigar seus orientandos a realizar a tarefa, rs.

Desde que li teu O campeonato venho me cobrando reler o do Rubem Fonseca. Confesso que li esse conto e muitos outros numa de minhas vidas passadas, e não lembro nada deles, exceto as linhas gerais. A ideia do formigueiro surgiu de um interessante livro de não ficção intitulado Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. O livro, de um jornalista norte-americano, fala das vantagens dos sistemas bottom-up em relação aos conservadores sistemas top-down.

Nos últimos e-mails que trocamos percebi em você o vivo interesse pelo estudo da ficção científica e do policial em diálogo com outros gêneros. Só lhe peço isso: jamais deixe esse interesse esfriar. Na minha opinião, hoje, na universidade, esse diálogo está sendo muito mais importante e frutífero do que o bom e velho apartheid: alta literatura versus literatura de gênero. A vantagem é que, além de se dedicar à teoria literária, você também está produzindo uma obra ficcional que sempre procurou o diálogo.

Posso reproduzir tua carta em meu blogue? Gosto da ideia de dividir com os eventuais interessados (há alguns pós-graduandos ente eles) os apontamentos recebidos por e-mail.

Um abraço!

Luiz

Metades

16/02/2011

Um livro lido é metade do autor, metade do leitor. Depois de escrever essa máxima, fiquei pensando, será mesmo? Vamos aos fatos: mesmo o autor mais possessivo raramente consegue ser o dono supremo de sua obra. No momento em que um livro é publicado e lido, parecem agir sobre ele forças alheias ao controle absoluto de seu autor. A sensibilidade e o imaginário do leitor entram em ação, completando as lacunas, mudando um pouco o ângulo de visada, alterando seu sabor. O livro não muda radicalmente, isso seria impossível, mas se torna outro de modo sutil. Se for uma obra de ficção, certas cenas e certas ações secundárias podem ser realçadas, revelando ao autor detalhes cuja importância ele não havia percebido. Foi mais ou menos isso o que aconteceu ao ler a resenha do Paraíso líquido publicada no blogue O Leitor Comum, do Arthur Tertuliano. Foi mais ou menos isso o que aconteceu ao ler o comentário abaixo, do Guilherme Sândi, enviado por e-mail. O Arthur e o Guilherme me sensibilizaram fortemente, principalmente ao falarem de si mesmos, das lembranças e das inquietações provocadas pela leitura.

 

12 de fevereiro

Pô, Luiz.

Que delicioso primeiro contato com Primeiro contato e com sua obra.

Estive pensando por todo o conto que a narrativa levaria a um fim trágico, de morte, sanguinolento. Bem, não deixou de ser trágico, a magia que nem se sabia ser mágica minguando um tanto.

Que boa sensação a de ler seu conto. Não sou crítico literário, nem gostaria de sê-lo, então acabo por parabenizá-lo pela brutal sensibilidade com o alvoroço de um leitor que descobriu um novo autor a quem muito aprecia.

Também eu viajei em perfumadas caudas de cometa e vi se formar anéis de Saturno defronte a meus olhos. Obrigado, é tudo o que um leitor precisa agradecer quando se depara com uma história bastante intensa.

Na parte em que você descreve as bicicletas se chocando e as peles se esfolando, acabei por me lembrar de minha infância e de minhas visões particulares de mundo. Permita-me uma reminiscência: quando criança, durante a pré-escola, contava eu seis anos, estudei numa escola três ruas pra baixo da rua da minha casa. Um dia, ao término das atividades daquele período, esperava meu pai me buscar quando uma coleguinha veio até mim, disse que meu pai havia aparecido no portão da escola, perguntado de mim, mas havia desistido de me levar para casa. Imagine uma informação dessas na cabeça de um moleque. Não sei como — se me enveredei entre as canelas do porteiro ou se pulei o muro da escola —, fui correndo direto para minha casa com o desespero de um menino que recebe a notícia de que seus pais morreram tragicamente.

No meio do caminho, cada reentrância das vielas guardava em si um monstro, dentro de arbustos criaturas horripilantes se preparavam para me devorar vivo, cães raivosos estavam em meu encalço, meus pais, muito longe, acreditava eu, se animavam por não mais ter a mim como filho. No meio do caminho, tropecei, caí de joelhos, esfolei-os, ávido por chegar em casa. À porta da minha casa, meu pai saía para me buscar — naquela época ainda fazia frio em Bauru, meu pai usava uma boina de lã e um colete por sobre a camiseta branca — e se espantou ao ver-me chegar em casa sangrando e banhado por lágrimas sinceras. Querendo ou não, meu pai, vestido de colete e com a boina preta sobre o cocuruto, acabava por se tornar meu porto seguro.

Seu conto me reavivou a infância, me fez também ver destroços de naves espaciais, marcianos arquitetando primeiros contatos.

Agradeço pelos bons momentos, Luiz.