Posts Tagged ‘Sonho sombras e super-heróis’

Liberdade

26/03/2015

Hoje é um dia glorioso. Notaram a vibração nova na atmosfera?

Hoje é o dia da independência ou morte.

Quando acordei, nem imaginava que algo tão surpreendente aconteceria. Uma iluminação profana.

Começou às onze horas, com o generoso e-mail de um jovem leitor.

O rapaz escreveu pra dizer que ele e os amigos do ensino médio estão lendo o romance Sonho, sombras e super-heróis. E me perguntou se eu podia responder umas questões sobre o livro.

Paralisei.

Nos últimos vinte anos, respondi por escrito, ou em entrevistas e debates, centenas de perguntas sobre meus livros. Umas inteligentes outras nem tanto.

Mas nunca me senti muito confortável no papel de autocomentarista. Jamais me considerei um leitor privilegiado de meus contos e romances.

Hoje eu até tentei responder as questões sobre o romance pra jovens. Mas o mal-estar não deixou. Percebi que minhas respostas reduziriam a obra. Empobreceriam a linguagem, os personagens e o enredo.

Pior: minha explicação se tornaria se não a única, a mais legítima. Afinal seria o Autor falando.

Senti que, esses anos todos, comentar-explicar disciplinadamente meus escritos foi um desserviço a mim e aos leitores.

Hoje é o dia da libertação do autor-escravo-da-explicação.

A partir de agora, não explico mais meus livros.

Não explico na escola, no jornal ou na tevê. Não explico durante palestras nem mesas-redondas.

Os livros comentarão-explicarão tudo sozinhos, e farão isso muito melhor que o autor, quantas vezes o leitor quiser.

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Origem de Cobra Norato

03/10/2012

Recentemente os alunos e educadores de um colégio de São Paulo me perguntaram sobre Cobra Norato. Por que a cidade tem esse nome? Quando ela começou a ser construída? Nela existe mesmo uma réplica da Torre de Babel?

A história de Cobra Norato não é das mais simples. Essa cidade não se parece muito com as outras cidades do planeta. Muito instável, bastante temperamental, seu humor está sempre mudando. Ela sabe ser amorosa, quando quer. Mas também sabe ser terrível, às vezes. O amor e o horror são os extremos de sua personalidade inquieta.

Antes de existir Cobra Norato, a cidade, havia Cobra Norato, o morro. Onde? No centro do estado do Pará, enfiado na floresta amazônica.

Os registros não são muito claros quanto à data, mas parece que por volta de 1915 a Sociedade Francesa de Astronomia e Astrofísica propôs ao governo brasileiro a construção de um grande observatório astronômico em terras tupiniquins. Seria o maior e mais sofisticado observatório de toda a América Latina. O local escolhido foi justamente o morro de Cobra Norato, no Pará. Não existia no Brasil ponto mais privilegiado para o estudo das estrelas e galáxias.

Próximo ao morro havia uma aldeia indígena, porém os registros também não são muito claros quanto aos detalhes. A maioria dos especialistas diz que eram da etnia tapuia, mas ninguém sabe exatamente quantos eram. Quem batizou o morro foram eles, dizem esses mesmos especialistas.

Naquele tempo, a lenda dos irmãos gêmeos Honorato e Maria era uma das mais contadas pelos povos da floresta amazônica. Honorato e Maria nasceram enfeitiçados, na forma de duas serpentes escuras, forçadas a viver nos rios. O povo chamava o macho de Cobra Norato e a fêmea de Maria Caninana. Ele era bom e pacífico, ela era má e violenta. Logo se tornaram inimigos mortais. Durante uma luta terrível, o irmão matou a irmã.

Em noite de lua cheia, contavam os velhos e as velhas, Cobra Norato saía da água, deixava o couro da cobra na margem do rio e se transformava num belo rapaz. O encanto estava momentaneamente quebrado. Norato podia ir até a cidade, cantar, dançar, beber, conversar com os outros rapazes, paquerar as moças etc. Mas de madrugada ele era obrigado a entrar novamente no couro da cobra, mergulhar no rio e se afastar. Seu maior desejo — seu sonho inalcançável — era virar gente de uma vez por todas.

O morro foi batizado pelos tapuias em homenagem a esse bondoso e enfeitiçado rapaz. Outra bela homenagem a essa figura folclórica do norte do país é o poema Cobra Norato, de Raul Bopp. O poema, publicado em 1931, é um dos clássicos mais deliciosos de nosso modernismo.

Voltando à história do observatório franco-brasileiro, é preciso dizer que deu tudo errado. A construção foi cheia de incidentes e acidentes. Também não há registros confiáveis sobre isso, as testemunhas oculares já morreram e a papelada desapareceu nos arquivos e depósitos. Não há consenso, mas os historiadores dizem que a sucessão de infortúnios foi a seguinte:

1. Logo no início os tapuias atacaram os engenheiros e operários. Os índios tentavam defender o solo sagrado de Cobra Norato. Muita gente saiu mortalmente ferida dos dois lados.

2. Três semanas depois, parte dos suprimentos de comida e medicamento perdeu-se durante uma violenta tempestade tropical, com direito a enchente e desmoronamento.

3. Vários operários contraíram malária. Um engenheiro-chefe foi picado por uma cobra-coral e morreu. Outro teve um surto de loucura, entrou na floresta e nunca mais foi visto novamente.

4. Faltou material. Os carregamentos de areia, pedra, tijolo, cimento, vigas de madeira e aço atrasavam constantemente. Vários comboios se perderam na floresta.

5. Meses mais tarde um denso nevoeiro cobriu o morro durante semanas, paralisando a obra exatamente na metade. As máquinas pararam. Ninguém conseguia enxergar um palmo adiante do nariz.

O nevoeiro atrapalhou demais a construção e irritou muita gente. Não apenas os engenheiros e operários. O presidente do Brasil e o da França também. Mas não chegou a aterrorizar ninguém. Era um fenômeno da natureza, só isso. O horror, meus amigos, o horror mesmo veio depois. O sexto item foi o pior e o mais espantoso de todos. Estão preparados?

6. No início do inverno o nevoeiro finalmente se dissipou e, tcharam, o morro não estava mais lá. Sobrou apenas um imenso descampado.

Simples assim. Cobra Norato, o morro enfeitiçado, desapareceu do Pará e dez anos mais tarde apareceu, ninguém sabe como, no sul do Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul.

Por volta de 1940, um magnata do ouro e dos diamantes comprou do governo do Mato Grosso do Sul o morro de Cobra Norato. Nessa época ninguém ainda sabia que o magnata era o grão-mestre de uma confraria secreta chamada Filhos Imortais do Supremo Coração Cósmico. No topo do morro, exatamente no local onde antes havia as ruínas do observatório astronômico, ele ordenou a construção de uma réplica da mítica Torre de Babel. Essa construção foi durante muito tempo a sede de sua confraria.

Aos poucos, nas proximidades da Torre de Babel, foram surgindo casas e prédios. A estrada de terra batida que circundava o morro foi ampliada e pavimentada. Virou avenida. Mais casas e prédios foram aparecendo ao longo dessa avenida, batizada de Oroboro. Assim nasceu a cidade.

O resto da história todos já conhecem. Cobra Norato é uma cidade muito diferente das outras cidades do mundo. Ela não tem muitas ruas e esquinas. Nem qualquer tipo de cruzamento ou bifurcação. Cobra Norato tem uma só via pública, a avenida Oroboro: uma espiral perfeita, como se tivesse sido desenhada com régua, esquadro e compasso. Mas não foi. Trata-se, de fato, de uma única e longa espiral perfeita, porém ninguém sabe dizer como foi que isso aconteceu.

Na década de 50 do século passado, vários incidentes bizarros ocorreram na Torre de Babel e a prefeitura da cidade decidiu interditá-la. Desde então ninguém mais entrou na Torre. Dizem que há um longo túnel ou um elevador passando dentro do morro, ligando a Torre de Babel e a base do morro. Mas até hoje isso não foi confirmado.

Tempos atrás os escritores Alberto Manguel e Gianni Guadalupi lançaram o Dicionário de lugares imaginários. Esse dicionário reúne verbetes sobre os lugares mais fantásticos existentes apenas na arte e na literatura. É um guia de viagens por cidades, países e continentes imaginários: Oz, Nárnia, Shangri-la, o País das Maravilhas, a Terra do Nunca etc. Não ficarei surpreso se muito em breve Cobra Norato for incluída nessa compilação. Não conheço no Brasil cidade imaginária mais fabulosa do que essa.

Três mistérios ocorridos em Cobra Norato já foram narrados em Ventania bravaBabel Hotel e Sonho, sombras e super-heróis. Nos próximos anos outros livros virão, com novos mistérios para os jovens leitores.

Daniel Lopes: um e-mail

08/02/2012

30.11.2011

Fala, maestro. Estou terminando a leitura do teu Sonho, sombras e super-heróis. Demorei um pouco porque fim de ano é uma correria danada pra mim. Tenho doze salas com quarenta e cinco alunos cada, imagina como não está sendo agora pra corrigir trabalhos e provas, fechar as médias, fechar o quinto conceito, que é o que decide quem vai e quem fica, enfim uma loucura.

Também tenho evitado ler às pressas para não perder as minúcias. A grande questão do livro, a meu ver, é uma questão filosófica: é preferível se aprofundar na existência e encarar a verdade e o desespero, ou é melhor ficar flutuando confortavelmente na superfície, perdido em drogas ou gases da felicidade? Paralelamente ao teu livro, maestro, estou lendo O desespero humano, do Kierkegaard, para quem só o desespero nos dá a possibilidade de uma existência autêntica.

Todos as pessoas, mesmo as mais fúteis e as mais blindadas, estão cercadas pelo desespero, pois, por mais que neguemos, ele cresce entre as fendas, provoca rachaduras em todas as armaduras. Cioran pergunta num de seus aforismos: “Todos os homens são miseráveis, mas quantos o sabem?”

Mais que um romance infanto-juvenil, é um romance filosófico esse teu Sonho, sombras e super-heróis. Nele é colocada a mesma questão que já havia sido posta por Platão no mito da caverna, e mais recentemente no universo pop pelo filme Matrix, no momento em que Neo tem de escolher entre tomar a pílula azul e continuar no sonho, ou tomar a pílula vermelha e ser arremessado pra fora da realidade virtual, onde tudo é mais dolorido, mais cinza, mais desesperador.

Não há escapatória. Kierkegaard diz que “sofrer um mal destes (o desespero) coloca-nos acima do animal, progresso que nos distingue muito mais que o caminhar de pé, pois é sinal da nossa verticalidade infinita ou da nossa espiritualidade sublime”. Se quisermos viver uma experiência plena da nossa espécie, temos de encarar o diabo de frente.

O bom é que em meio a todas essas questões profundas, você coloca muita ação, muita fantasia, reviravoltas e senso de humor, não fica chato, nem pode ser, uma vez que o livro busca o leitor jovem. É imprescindível o foco no enredo, essa categoria tão menosprezada pelos “grandes literatos”. Acertou mais uma vez, chefe. Só posso dizer que formaríamos adultos mas inteligentes, sensíveis e agradáveis, se teu livro fosse mais amplamente difundido, estudado e lido pelos adolescentes de nosso país.

Abração,

Daniel

Amigo, você sabe, não fossem as grandes distâncias e o trânsito infernal desta megalomaníaca megalópole, que sempre inviabilizam até as melhores conversas presenciais, nossa interlocução seria muito mais constante. Já começo a acreditar que São Paulo e seus engarrafamentos-monstro são o melhor estímulo para a difusão do skype entre os escritores. Em breve, conversar sobre Schopenhauer, Kierkegaard, Matrix e outros temas relacionados só será possível nos cafés virtuais.

Luiz

Booktrailer do novo livro

21/10/2011

Chegou!

12/10/2011

Acaba de chegar da gráfica o novo romance. A edição ficou pra lá de bela, graças ao capricho da editora e do ilustrador. Missão cumprida. Mais um filhote desembarca no mundo, saudável e robusto. Agora já posso deitar no sofá e relaxar. Tenho certeza de que os leitores se divertirão tanto quanto eu me diverti escrevendo essa nova aventura em Cobra Norato. Para mais detalhes sobre o recém-nascido, basta clicar aqui.

Sonho, sombras e super-heróis

08/04/2011

A próxima aventura em Cobra Norato saíra pela editora Autores Associados, de Campinas. O novo romance fará parte da coleção Ciranda de Letras, iniciada com o Nômade, de Carlos Orsi Martinho. O ilustrador Renato Alarcão, talentosíssimo, já finalizou a capa e neste exato momento está trabalhando nas imagens internas, que estão ficando excelentes.

O protagonista de Sonho, sombras e super-heróis é Efraim, um adolescente expert em internet e fã de histórias em quadrinhos. Nessa nova aventura, a cidade-espiral está prestes a ser dominada por um sujeito que se apresenta como Professor Mefisto. O gás da felicidade que mergulha toda a população de Cobra Norato num estado de sonho, de fantasia lúcida, é invenção do tal Professor. O choque de Efraim com Mefisto trará para a arena muitos andróides, uma poderosa inteligência artificial e também o imbatível Batman — ele mesmo, o Homem-Morcego!