Posts Tagged ‘Sozinho no deserto extremo’

Sobre o “Sozinho no deserto extremo”

28/09/2013
Anjo

Conheci Ricardo Santos na oficina de criação literária no Sesc de Cuiabá. Seus contos curtos, sempre inventivos e inquietantes, logo impressionaram o oficineiro e os demais oficinandos. Ricardo tem talento de sobra. O rapaz não apenas se destacou na oficina, como provou que já é um ficcionista pronto pra guerra. Anteontem, recebi um presente fabuloso: a mensagem abaixo, que me deixou no chão, nocauteado. Fiquei sem fala. Ainda estou afônico. Valeu, camarada!

Cuiabá, primavera de 2013

Bras, meu caro,

(…)

Já comentei antes que algumas analogias e construções imagéticas tavam muito fodas. Aquela da “fumaça cartilaginosa” me pegou de jeito. O que reparei é que o livro está inteiramente povoado dessas passagens. Nas descrições de cenários, nas divagações do Davi/narrador, em tudo. São breves momentos que fazem o leitor dar aquele risinho de satisfação, sabe? Tipo “putz, que foda”. Isso só enriquece. É chover no molhado falar que o livro tá bem escrito e com aquela maturidade de autor experiente, que sabe exatamente pra onde está levando a narrativa. Fico imaginando se isso não é uma característica das grandes obras, dos grandes autores, esses momentos sublimes dos risinhos povoando as páginas, essas sacadas fodas. O livro tem muito disso. Tem um capítulo específico perto do fim que você abre falando que as pessoas eram como bolinhos de carne esperando pra se comerem, achei genial.

Você comentou da boneca, a Graça. Puta merda, depois que ela aparece na história parece roubar o palco. É sensacional ela ganhando vida na cabeça do Davi, foi muito bem construída. Achei foda a forma como ela morre, achei foda você voltar e contar a história dela, contar o pós-morte, quando ela visita o cemitério. Tudo nessa boneca ficou fantástico.

Lembro que você comentou que o pessoal do mainstream achou que o livro tinha muita ação e o pessoal do gênero achou ele muito parado. Entendo o ponto de vista de ambos os lados, mas acho muito problemático enxergar o livro por esse viés do que faltou; é justamente esse meio-termo entre as ações (comer, fugir, tacar fogo, enfrentar os adversários, conversar com Estela) e as divagações, as contemplações, toda a construção da personalidade do protagonista e seus devaneios e seus flashbacks que dão o tempero do livro, que transformam ele numa coisa única. Da forma que está você criou um negócio que ecoa, que significa, e não fica na cilada do filme blockbuster ou do monólogo interminável. Achei genial esse balanço, mas compreendo que a maioria das pessoas esteja acostumada a obras que se posicionam em um dos extremos. Talvez um leitor iniciante ou não tão empenhado se incomode com a pouca quantidade de diálogos. Eu particularmente achei foda!

A forma como você deixa vazar todo esse referencial seu facilitou a conexão com o personagem. No fim, quando a gente já tá tão afeito a ele, a seus raciocínios e reações, parece difícil largar. Depois de acabar o livro fiquei com aquela sensação de vazio, de saudade. Não são todos os livros que deixam essa impressão. O mundaréu de referências na verdade até me fez querer reler o livro em um momento futuro com um caderninho do lado, pra pescar todas e ler/assistir/ouvir o que não conheço. Quanto ao Davi em si, eu diria que o mais impactante nele é o quanto parece real. As coisas que ele faz, no que pensa, as considerações sobre sexo, sobretudo, quando fala com a estranha no telefone e quando acha a menina, essa obrigação de paternidade com a criança, as defesas e reações com o magrelo, tudo me pareceu realista, como um ser humano agiria mesmo, no que pensaria, como lidaria com essa situação extrema e opressiva da solidão total, o instinto de sobrevivência. Nada soa forçado, nem mesmo as pirotecnias, tudo evolui naturalmente. Essa loucura, essa descida gradual. E organizar a história do jeito que você fez ficou ótimo pois deu ritmo à trama, esse vai e vem no tempo. A narrativa não linear funciona. Outra coisa interessante: isso me impediu de prever a narrativa; não antecipei o fim do livro em momento algum.

Um capítulo que me marcou foi o da Estela, relatando como aconteceu com ela o evento, quando ela contava até cinquenta no esconde-esconde. Ficou absurdo. Triste mesmo. E exemplifica o que eu disse da narrativa não linear; apresentar essa origem depois que já estamos habituados à personagem transforma o relato num negócio com muito mais peso.

Outro capítulo marcante foi aquele em que o magrelo e os dois gordos tão atrás do Davi e ele sobe na árvore pra se esconder: que capítulo tenso! Você só revela onde ele tá escondido no fim. A narrativa prendeu, funcionou, e fora isso a metáfora gritante do cara chegar com um lança-chamas, alguém que controla essa fúria natural que permeia todo o livro, justo o antagonista libertando um jorro calculado do elemento que parece (deveria, ele crê) pertencer a Davi.

Gostei do fato de não explicar o que acontece, o evento em si, não é necessário. Gostei da escalada da linguagem poética/metafórica no fim, quando você sente que o Davi está mesmo se habituando ao pensamento fantasioso. Gostei do fato de não haver um fim propriamente dito. Quando você chega ao último capítulo (Fome) já está tão arrasado por essa exploração da solidão no mundo que retroceder ao momento pré-evento soa até como tortura, uma tortura poética, e aí você vem e me fecha com “O maldito silêncio caindo como flocos de neve ou pétalas de rosa, cobrindo a cidade, o mundo. Um sólido dilúvio de quietude”. SÓLIDO DILÚVIO DE QUIETUDE: PUTA QUE PARIU!!!!!!!!!!!! Sério mesmo, que fechamento.

Sobre o crescimento do Davi com o fogo, o envolvimento, o ápice ao queimar São Paulo (que imagem impactante), o pedido da menina: essa gradual evolução da obsessão ficou não só legal como metafórica, mas também volta a uma coisa que eu tinha comentado contigo antes: como a primeira frase e o primeiro parágrafo do livro são belos, fortes. Na verdade, só dá pra apreender a verdadeira brutalidade desse primeiro parágrafo quando terminamos de ler a obra; aí sim se percebe como a malandragem de abrir com isso é na verdade muito mais significativa, simbólica, do livro como um todo. Você cospe a filosofia do romance em poucas linhas, brinca, dá toda uma ideia do macro naquele micro. É a coisa da maturidade, me parece: a concisão prensada numa pequena bala radioativa no primeiro tijolo textual: toma, leitor!

Enfim, Luiz. Já deu pra perceber que eu gostei muito. Confesso que não li tão rápido quanto queria, a intenção era comentar com você ao vivo: mas o livro oferece mais que uma leitura rápida, ele tem todo esse recheio que pode ser absorvido se você ler com calma, deixar o negócio rastejar pra dentro da sua cabeça. E não tem nada que eu não tenha gostado ou possa falar que alteraria. Sempre respeito as opções do autor, até comentamos isso: se você começa a opinar que podia alterar aqui e ali, porra, é outro livro, então senta e escreve o teu! Gostei, opinião sincera, mexeu comigo. É um prazer ver que esse tipo de coisa está sendo feita na atualidade aqui no Brasil, e me parece que devia ser mais valorizada do que é. Se bem que vejo muita gente admirando e comentando o teu trabalho, então que bom! Mais um leitor aqui. Agora aguardo o próximo romance, e enquanto isso tenho o teu livro de contos pra ler e outras coisas antigas, já que você produziu tanto.

Parabéns. Com o Sozinho você conseguiu, pelo menos com este leitor, o anseio de todo escritor: a entrega absoluta, a imersão, a vivência em conjunto com a narrativa. Podia falar mais, mas já falei muito.

Abraço,

Ricardo

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No Guia da Folha

30/09/2012

Entrevista no Estado de Minas

22/09/2012

A entrevista acima foi concedida ao jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes, para o caderno Pensar.

Conheço C.H.L. há muito tempo, desde o lançamento de Coração aos pulos (2001), uma excelente coletânea de contos. Recentemente participamos de um projeto incomum e inquietante, a coletânea Todas as guerras, organizada por Nelson de Oliveira. Meu conto foi sobre as Cruzadas e o de Carlos foi sobre a Guerra dos Cem Anos.

C.H.L. sempre esteve atendo à minha literatura e à de muitos outros escritores tupiniquins, de todas as gerações e constelações.

Bons ventos sopram do sul

12/09/2012

Porto Alegre manda (boas) notícias… O jornalista e escritor Luís Dill (gosto muito de Decifrando Ângelo e O dia em que Luca não voltou) apresenta o programa Tons & Letras na gaúcha FM Cultura. Terça-feira passada conversamos sobre meu novo romance, ou seja, sobre a solidão nas grandes cidades, a literatura pós-apocalíptica, o mundo sem ninguém, o fascínio que o fogo exerce em certas pessoas…

Depois, fora do ar, Luís me avisou que o crítico da Zero Hora, Carlos André Moreira, havia resenhado o romance. Fiquei feliz da vida, pois as resenhas desse rapaz, sejam elas favoráveis ou desfavoráveis, valem ouro. Abram bem as janelas, bons ventos sopram do sul. A avaliação de C.A.M. também pode ser lida aqui.

Sampa deserta

09/09/2012

Neste final de semana prolongado decidimos não sair da capital. Tanta coisa bacana acontecendo aqui… Por que não aproveitar a cidade deserta, sem trânsito?

Não foi bem assim. A cidade vazia nunca pareceu tão cheia. Um exemplo: amargamos uma fila de três horas, em pé, pra ver os impressionistas no centrão. Minha filha até brincou: “Nada mau se todas as pessoas desaparecessem neste exato momento.” Mas logo emendou, caridosa: “Só por uns dias…”

Sorte que na web não está sendo necessário enfrentar fila alguma. Cesar Silva e Paula Fernandes, queridos amigos e interlocutores, escreveram aqui e aqui sobre o novo romance.

Na Folha de S.Paulo

26/08/2012

Nelson de Oliveira troca de nome e estilo

Por Marco Rodrigo Almeida

Matéria excelente, que tratou com clareza e leveza, ou seja, com sensibilidade, a mudança de nome e estilo. De quebra, o divertido comentário de Marcelino Freire, colhido pelo jornalista, foi extremamente adequado.

Entrelinhas

15/08/2012

Quem há de negar que o programa Entrelinhas, apresentado pela atriz Paula Picarelli, foi um dos mais bacanas da TV Cultura? Ninguém. De 2005 a março deste ano, o programa mostrou a um contingente imenso de leitores, não leitores e futuros leitores, que a expressão boa literatura nem sempre é sinônimo de pedantismo e academicismo. Assisti a um sem-número de edições e escutei outro tanto (deixava a tevê ligada até mesmo quando eu precisava finalizar um texto).

Atualmente o Entrelinhas é um quadro do programa Metrópolis e um programa semanal da Cultura FM, sob a responsabilidade do jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto.

Recentemente Manuel me convidou pra participar de ambos. As participações já podem ser conferidas na web:

Entrelinhas: Confluências entre Música e Literatura

Entrelinhas: Metrópolis

Convite à solidão

09/08/2012

Cultura FM – Programa Entrelinhas

27/07/2012

O jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto convidou-me pra participar do programa Entrelinhas: Confluências entre Música e Literatura, apresentado por ele na Cultura FM (103,3). Topei na hora. Difícil foi escolher as composições. De uma lista inicial com minhas trinta músicas mais queridas, depois de muito sofrimento consegui selecionar oito.

O programa vai ao ar no dia 31 de julho, terça-feira, às 21h. O bate-papo com Manuel foi tão prazeroso, informal e descontraído, que estouramos astronomicamente o tempo regulamentar. Talvez uma ou duas composições precisem ser cortadas na edição.

1. Debussy: Prelúdio ao entardecer de um fauno. Homenagem musical ao célebre poema de Mallarmé, sobre o envelhecimento e o declínio do vigor físico. O fauno Mallarmé é o personagem-assombração do romance Poeira: demônios e maldições, de meu amigo Nelson de Oliveira.
2. Ravel: Pavana para uma infanta defunta. A música erudita e o cinema foram a principal matéria-prima do ficcionista Cabrera Infante em seu romance engraçadíssimo Havana para um Infante defunto.
3. Carl Orff: Veris leta facies. Duvido que o compositor estivesse pensando no Marquês de Sade, quando orquestrou esse poema medieval sobre a chegada da primavera. Mas o cineasta Pier Paolo Pasolini, em seu último filme, não deixou escapar essa triste constatação: a barbárie muitas vezes anda de mãos dadas com o refinamento.
4. Stravinsky: Os augúrios primaveris: a dança das adolescentes. Trecho do balé A sagração da primavera. Stravinsky é meu compositor predileto, sempre foi. Considero genial toda a sua obra, da primeira a última composição. Um de meus romancistas mais queridos, Alejo Carpentier, homenageou esse balé num romance também intitulado A sagração da primavera.
5. Prokofiev: Montecchios e Capulettos. Trecho do balé Romeu e Julieta. Shakespeare teria gostado de assistir à essa adaptação de sua peça mais popular. Tentei reproduzir, num dos capítulos do romance Sozinho no deserto extremo, o andamento e a atmosfera desse trecho magnífico.
6. Debussy: Hommage à S. Pickwick Esq. P.P.M.P.C. Debussy homenageou diversos escritores, a maioria poetas. Esse prelúdio é um delicado tributo ao romancista Charles Dickens e a seu personagem Samuel Pickwick. Os prelúdios de Debussy são a música-fantasma que assombram pelo menos três contos da coletânea Paraíso líquido.
7. Gilberto Mendes: O meu amigo Koellreutter. Finalmente um compositor brasileiro nesta seleção. O santista Gilberto Mendes (não deixem de ler seu livro de memórias, Viver sua música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à Avenida Nevskiy) homenageia aqui outra importante figura de nossa vanguarda: o alemão Hans-Joachim Koellreutter, que na juventude mudou-se para o Brasil, fugindo do nazismo.
8. Edgar Meyer: Please don’t feed the bear. Meyer é um compositor e instrumentista que transita por vários gêneros musicais. Uma descoberta recente, indicação do poeta Ninil Gonçalves. Gosto de ouvir seus CDs quando estou escrevendo.

Novo romance

14/07/2012

Um novo livro é sempre um momento de transformação. Prazerosa pra alguns autores, desconfortável pra outros. Transformação que se anuncia no início da escritura, queima o peito, congela a ponta dos dedos, intensifica-se na hora do ponto final, provoca febre, vai sossegando durante a revisão das provas e se completa na publicação. Nada permanece o mesmo no mundo, porque mudou o autor. Aquele que existia antes desse processo desapareceu. Outro surgiu em seu lugar.

Em alguns dias o novo romance estará nas livrarias. Sensação deliciosa: expectativa e eletricidade estática. Finalmente fora do meu alcance, a caminho da gráfica, que surpresas os personagens estão preparando? Que novidades saltarão das páginas quando eu começar a reler a jornada de Davi, quando o próprio Davi voltar a falar comigo através do narrador onisciente, quando tudo voltar a tremer, ruir e queimar, agora no formado de livro?

O design da capa e as vibrantes gravuras digitais internas são de Tereza Yamashita.

Duas sessões de autógrafos já estão agendadas: no dia 1º de agosto na Livraria da Travessa (Rio) e no dia 21 de agosto na Livraria Cultura (São Paulo). Mais detalhes, em breve.