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“Pequena coleção de grandes horrores” no Estado de Minas

30/04/2014

Estado de Minas

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Cristovão Tezza no Guia da Folha

26/04/2014

Tezza

Caos metódico

Autobiografia e ficção às vezes andam de mãos dadas na literatura de Cristovão Tezza. O exemplo mais óbvio é o premiadíssimo O filho eterno, de 2007, sobre a difícil relação de um pai e seu filho com síndrome de Down.

A problemática vida literária, que o escritor conhece tão bem, comparece no romance Um erro emocional (2010) e nos contos de Beatriz (2011). E há ainda a não menos problemática vida acadêmica, à qual o hoje ex-professor de linguística pertencia tempos atrás.

Logo nos primeiros capítulos, percebe-se que O professor é o romance mais bergmaniano de Tezza. Isso significa uma vitória, mas também um grande risco.

O professor de filologia românica Heliseu Silva é uma alma gêmea do professor de medicina Isak Borg, de Morangos silvestres. À semelhança do clássico de Bergman, a narrativa esfumaçada de Tezza, quase em preto e branco, viaja ao passado para um ajuste de contas.

No filme de 1957, o velho Isak vai de Estocolmo a Lund para receber o grau honorário da Universidade de Lund, por seus cinqüenta anos de carreira. No caminho, revive os principais momentos de sua vida, preocupado com a morte cada vez mais próxima. Viagem análoga faz o velho Heliseu, mas sem sair do lugar.

No dia em que receberá a medalha do mérito acadêmico, esse professor septuagenário movido a ansiolíticos começa a recolher, à roda de seu apartamento, os fragmentos de uma existência enfadonha.

No nevoeiro da memória, representam balizas fortes as mulheres de sua vida: a empregada, dona Diva, a esposa mal-amada, Mônica, e a paixão que o abandonou, Therèze. Outro ponto de apoio, que impede que Heliseu seja arrastado pela entropia, são as recordações habitadas pelo filho que o despreza, Duda.

Potencializando a confusão mental do protagonista, a narrativa alterna persistentemente, sem aviso, a primeira pessoa e a terceira. Tezza aproxima-se, dessa maneira, também de três mestres do discurso indireto livre: José Saramago, António Lobo Antunes e Evandro Affonso Ferreira.

Em romances como Memorial do convento (1982), As naus (1988) e Minha mãe se matou sem dizer adeus (2010), o trio criou os memorialistas mais mordazes e ranzinzas da literatura de língua portuguesa.

O aspecto mais interessante de O professor não é a trama trivial ou os conflitos íntimos, típicos do romance moderno e de seu apego ao cidadão comum. É a alternância de narrador. É certo caos metódico, que reforça a senilidade de Heliseu. Caos desenhado com elegância, que segura firme a mão do leitor, não deixando que este se perca.

O romance é atravessado por uma saborosa atmosfera de suspense, pois as situações são oferecidas em partes, por acumulação. Nenhuma lembrança surge por inteiro. O narrador duplo alterna poucas histórias e retorna a elas, sempre acrescentando um novo detalhe.

Até mesmo a luta trêmula com um nó de gravata confirma a tirada de Philip Roth, numa entrevista: “A velhice não é uma batalha, a velhice é um massacre.”

Tezza privilegiou mais o interior, a intimidade de seu protagonista, do que o equilíbrio entre sujeito e sociedade, entre o particular e o coletivo. No passado, uma boa fatia da história recente do país rebolou lascivamente diante de Heliseu, sem jamais conseguir penetrar sua consciência. Oscilações políticas e sociais nunca lhe interessaram.

Heliseu não dá a mínima para as maquinações da Ditadura Militar ou do Plano Collor. Maior importância têm as picuinhas do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas e dos áridos estudos filológicos. Dominam suas ruminações não a campanha pelas Diretas Já, mas o desejo pela distante Therèze (vinte anos mais jovem que ele), a homossexualidade do filho e a morte trágica da mulher.

A inflexão bergmaniana começa a pesar demais no terço final do romance, em que o processo cumulativo do narrador duplo já não surpreende e certa rotina passa a dominar.

Também o desenlace podia ser menos previsível. Mas esse detalhe está longe de ser um problema, numa narrativa tão engenhosa sobre a vida minúscula e a inevitável decrepitude.

O Professor
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Record
Quanto: R$ 32 (240 págs.)
Avaliação: Bom

Gabriel García Márquez na Folha de S.Paulo

19/04/2014

Gabo

Lírica e bem-humorada, prosa de Gabo tem alcance universal

Etiquetas ajudam a organizar o caos na livraria e na cabeça do leitor. Mas é certo que toda etiqueta precisa ser recebida com cautela. Entre os autores do realismo mágico – ou, se preferir, realismo fantástico – há mais diferenças de intensidade e linguagem do que semelhanças.

Os romances e contos de Gabriel García Márquez, por exemplo, são visivelmente menos complexos que os de Julio Cortázar, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa.

No festejado Cem anos de solidão (1967) e nos contos de A incrível e triste história da cândida Erêndira e sua avó desalmada (1972) há bem menos fragmentação discursiva, metalinguagem e fluxo de consciência do que nos igualmente festejados O jogo da amarelinha (Cortázar), A morte de Artemio Cruz (Fuentes) e Conversa na catedral (Llosa).

Dos ficcionistas do boom da literatura latino-americana, Gabo é, em essência, o grande sedutor, o ilusionista que cativa logo na adolescência. Essa característica deve ter pesado a seu favor, na votação para o Nobel de literatura.

Coisa mais fácil deste planeta é apaixonar-se por sua prosa sem obstáculos, por seus heróis inesquecíveis: os lendários Buendía, o mago Melquíades, o anjo cativo e o afogado rebatizado de Estevão, a bastarda e cândida Erêndira, o casal Florentino e Fermina, o desventurado Santiago Nasar etc.

Enquanto as torções de linguagem do melhor Cortázar – do Cortázar fascinado pelo jazz e pelo surrealismo – soam antipáticas ao leitor menos experiente, a fantasia lírica e bem-humorada de Gabo, sem contorções ou sobreposições polifônicas, conquista logo no primeiro contato.

Nesse caso, simplicidade não significa ausência de sofisticação. Significa, antes, alcance universal. Tão universal que o conto A luz é como a água, da coletânea Doze contos peregrinos (1992), pôde ser destacado do conjunto e relançado, com belas ilustrações, para o público infantil.

Tanto o ficcionista quanto o jornalista eram exímios contadores de histórias. Gabo dizia que sua primeira e maior influência havia sido a avó materna, dona Tranquilina, que povoara sua infância de fantasmas e milagres.

Narrativas como Um senhor muito velho com umas asas enormes e O afogado mais bonito do mundo são recriações latino-americanas do espírito fabuloso de As mil e uma noites árabes.

Comparar sua literatura com a dos mestres do realismo mágico não rende análises interessantes. O verdadeiro irmão espiritual de Gabo é Ray Bradbury, outro grande contador de histórias, um dos maiores do século 20.

Nem mesmo as dezenas de personagens reunidas para narrar a fundação e extinção de Macondo – miniatura da América Latina – conseguem complicar o alegórico Cem anos de solidão.

Os prodígios sobrenaturais que acompanham as gerações da família Buendía fluem pacificamente. A convergência de realismo e fantasia é tão natural que instaura, sem conflito, outra realidade, em que mito e sonho ganham total concretude.

Nos anos 50 e 60, cansado de tanta razão e civilização, o Velho Mundo foi arrebatado por essa atmosfera encantatória.

O encanto continua até hoje. Macondo é tão importante no imaginário literário, que gerou sua antítese: o movimento McOndo. Mas toda antítese não deixa de ser também uma forma de homenagem.

[ Publicado originalmente no caderno Mundo em 18 de abril de 2014 ]

Pequena homenagem

17/04/2014

Cem anos de solidão

Este miniconto pertence à Pequena coleção de grandes horrores, recém-lançada pela editora Circuito.