Archive for julho \29\UTC 2013

Um samurai arisco e enigmático

29/07/2013

Professor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, falecido em 2008, Haquira Osakabe foi uma pessoa extraordinária. Um intelectual insubstituível. Não, eu não o conheci. Nem sabia de sua existência, antes de receber os dois livros que acabam de ser lançados pela editora Iluminuras. Osakabe era do tipo extraordinário, insubstituível e principalmente circunspecto, avesso à exposição pública. “Calmo como um buda mas intenso como um samurai”, “um homem arisco, um pouco enigmático”, assim o definiram.

Quem não teve a sorte de conhecê-lo pessoalmente terá que se satisfazer com seus escritos analíticos.

Fernando Pessoa: resposta à decadência é um ensaio meticuloso, que apresenta a vasta obra de Pessoa e seus heterônimos como uma reação purificadora, contra o declínio da civilização europeia do final do século 19. Reação titânica, regeneradora do mundo, dividida em dois momentos radicais: primeiro, “a missão de fazer nascer no homem o seu deus-natureza e, com ele, a Criança Divina”; em seguida, a missão de regenerar simbolicamente “a figura também pura do Rei-Menino, Dom Sebastião”.

Mais didático e transparente que o estudo anterior, Fernando Pessoa: entre almas e estrelas nasceu de uma solicitação editorial. Osakabe foi convidado pelo editor da Publifolha a sintetizar a vida e a obra do poeta de muitas faces, para a coleção Folha Explica. Mas Osakabe faleceu, sem que tivesse anunciado a ninguém a conclusão do trabalho. Quem recentemente localizou o texto entre seus arquivos foram suas irmãs.

Completam o livro 50 depoimentos sobre Haquira, enfáticos e carinhosos, de colegas e ex-alunos. Depoimentos que acendem no leitor a vontade – agora impossível – de conhecer pessoalmente esse samurai arisco e enigmático, que não está mais entre nós.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de julho de 2013 ]

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Resenha da “Máquina Macunaíma”

24/07/2013

Ramiro Giroldo

Ramiro Giroldo, especialista em ficção de gênero e autor do estudo Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia, postou em seu blogue uma ótima resenha da Máquina Macunaíma. São leituras como essa, cuidadosas e exatas, que fazem valer a pena escrever e publicar, num mundo já abarrotado de livros de celulose ou eletricidade. (Pra ler basta clicar na imagem acima.)

Confesso que andava bastante chateado com o silêncio em torno do Sozinho no deserto extremo, lançado há um ano. Dediquei uns bons meses na escritura desse romance, que acabou ignorado pela maior parte da imprensa cultural tupiniquim. Não fossem os registros na Ilustrada e no Guia da Folha, o romance simplesmente não existiria pra nossa imprensa.

Desestimulado por esse fracasso, eu não planejava publicar nada este ano. Então me ocorreu seguir outro caminho: fugir do mercado editorial. Contornar a tradicional cadeia produtiva do livro (editora, distribuidora, livraria, imprensa) e fazer uma edição quase secreta. Apenas cinqüenta exemplares, sem ISBN, press release, estoque, nada disso. Dá pra ver que voltei no tempo, para a época da militância romântica em que uns jovens poetas (Bandeira, Drummond e outros) bancavam mínimas tiragens dos primeiros livros.

Recebi, por e-mail, vários comentários positivos sobre a Máquina Macunaíma. Isso já me animou bastante. A resenha de Ramiro Giroldo completou a transfusão de sangue que me trouxe de volta à vida. O zumbi renasceu.

Não sei se essa nova coletânea de contos um dia será relançada por uma editora comercial. O grande público parece não estar interessado em narrativas sobre a inconsistência da realidade, melhor dizendo, sobre a inconsistência de nossa mente para compreender a realidade. Mesmo que a edição fique restrita aos cinqüenta exemplares, não há problema. Com essa análise de Ramiro, e a leitura dos amigos, posso dizer que o círculo hermenêutico se fechou. Em pequena escala, mas se fechou. Maravilhosamente bem.

Mundos paralelos em Frankfurt

16/07/2013

Feira de Frankfurt

Com o passar dos anos, fui vencendo a timidez e aprendendo a gostar de compartilhar minha experiência literária com os leitores e também com os escritores em início de carreira.

Atualmente, mesmo detestando táxis, aeroportos, detectores de metal e aviões (quem não detesta?), não recuso mais um bom convite pra coordenar oficinas de criação literária ou participar de debates e mesas-redondas, fora do bairro onde me escondo. A vivência me ensinou a relaxar e curtir esses momentos preciosos.

Sendo assim… Hora de rechear a mochila. Este mês coordenarei uma oficina no Sesc Santa Rita, no Recife. Em agosto será no Sesc de Joinville e em outubro no Sesc de Florianópolis.

Também em outubro, na programação da Feira do Livro de Frankfurt, participarei de uma conversa com a escritora Maria Esther Maciel, mediada pelo crítico Manuel da Costa Pinto.

Pavilhão Brasil – dia 12, às 13h30

Mundos paralelos

Escritores também com intensa atuação na crítica literária, Maria Esther Maciel e Nelson de Oliveira (que atualmente assina como Luiz Bras) apresentam suas obras atravessadas pela arbitrariedade cerebral dos jogos ficcionais e pelos mundos paralelos da imaginação.

Valsar ou esgrimir

04/07/2013

Hilda Hilst

Não é nada fácil, a arte da entrevista. É como colocar para dançar duas pessoas que mal se conhecem. As chances de cotovelada ou chute na canela são grandes. Pior ainda quando os primeiros passos são tão desastrados que transformam a valsa num combate.

Existirá uma estratégia infalível para que uma entrevista seja proveitosa a todos os envolvidos: entrevistador, entrevistado e público? Como lidar com o mau humor e a antipatia? Como evitar a conversa anódina e a falsa informalidade? Fazer ou não fazer, responder ou não responder a perguntas atrevidas e íntimas?

A estratégia da australiana Ramona Koval, de Conversas com escritores (tradução de Denise Bottmann, editora Biblioteca Azul), não é a mesma da brasileira Betty Milan, de A força da palavra (editora Record), que não é a mesma dos vários entrevistadores que conversaram com Hilda Hilst, agora reunidos em Fico besta quando me entendem (editora Biblioteca Azul). Mas, apesar das diferenças, todas funcionam muito bem, equilibrando ganhos e perdas.

Para Ramona, especialista em lidar com escritores internacionais, uma entrevista literária não deve ser apenas uma apresentação dos traços mais notáveis dos livros de um autor. Para ela, uma entrevista literária tem de ser “um evento memorável, uma sondagem cirúrgica, uma encenação de intimidade”. Betty Milan, que conversou com uma gama variada de pensadores e escritores também internacionais, recusa-se a jogar com cartas marcadas, preferindo investir na liberdade e na surpresa.

Ramona gosta de concentrar o máximo de informação logo na primeira pergunta. Foi assim com Saul Bellow, Norman Mailer e Toni Morrison, entre outros. Betty Milan, de modo diferente, prefere que o entrevistado comece falando de um assunto de seu próprio interesse imediato. Foi o que fez com Jacques Derrida, Nathalie Sarraute, Octavio Paz e outros.

Menos internacional, porém mais irreverente e explosiva é a antologia de entrevistas com a bruxa Hilda Hilst, organizada por Cristiano Diniz. São cinco décadas de rancor e humor: a primeira conversa é de 1952 e a última, de 2003. Sempre insolente, sem papas na língua, Hilda não poupa a chibata. Repreende os lobbies literários, a crítica e os leitores que não a prestigiavam, reservando umas lambadinhas também aos que a prestigiavam.

[ Publicado originalmente no Guia da Folha de junho de 2013 ]